22 de setembro de 2014

Há certas tradições que não deveríamos deixar morrer…

Se antes a praxe estava sobre constante atenção, agora, após a tragédia do Meco, está sob um grande microscópico! Antes que ambos os extremos parem de ler e vão directos comentar para dizer barbaridades, gostaria de dizer que estive na Universidade, fui praxada, trajei, vi praxar, praxei, ainda verifiquei praxes e, por fim, queimei as fitas. 

Por isso, já depois de ter passado pelas diferentes fases e agora olhando para tudo do lado de fora, digo, com muito pesar, que as praxes não vão durar muito mais tempo ou então vão começar a tornar-se algo semelhante à Maçonaria em Portugal, algo pertencente a um submundo não-tão-secreto-quanto-isso. Talvez algo clandestino, com certeza. 

Isso entristece-me porque eu até gostei do meu percurso académico. Pessoal que me conhece bem refere que isso se deve a eu já ter, previamente, uma ideia muito fixa da praxe e isto deve-se ao facto dos meus pais, por motivos de trabalho, me terem levado para a Universidade enquanto crescia. Eu adorava ir quando havia praxes! Via jogos de todos os tipos, interacção, muitas partidas e também respeito. 

Ou seja, quando foi a minha altura de ser caloira, eu já tinha visto mais praxe que muitos doutores ou que muita gente na academia. Então, como caloira, já sabia o que era esperado de mim e talvez por causa disso tenha levado aquilo na desportiva, aproveitando ao máximo as brincadeiras. É precisamente isso que eu considero praxe, porque toda a gente pode mandar encher ou pôr de quatro, mas é preciso alguém com criatividade para inventar jogos ou tarefas para uma dúzia (ou mais) de marmanjos completamente assustados e sozinhos, de maneira a integrá-los nesta nova fase das suas vidas.

Isso sim é saber praxar! Foram esses os valores que eu vi na Universidade enquanto fui crescendo, mas acho que esses valores se estão, lentamente, a perder. Antigamente, a Bila era mesmo o fim do mundo e muitos dos estudantes não tinham possibilidades de ir a casa todos os fins-de-semana ou, sequer, de ligar. Então havia talvez um espírito de entreajuda muito maior que há agora ou, se calhar, apenas o espírito de “estamos perdidos no meio dos Montes, mas ao menos estamos juntos”! 

Será que isto está assim porque há mais facilidades? Ou mais pessoas frustradas a praxar? Ou o pessoal está mais mimadinho? Não sei… Só sei, sinceramente, que neste momento o bom-praxador é uma espécie em vias de extinção! 
Coisas como a história da Academia, o simbolismo do traje, entre outras coisas como a simples técnica de dobrar correctamente a nossa capa do traje, são coisas que são passadas de praxador para caloiro ou mais até de padrinho/madrinha para afilhado/afilhada, mas que estão a desaparecer por completo. 

Por isso acredito que muita praxe, de momento, sirva ou para libertar frustrações ou para caçar afilhados! Já são poucos os que tentam pensar em coisas engraçadas para integrar os caloiros no novo meio onde se encontram, porque eu acredito que muita gente tenha vindo estudar para a Bila durante anos e que no final tenha ficado a conhecer só a Universidade, o centro comercial, o Pioledo (zona de bares e cafés) e talvez as poucas discotecas que existem na cidade. Não conhecem o miradouro, as inúmeras Tunas, os covilhetes, as cristas de galo, a tradição do pito e da gancha, o ilustre Baca Belha, entre outros recantos e tradições que fazem jus às palavras de Miguel Torga sobre este “Reino Maravilhoso”. 

Quero acreditar que ainda existem bons praxadores ou pelo menos pessoas que percebam a essência da praxe e que vêem na Universidade algo mais que simplesmente um sítio onde tirar um curso. Em vez de haver campanhas anti-praxe, deveria haver mais campanhas da boa praxe! Vamos acabar com a má praxe, que, infelizmente, já existia mas que se está a instalar em força nas academias. Vamos elevar o espírito académico. Vamos manter esta tradição tão linda que é trajar pois em mais lado nenhum no mundo isso existe! 

E o órgão que está a tentar preservar isso na nossa academia é o Conselho de Veteranos. Um bem-haja a esse pessoal fantástico que por “amor à camisola”, agora que a época da “caça” começou, vai percorrer a Bila de uma ponta à outra não só numa de controlar a praxe mas numa de tentar manter os valores que referi. A verdade, contudo, é que cabe a toda a gente da academia que isso aconteça! 

Há certas tradições que não deveríamos deixar morrer…

2 comentários:

maria umbelina disse...

Eu não fui à praxe, mas para mim é diferente, como estudo à noite e acho que a praxe é só uma maneira de humilhar e não de integrar os caloiros, para mim não faz sentido. Se calhar se tivesse 18 aninhos e fosse para a universidade também não me faria sentido. A praxe como integração dos caloiros, forma de conhecerem gente, de conhecerem a tradição do sítio onde estudam, concordo e acho que é pena hoje em dia muitas das praxes serem só para humilhar o pessoal e não para o integrar.,

Sílvia disse...

Acho que quando entrei ainda me conseguiram transmitir algumas coisas, mas lá pelo menos havia um ou dois frustrados. Mas sim conheci muito da bila também graças à praxe, e ajudaram-me muito nos primeiros dias quando não conhecia nada nem sabia onde eram as coisas.