"As aulas começaram... Nada mudara, a mesma turma, as mesmas pessoas e mais um ano a tentar sobreviver no meio de pessoas entediantes mas ao menos o meu melhor amigo Pedro, como há poucos, ficou na turma apesar de já ter ameaçado mudar. Ele sabe que eu por mais que sofra eu não mudaria de turma por nada, isto é, mudaria se ela mudasse também.
Ela... Ela... Ela... Está no meu pensamento e principalmente no meu coração hà mais de dois anos... O seu cabelo a esvoaçar, os seus olhos a brilhar, o esticar dos seus lábios quando sorri, simplesmente, não me sai da cabeça. Quando eu olhava para ela, Pedro sabia perfeitamente que logo a seguir o meu coração ficaria reduzido ao tamanho de uma ervilha, então sabia perfeitamente o que dizer: “ Não vais começar com aquela cena do cabelo a esvoaçar, os olhos assim, o nariz assado, pois não? Porque é que só pensas nessas coisas? Ao menos experimenta olhar para o rabo dela... Ás vezes pergunto-me se és gay...”
Fazia-me rir e isso tornava tudo a cores outra vez.
Bem, mais um ano, mais vale entrar com o pé direito, e assim faço, coloco o pé direito em frente do pé esquerdo sobre a primeira porção de gravilha da escola. Não há muita coisa a descrever da escola, apenas paredes brancas, umas flores aqui e ali, e uns quantos arbustos que tinham que ser aparados quase todas as semanas...
- Olá Hugo!
- Olá Pedro! Então? A França estava boa?
- Oh... Mais ou menos, não consigo adaptar-me ao tempo de lá... Mas os chocolates estavam óptimos! – respondeu de sorriso de orelha a orelha
Sempre bem disposto este Pedro, nada o fazia ficar triste, nem mesmo daquela vez em que ele namorou com uma Sara, que ele gostava muito, e ela acabou tudo, apenas disse: “Mereço melhor!”
- Este ano qual era a novidade? – Quando o Pedro vinha de França a conversa sobre chocolates durava pelo menos uma semana. – Estou a ver pela tua cara que comestes bastantes...
- Chocolate com mel... – dizia ele lambendo os lábios – Divino, meu amigo, divino!
A madrinha do Pedro tinha ido trabalhar para França à 20 anos e sempre trabalhou na mesma fábrica de chocolates, e convida o Pedro a passar em casa dela umas duas semanas das férias grandes todos os anos e, como era de prever, não era preciso dizer duas vezes para o Pedro ir. É louco por chocolates! Mas como todos os adolescentes, sofre duma doença que é muito amiga dos chocolates: a acne.
- No ano passado fiquei pior... – disse rindo-se, passando a mão na bochecha cravada de borbulhas – E então, já a viste?
- Não... Ainda não a vi... – digo cabisbaixo
- Também tens tempo Hugo, tens o ano todo para a ver...
Não é verdade, já me tinham dito que alguém iria sair da turma mas ninguém me soube dizer quem...
- Vamos ver as turmas...
- Para quê?
- Anda lá...
Os placares das turmas estavam agora cheias de nomes de alunos mas a mim só me interessava ler um, apenas um!
- Que turma somos?
- Décimo primeiro B.
O meu dedo indicador correu os nomes de vários colegas nossos, até chegar ao que eu mais queria ler.
- Está aqui... – disse respirando fundo
- Mas tu duvidavas? Todos os anos diz a mesma coisa mas fica sempre...
- Tenho medo que alguma vez aconteça.
- Hugo... – Ele bem que queria repreender-me mas sabia que não valia de nada – Tu preocupas-me.
Trim!
- Olha o sino está a tocar, vamos para a sala!
- Qual é a pressa? – Era escusada a pergunta... – Ah! Está bem.
Acho que passos largos seriam um eufemismo, era mesmo correr, não queria perder o lugar, isto é, o lugar atrás dela!
- Porra, Hugo! – diz Pedro ofegante, com as mãos nos joelhos – Já pensaste ir para atletismo?
Espreito devagar para dentro da sala amarelada, cheia de cadeiras e mesas beges que convidavam vivamente a escrever o nosso nome ou uma expressão de amor lá.
- Ninguém. – disse sorridente
- Claro que não há ninguém, viemos a correr!
Respiro fundo, é agora, é ao fim de três longos meses que a vou ver...
- Nervoso? – perguntou Pedro com tom sério
- Não... Um pouco... Ok! Bastante! – é impossível mentir, eu transbordo nervosismo! – Achas que ela vai reparar?
- Não tenhas muitas esperanças, as raparigas ficam todas chateadas quando nós não reparamos nalguma coisa diferente nelas mas nem sequer são capazes de reparar em nós.
- Olha! Gente...
Ao longe vinham os nossos colegas de turma: “Ena!”, “Estás tão diferente!”, “Ficas mesmo bem assim!”, “Nem te reconhecia!”, diziam eles conforme iam chegando, até que...
- Hugo! – Pedro agarra-me no braço e aperta-o com alguma força.
- É ela, não é? Onde está?
- Não olhes, por favor...
- Não olho? O que se passa? O que tem? Onde é que ela está? – pergunto nervoso e ao mesmo tempo preocupado, olhando para todo o lado, até que os meus olhos pousam num cenário que eu nunca esperaria ver. “Não é possível”, pensei, não era ela, não podia ser...
- Nem parece ela, não é? Eu nem a reconheci com aquela roupa preta e os olhos vermelhos...
De preto, da cabeça aos pés, lá estava ela a chorar ao longe no ombro duma amiga, que não sabia o que dizer...
- Se calhar foi melhor assim... – dizia ela para a consolar mas pouco conseguia.
Lá estava ela... De preto, nem parecia mesmo ela, a menina cheia de vida, sempre sorridente, com os olhos a brilhar... Era a minha luz do dia...
- Vai ter com ela!
- Achas? É melhor não, não sei o que dizer... – digo eu, vendo-a a aproximar-se
- E é preciso dizer alguma coisa? – diz Pedro empurrando-me para a frente, fazendo com que embatesse nela...
- Oh, Hugo... – disse fungando – Olá, tudo bem?
Responde... Sim, está tudo bem... Precisas de alguma coisa? Responde!
- Sim! E contigo? – Que estúpido!!! E contigo? A rapariga com os olhos cheios de lágrimas e eu a perguntar “e contigo”?!
- Nada bem... A minha tia morreu ontem, estava muito doente sabes...
Aqui estava ela, à minha frente a falar comigo, fungando de vez em quando mas enquanto falava, os olhos iam ficando menos vermelhos e o seu verde ia ficando mais brilhante, não sei se talvez da luz ou das lágrimas. Só me apetecia dizer-lhe o quanto ela é bonita, o que sinto por ela e que quero ficar com ela para sempre...
- E foi disto, acho que no fim ela estava a sofrer e acho mesmo que foi melhor assim, mas eu gostava tanto dela Hugo... – E entra num pranto colocando as mãos à frente da cara e inclinando-se para a frente colocando a sua cabeça no meu peito. E agora?! O que faço? Nunca me senti assim, ela estava agora no meu peito a chorar e a única coisa que me ocorria era abraçá-la, colocar os meus enormes braços em volta dela mas os meus braços eram chumbo, não me conseguia mexer! Até que sinto uma mão a puxar-me o braço para cima, olho para baixo e era Pedro e gesticular freneticamente com uma mão para eu colocar os braços à volta dela, com grande esforço eu enlaço os braços sobre ela e encosto a minha face na cabeça dela.
Nunca senti tanto calor, nunca a tinha sentido assim, tão de perto... Apenas a ouvia chorar baixinho e fechando os olhos, comecei a sentir o perfume dela... Quase que partilhava o choro com ela...
- Obrigada Hugo... – diz afastando-se um pouco – És um óptimo amigo. – e nisto afasta-se caminhando perto das amiguinhas dela, deixando-me parado, sem fala...
Entramos na sala e ainda não proferi uma palavra, quando foi a chamada apenas levantei o braço fazendo notar que estava ali mas não estava, estava nas nuvens no mais alto dos céus.
- Sonhei... – digo, suspirando
- Não, não sonhaste... – diz Pedro com ar de felicidade, eu nem tinha reparado que ele tinha entrado comigo e ficado ao meu lado apesar de ficarmos sempre – Agora diz lá, queres deixar o suspense e dizer do que falaram?
- Parece que a tia morreu...
- Que mal.
- Pois...
- Hugo? Hello! Terra chama Hugo! Tens de acordar e lutar Hugo, não te soube bem esse abraço?
- Ainda perguntas?
- Então! Tens que lutar Hugo e é agora!
- Eu quero lutar por ela mas não é agora... Ela agora está em baixo e não me vou aproveitar disso, quero por agora continuar a ser um amigo.
- Então ao menos aproxima-te mais dela, conversa e assim, aquilo que tu estás sempre a dizer que pelo menos queres fazer...
- È o que eu mais quero... – digo olhando para ela, correctamente sentada como estava sempre, para aquelas mãos de menina agarrando um lenço de papel ensopado.
- Espero que tenham um bom ano lectivo! Estudem muito!
- O quê? Já acabou a apresentação? – digo desnorteado
- Claro, a maior parte do tempo tiveste a sonhar acordado. – diz Pedro a brincar – Agora a sério, vai ter com ela!
- E digo o quê? E faço o quê? Eu quando estou ao pé dela fico sem reacção...
- Já reparei. Leva-a até casa! Leva-a!
- Não sei... Não sei se ela quer...
- Ainda não lhe perguntaste! Vai perguntar-lhe.
- Está bem mas se ela responder que não, fico chateado contigo!
Pedro engole em seco, nem ele tinha a certeza que dizia mas não custava nada tentar... Mais vale uma tentativa falhada, do que nenhuma...
Aproximo-me dela, devagar, respirando fundo, treinando as palavras, agora tem que sair perfeito!
- Queres que te leve a casa? – digo quase em surdina
- Diz? Desculpa, não te ouvi com a barulheira...
- Queres que te leve a casa?
- A sério?
- Sim... – cuidado com as palavras – Se não quisesse não te perguntava.
Parvo, estúpido! O seres bruto não resolve nada! Pronto... Ela vai responder que não...
- É... – diz rindo-se – Isso é verdade... Vamos então?
Ufa! Ao menos levou para a brincadeira... Respiro fundo e tento caminhar ao seu lado enquanto fala do início das aulas, nunca tinha andado a seu lado, sempre atrás, para sentir o seu perfume, ou a olhar para ela, a admirar a sua beleza...
- Achas que vamos ter sorte com os exames este ano?
- Desculpa?
- Ai, Hugo sempre no mundo da lua...
- Não, desculpa... Eu estava a ouvir... – Tenho que estar atento ao que ela diz...
- Estava eu a perguntar-te se achas que vamos ter sorte com os exames este ano.
- Ah! Mas nós este ano não vamos ter exames...
- Não?
- Não, pelo que sei estamos a ser cobaias de um novo programa do Ministério. E este ano não vai haver exames, só melhorias de notas, – Aqui estava eu a falar com ela, de igual para igual, eu não mereço este momento, não mereço estar ao pé dela – e este ano as melhorias só sai a matéria que dermos este ano.
- Ena, estás sempre bem informado... Que bom! Estava um pouco preocupada porque tenho medo dos exames. – disse fazendo uma careta.
- Então porque não te inscreves nas melhorias? Assim preparaste para um exame a sério...
- Não sei... Tenho medo... E tu?
- E eu o quê?
- Vais-te inscrever?
- Sim...
- Ai é? Então vou falar com o meu pai, já que tenho que pedir dinheiro para isso não é?
- É... – disse esperançoso
- Então eu telefono-te ainda hoje para casa para te dizer alguma coisa, está bem?
Telefonar para minha casa? MINHA casa? Eu não consigo acreditar, ela vai ligar para mim, para MIM!
- Ok! – disse contendo um grito de alegria.
- Bem, é aqui... Obrigada por me teres trazido a casa...
- De nada, sempre às ordens... – Estamos nalgum quartel, ou quê? Sempre ás ordens?!
- À vontade, meu soldado! – disse, esticando os lábios, até fazer um tímido sorriso, aquele sorriso que eu esperei três meses para ver...
- Então, até logo. – disse subindo o degrau da sua porta e nisto inclina-se para a frente, esticando os braços e as mãos, levando-as à minha cara agarrando-a...
Engulo em seco, o que estava ela a fazer? Até que encosta os seus lábios à minha cara, dando um beijo de agradecimento na minha testa...
Não sei o que aconteceu a seguir, só dei por mim deitado na cama da minha casa, de braços estendidos e sonhar acordado com aquele beijo tão inocente...
O Pedro! Tinha-o deixado na escola, já nem me lembrava dele... Corro para o local da base do telefone mas não estava lá telefone nenhum. Malditas tecnologias, maldito telefone sem fios, agora tenho que procurar por toda a casa para ver onde deixaram o raio do telefone...
- Ah! Aqui estás tu...
Marco sem hesitar os números da casa do Pedro e mal toca a segunda vez, atende ele do outro lado:
- Seu estúpido! Já nem dizias nada? Estou curioso... O que se passou? Conta, conta...
- Ela beijou-me... – digo suspirando
- Hum, mas foi um beijo a sério?
- Deu-me um beijo na testa... – digo sentando na minha secretária
- Só na testa? Porra, como avanças devagar... Mas pronto e então que falaram?
- Falámos de coisas sem importância mas...
- Mas, o quê? Fala homem!
- Ela hoje vai telefonar-me para casa para me dizer se vai fazer melhorias ou não...
- Que fixe! Isso é óptimo! Agora imagina que ela telefona-te e diz-te que sim, o que dizes?
- Ainda bem, assim ficas com notas muito boas...
- Não! Nem penses em dizer isso! Dizes que ainda bem que sim e tal mas dizes logo que já que vão fazer os dois podiam estudar juntos...
- Estás doido? Não lhe vou dizer isso... Ela pode pensar outras coisas...
- Faz como quiseres...
- Olha e agora desimpede-me a linha que ela vai telefonar-me daqui a nada...
- Achas que sim? Ainda agora...
Nem teve tempo de acabar a frase, carrego no botão vermelho para desligar e fico extasiado a olhar para o telefone. Parecia uma eternidade...
Tlim! Tlim! Tlim!
É ela! Tenho que atender...
Tlim! Tlim! Tlim!
Digo “olá”, não, não, “estou?”, não demasiado formal, “quem fala?”, também não...
Tlim! Tlim! Tlim!
Porra, apenas atende!
- Estou sim?
- Estou? Boa tarde, estou a ligar de uma nova empresa de companhia de telefones, por acaso não estará interessado em mudar de companhia?
- Não, boa tarde! - E pumba, desligo o telefone!
Nem acredito... Companhia de telefones? Não têm mais nada que fazer? Devia ser um crime, aproveitarem-se de serem uma companhia de telefones para telefonarem para todas as pessoas...
Pouso o telefone na secretária e sento-me na cama.
- Ela não vai telefonar... Ela nunca iria telefonar-me...
Nisto puxo a gaveta de cima da minha mesinha de cabeceira e no meio de tanta tralha, porta-chaves velhos, perfumes, até cromos antigos, mas por cima disso tudo estava a foto dela, bela e esplêndida... Era uma foto pequena, daquelas de passe, que utilizávamos para colar no cartão de estudante, a foto em si era um crime porque quando ela estava a colar outra no cartão de estudante esta cai-lhe do bolso e o Pedro apanha-a sem ela dar conta! E depois aparece à minha frente de sorriso de orelha a orelha, a dizer: “Tenho uma prenda para ti!”, estendo-me a tal foto. De sorriso, de posse para a fotografia, lá estava ela de camisola vermelha com uma blusa branca por baixo...
- Como a tecnologia evoluiu...
É verdade! Apanhava a covinha do sorriso dela na perfeição! Passo o meu dedo pelo cabelo dela,
- Ainda hoje de manhã o tive entre os dedos, ainda hoje senti o seu cheiro... – digo colocando a mão aberta à frente do nariz, inspirando com força para tentar obter algum cheiro que restava do cabelo dela...
Tlim! Tlim! Tlim!
- Se for outra companhia de telefones... – atendo – Estou?
- Estou? É da casa do Hugo?
- É sim... – digo de coração a palpitar fortemente – É o próprio...
- Olá Hugo! Sou eu!
- Ah! – É ela! – E então tudo bem?
Tudo bem? Se ainda há bocado estiveste com ela e sabes perfeitamente a resposta...
- Já tenho uma resposta...
- E então?
- Sim! Vou fazer!
- Ainda bem... – ia começar a debitar aquela conversa de melhorar as notas mas lembrando-me do conselho do Pedro, não o fiz
- Olha, queria pedir-te uma coisa...
- Força.
- Vens amanhã comigo inscrever para as melhorias?
Era uma oportunidade única de estar com ela...
- Claro, passo em tua casa a buscar-te, ok?
- Ok.
- Olha... Eu não te cheguei a dizer, os meus pêsames... – QUE BURRO! Ela até já tinha sorrido e tudo! E tu foste lembrar-lhe disso! Vai começar a chorar ao telefone e tu não vais saber o que dizer...
- Obrigada Hugo... És um querido sabias?
Acho que corei por tudo que era canto da minha cara... Ainda bem que ainda não há videoconferência por telefone em Portugal...
- De nada...
- Bem tenho que ir, tenho o funeral da minha tia daqui a bocado...
- Ok. – O que dizer nestas alturas? “Um bom funeral”?
- Então, até amanhã...
- Sim...
- Tchau.
- Adeus.
E desligou... Não acredito, tivemos a falar ao telefone, estivemos a caminhar lado a lado para casa dela... Este dia não podia ficar melhor...
- As horas! – Não chegámos a combinar as horas...
Ia quase a procurar na agenda do telefone o nome dela mas...
- Se ela disse que foi agora para o funeral...
Bem, teria que esperar... E afinal o dia podia ficar melhor! Vou ouvir a sua voz mais uma vez! Só teria que esperar pela noite, esperar que ela chegue para lhe telefonar... É só esperar...
- Mas esperar é tão difícil...
Deito-me na cama a pensar... E se a tia dela não tivesse morrido no dia anterior? Não devia pensar nestas coisas, pobre da senhora... Mas não querendo ser hipócrita, foi a única coisa em cinco anos que nos juntou para falar...tão perto...tão sinceramente...
Já tínhamos falado de outras coisas, do tempo, dos testes... Coisas que não se comparam com o que falamos hoje... Ela desabafou comigo, preferiu desabafar comigo do que com as amigas dela... Deve significar alguma coisa...
- Não ganhes esperanças... – digo triste
Mas realmente este é o melhor início de ano lectivo que já tive... Realmente se não fosse pelo...
- Pedro! Deve estar roído de curiosidade...
Pego no telefone, na verdade contar o que disse pelo telefone com ela, não era uma grande prioridade mas como também não tinha nada que fazer...
- Estou?
- Sim?
- Pedro?
- Hugo? Então? Já telefonou? Demorou bastante...
- Sim... Ela quer ir comigo inscrever-se para as melhorias...
- Ah? Mas as inscrições não abrem só no fim das aulas?
- Pois é! – digo batendo com a mão na testa...
- Deixa estar, ao menos estás com ela um pouco... Isto é, se fizeres que não sabes de nada...
- Não, digo que me enganei...
- Olha, queres estar com ela?
- Sim, claro que sim, porque é que ainda me perguntas?
- Sim, realmente, que pergunta estúpida... Mas se queres tens que fazer de conta que não sabias de nada, ok? Porque senão aí ela vai pensar que fizeste de propósito...
- Mas eu não quero isso...
- Eu sei, por isso mesmo tens que fazer o que te digo.
- Hum... Está bem.
- Ainda bem! E então e falaram de mais o quê ao telefone?
- Bem, ela... – Ela tinha-me chamado de querido, só agora é que me tinha apercebido disso!
- Ela o quê?
- Ela chamou-me de querido.
- Ah! Ah! – ria-se que nem perdido – O Hugo ficou coradinho, coradinho ele ficou... Ah! Ah!
- Não te rias... Olha que fiquei mesmo.
- Bem deixando de brincadeiras de lado, a que horas combinaste com ela?
- Não combinei, devia ter combinado mas ela ia para o funeral da tia.
- Hum... Isso é mau...
- Olha que não! Assim telefono-lhe outra vez e falo com ela.
- Ah, pois é. Agora vê lá se não ficas especado ao telefone, tipo uma menina.
- Achas? – digo num tom de gozo
- Tenho a certeza, Hugo! Bem amigo, tenho que ir, a minha mãe quer que vá com ela ao supermercado.
- Olha não é a controlar os teus gastos e nada mas, já não foste ao supermercado a semana passada? A tua mãe não gosta nada de ir às compras e compra logo um montão de coisas...
- Pois é mas como estiveram aqui os meus tios de França e da Suiça, houveram grandes jantares e almoços, logo gastaram-se rápido...
- Pois, imagino, se forem todos como tu.
- Ah! Pois é, família é assim... Tchau aí!
E desligou.
A família do Pedro era muito esquisita, comiam imenso mas era muito difícil engordarem, quando a mãe do Pedro o vinha buscar, aqui a casa, a minha mãe gabava sempre o físico dela. Mulheres...
Agora ela...ela...ela... Ela era diferente, ela era simplesmente linda e maravilhosa...
- Só de imaginar que a tive nestes mesmos braços... – digo esticando os braços olhando para eles
- Olá filho!
- Olá mãe! – respondo atarantado, nem a tinha ouvido entrar
- Como foi a apresentação?
A melhor de sempre! Melhor não podia haver!
- Foi a mesma coisa que os outros anos...
- Depois não te esqueças de me dizer quando é que é a reunião dos pais...
- Está bem...
- Vamos jantar?
- Ok...
Comi apenas uma pequena porção do que eu costumava comer, nervoso e apaixonado, não era lá grande mistura para ter apetite.
Mal acabo de jantar corro para a base do telefone mas não encontro lá.
- Outra vez?
Mas reparando melhor...a luzinha de chamada estava acesa.
- Pronto a minha mãe começou as chamas dela, só telefono daqui a pelo menos uma hora... – digo caminhando desanimado para o quarto, quando por trás de mim...
- Hugo, é uma chamada para ti filho, é uma colega tua. – diz a minha mãe dando-me o telefone.
É ela... Só pode ser ela...
- Sim?
- Hugo?
- Sim...
- Sou eu!
- Ah! Olá!
- Esqueci-me de combinar as horas...
- Pois, também eu.
- Vamos de manhã?
Pobrezinha, ao menos não ia acordar cedo, não queria mentir-lhe mas...
- Que tal irmos de tarde? E aproveitávamos a manhã para dormir um pouco...
- Boa ideia, aproveitar a liberdade não é? – disse rindo-se
- É... Então a que horas te vou buscar?
- Podia ser depois do almoço... Ás duas?
- Ok. – Nem sei se vou aguentar – Então até amanhã?
- Sim, dorme bem e...obrigada por tudo...
- De nada, não tens nada que agradecer, – E os amigos são para as ocasiões e tal, não vou chateá-la com isso – dorme bem!
Acho que não vou conseguir aguentar até amanhã, é tanto tempo... Eu queria estar com ela, abraçá-la, protegê-la, sentir o seu cheiro maravilhoso que me deixa extasiado.
Deito-me na cama, a pensar que o amor é complicado, agora não me podia sentir mais leve mas pesado ao mesmo tempo.
Estou a começar a ter esperanças, o que é mau porque ela nunca quererá namorar comigo, nem eu lhe pediria uma coisa dessas... Ao menos que seja minha amiga, para mim é suficiente, mais que suficiente! Prefiro tê-la como amiga, do que não tê-la.
Deitado, de braços atrás na nuca, começo a lembrar-me dela, do que sinto por ela, “mais uma vez no mundo da lua” como diria ela, mas não... Eu vivo no mundo dela, no dela...
- O beijo... – digo, acariciando a testa
Foi um beijo tão inocente, tão delicado mas foi o melhor beijo da minha vida. Também não tenho muito com que comparar, o meu primeiro beijo do que me lembro foi num jogo com uma garrafa de Coca-Cola a rodar e várias pessoas colocadas numa roda, ela estava lá e rezei tanto para que a garrafa parasse em mim... Mas não, a garrafa ruidosa pára subitamente num colega da minha turma... Desiludido mas ainda com alguma esperança, rodei a garrafa e tentei criar, uma espécie, de momento esotérico: fazer com que a garrafa parasse em frente dela! A garrafa começava a parar, a fazer soar o barulho da gravilha e pára em frente duma outra rapariga, Sandra Calas, lábios finos e sabor a morango, apesar de não ter gostado do meu primeiro beijo, nunca se deve esquecê-lo, seja com quem for.
Não tinha ideia de um primeiro beijo assim, desajeitado e húmido, “Não nascemos ensinados” disse Pedro uma vez, acho que é melhor assim, seria um pouco aborrecido se nascêssemos ensinados.
- Bem, vamos mas é dormir. – digo abrindo o guarda-fatos tirando a t-shirt azul que tinha vestida – Estou diferente! – digo parando o olhar no espelho
Olho atentamente para o espelho, implantado na parte de dentro da porta do guarda-fatos, olho para uma silhueta de um rapaz de dezassete anos, diferente do rapazinho franzino, baixo e com os típicos óculos azuis-escuros. Agora já não é um rapazinho, já não é um menino e não pode voltar atrás e já não é baixinho!
- Um metro e setenta e nove. – digo orgulhoso de mim mesmo
E já não tem óculos, agora são lentes transparentes. Vejo um pouco de barba a crescer na minha face que jamais será a mesma, vejo os pêlos no meio do meu peito e abaixo os abdominais trabalhados.
- Estou diferente... – concluo
Acabo de me vestir e deito-me debaixo dos lençóis, tentando sonhar com ela, com ela, com ela...
Não gosto de sonhar, já sonho bastante durante o dia apesar de saber o meu lugar, ao lado dela sim mas como amigo, a ouvi-la, a desabafar com ela...
- Filho! Hugo!
- Mãe... mais cinco minutos... – respondo preguiçoso
- Nem pensar, tens que almoçar... – diz a Sra. Dona Mãe
- Almoçar?!
- Claro...
Tão tarde! Salto da cama, corro para a casa de banho, tomo um duche rápido, corro para a mesa sento-me no meu lugar, em frente à minha mãe, e olho para o relógio de metal com os ponteiros pretos, que tinha o mais pequeno no 1 e o maior no 6.
- Uma e meia... – digo em surdina – Tenho meia hora.
- Hugo, estás cada vez mais parecido com o teu pai! – dizia a minha mãe olhando para mim e para o meu pai.
Realmente estava com a mesma expressão facial, o mesmo tipo de cabelo...
- Serás um playboy, Hugo. – diz o meu pai batendo-me nas costas.
Playboy? Eu só quero uma, ela... Ela! Tenho que a ir buscar!
Como numa velocidade voraz, corro para a porta...
- Menino, não tens cinco anos, já lavar os dentes!
A mãe com as suas exigências, é o que dá ter uma dentista em casa.
Lavo os dentes a correr e aí sim, saio de casa e ando a passo acelerado para a casa dela, encho o meu peito de ar mas pouco conseguia respirar devido aos nervos. Isto é praticamente uma saída... Não demorei muito a chegar a casa dela, cheguei à sua porta e fiquei especado a olhar para a porta, ainda ontem aqui estive a receber o melhor beijo da minha vida!
- Acorda Hugo! – digo a mim mesmo e nisto subo o degrau e toco à campainha
Tlim!
Espero um pouco... Não deve ter ouvido...
Tlim!
- Se calhar esqueceu-se... – digo triste – Bem uma última vez...
E quando ia colocar o meu dedo na campainha ela surge-me por trás.
- Bum!
- Ah! O-olá! – digo gaguejando
Não é tempo para gaguejos!
- Desculpa fui passear a minha cadelinha, – disse olhando para uma cadelinha com o pêlo todo branco – vou só deixá-la em casa e já desço, ok?
- Sim.
E lá ia ela, abrindo a porta com uma chave pequena com as suas mãos de tom moreno com gestos de princesa. Já me tinham contado que ela não deixa qualquer um entrar em casa dela, nem ás amigas ela deixava entrar, todos achavam mal mas eu não tinha opinião formada, acho que se ela quer guardar o espaço dela está no seu direito e assim só deixa entrar quem ela sente mesmo uma amizade forte.
- Vamos? – disse fechando a porta verde atrás de si
- Vamos... – Não sabia o que dizer, não havia inscrições nenhumas, só apetecia dizer-lhe isso neste preciso momento mas...estou com ela...
- Já sabes mais ou menos quem vão ser os nossos professores?
- Não faço a mínima ideia, – digo encolhendo os ombros – quem sabe não são os do ano passado.
- Era fixe que fossem, eu gostei dos “profs” do ano passado.
- Não eram maus de todo. – Engulo em seco, ela estava a falar comigo e de cada vez que dizia alguma coisa olhava sempre para mim com aqueles olhos verdes de gato. – Não está calor?
- Pois é, tens razão. Este tempo é um pouco esquesito, de manhã está frio e de tarde está muito calor...
- Chama-se aquecimento global.
- Pois, já imaginaste que qualquer dia já nem o ar poderemos respirar? – disse ela olhando para mim abrindo aqueles enormes olhos...
- Realmente...
Entrámos na escola, vazia e deserta, também ninguém queria estar na escola sabendo que as aulas começavam amanhã, caminhámos para a Secretaria que era logo na entrada, bastou-nos entrar virar à esquerda e abrir a grande porta de madeira maciça.
- Boa tarde – disse ela com a sua voz de menina – queremos nos inscrever para as melhorias...
- Para as melhorias? – disse a mulher rouca
A senhora que atendia ao balcão na Secretaria era muito simpática, de cabelo grisalho e pele enrugada atendia os mais rebeldes dos alunos com a maior das calmas, só perdeu a calma uma vez, quando soube que tinham roubado o cofre da escola.
- As inscrições para as melhorias, linda são só no fim das aulas.
- Oh! Viemos por nada.
Dizendo isto saímos pela porta da Secretaria e caminhámos para a entrada da escola, neste momento conseguia ouvir o caminhar dos meus ténis na gravilha e o meu coração a bater. E já começava a suar das mãos...
- Desculpa ter-te feito vir por nada Hugo. – disse com a sua voz carinhosa – Eu não sabia.
- Deixa estar, não tens nada que pedir desculpa... – Não sabia mesmo o que dizer nesta altura, mas estava contente por ter estado com ela este bocado, neste bocado tinha estado no paraíso. – Então eu levo-te a casa?
- Sim... Mas com uma condição...
O que viria ali? Eu já estava nervoso mas agora estava bem pior...
- Vens comer um gelado comigo primeiro. – disse sorrindo
Agora sim pude estimar a beleza do seu sorriso, aqueles lábios com um tom avermelhado a formarem o sorriso mais lindo que eu já vira.
- Está bem! – disse contente e retribuindo o seu sorriso – E queres ir comer onde?
- Que tal ao café do Jardim?
Do Jardim? Era o local mais romântico da cidade! Aí podia-se apreciar o deitar do Sol nas planícies transmontanas.
- Claro.
O Jardim não era muito longe da escola mas nesse tempo falámos de tanta coisa, de travessuras enquanto pequenos, episódios com professores e ao chegarmos ao Jardim apercebemo-nos que a única coisa que sabíamos um do outro era o nome e onde morávamos.
- Desejam alguma coisa? – Veio o empregado, mal nos sentámos nos bancos de ferro forjado.
- Gelado de baunilha – dissemos em coro, olhámos um no outro e começamo-nos a rir, até tínhamos os mesmos gostos e nem sabíamos. Eu também nunca me dei a conhecer.
- Ninguém come só baunilha!
- Pois é, ou é gelado com baunilha e morango, chocolate, ananás mas só baunilha também nunca vi ninguém comer.
- É verdade, quando eu vinha aqui com as minhas amigas elas chamavam-me de esquesita. - dizia ela rindo-se ao mesmo tempo
Chegando os gelados comemos enquanto falávamos, nunca parávamos de falar, quanto mais falávamos mais descobríamos coisas um do outro em comum! Adorávamos cinema, e até gostávamos do mesmo grupo musical!
- Sabes... Quando estávamos a vir para a escola eu reparei que estás diferente.
Engulo o gelado todo que tinha na boca, congelando-a, ficando sem voz. Ela reparou...
- Achas?
- Sim... Estás mais alto, mas isso reparei na escola, mais entroncado e reparei numa coisa... Que vergonha...
- Que vergonha o quê?
- Só agora é que reparei que tens uns olhos azuis lindos!
Agora não me podia queixar das tecnologias, ela agora estava mesmo à minha frente e eu a corar feito um tomate.
- Mas não entendi onde está a vergonha... – digo mudando um pouco de assunto
- Oh! Já reparaste que estamos na mesma turma desde o sétimo ano e só agora é que reparo que tens olhos azuis?
- Mas não é nada de importante...
- É sim, nunca vi uns olhos de um tom como os teus, são mesmo lindos...
Já tinha voltado ao estado normal mas ela não me dera hipótese de recompor, voltei a corar...
Falámos de tudo um pouco enquanto comíamos os gelados, da minha família de como era ter uma dentista em casa e um contabilista.
- Então é por isso que tiras tão boas notas a matemática!
Depois a conversa mudou para o lado dela, perguntei-lhe o que a mãe fazia e se era tão chata como a minha! Parecendo uma pergunta como as outras, ela fica cabisbaixa e começa a rodar a taça do gelado.
- Disse alguma coisa de errado?
- Não...não... Isto é... Hugo nós nunca fomos grandes confidentes mas revelaste-te um grande amigo e um verdadeiro ouvinte... Eu vou-te contar uma coisa que eu não conto a toda a gente, a nossa turma não sabe...
- Se não me quiseres contar estás à vontade...
- Não... És um verdadeiro amigo e eu não quero ter segredos para contigo e também está na hora de eu superar isto...
Engulo em seco outra vez... Estava mesmo a ver o que ela ia dizer, que a mãe estava doente ou algo assim, e que tem que tratar dela...
- A minha mãe morreu quando eu vim para aqui para o sétimo ano.
Acho que deixei descair o queixo. A menina alegre, com um sorriso que irradiava luz escondia um segredo que ninguém imaginara que existisse...
- Não sei o que dizer...
- Então não digas nada... Hugo, eu nunca contei isto a ninguém, pelo menos da nossa turma, não quero que sintam pena de mim, que olhem para mim de maneira diferente, percebes? Só há dois anos é que disse para mim própria: Tens que te recompor e voltarás a rir, outra vez! Eu tinha que me fazer de forte com o meu pai...
- Eu percebo, não precisas de dizer mais nada.
E ficámos assim, a olhar um para o outro calados, levantámo-nos calados e sentámo-nos nas pedras trabalhadas em direcção ao pôr-do-sol, calados. Sentámo-nos um ao lado do outro a olhar para o horizonte mas o horizonte não era tão lindo quanto ela, ela olhava nostálgica e melancólica para a paisagem e eu...olhava nostálgico e melancólico para ela, ela tinha desabafado comigo o grande segredo dela, éramos melhores amigos.
Sem dar por isso o Sol começa a pôr-se e o cor de laranja tomou conta de nós, tudo parou no Jardim para ver o espectáculo que todos os dias àquela hora se repetia mas ninguém se fartava de o ver, sentia-me livre... Sentia que podia voar por aquelas planícies e dizer que a amo.
- Obrigada por me ouvires. – disse ela enrolando o seu braço no meu pescoço e abraçando-me com força
Senti o calor outra vez, o perfume outra vez... Abri os olhos e aí reparo que ela estava vestida com um top branco, sem costas, e de jeans escuros, reparei que tinha a minha mão nas costas dela. Senti tocar os meus dedos na pele morena e macia, a passar pelos cabelos lisos.
- Não tens nada que agradecer. – digo por fim
- Sabes, - disse ela separando-se e olhando para mim séria – és diferente dos outros rapazes...
Ri-me.
- De que te ris?
- O Pedro diz a mesma coisa... Mas porque dizes isso?
- Não és como os outros, os outros teriam tentado alguma coisa, teriam tentado algo mais, mas tu não, és um verdadeiro amigo, daqueles que não se encontra facilmente.
- Eu nunca me aproveitaria de ti...
Ela sorriu e beijo-me com força na testa.
- Já é tarde, tenho que ir para casa ou o meu pai começa a telefonar para todos os hospitais. – disse, rindo-se
Sorri para ela. Nesse preciso momento me apercebi que ela merecia muito mais do que eu...
Levei-a a casa, de boa disposição rimo-nos por tudo e por nada, parecíamos dois maluquinhos, a passear na rua e a rirmo-nos das piadas um do outro. Chegámos por fim à porta verde escura, com a fechadura de bronze onde lá cabia a mais pequena das chaves.
- Até amanhã. – dissemos em coro
Vi-a entrar pela porta e a despedir-se com um aceno. Agora seria tudo diferente, agora éramos amigos.
No dia seguinte voltámos para a escola, o Pedro parecia uma alcoviteira querendo saber tudo mas tinha que lhe contar aos poucos porque agora...
- Olá rapazes!
- Olá! – disse Pedro surpreso
- Hugo conta aquela piada que contaste ontem! Queria contar ao meu pai mas já não me lembrava do princípio. – disse fazendo uma careta
Contei a anedota e ficámos ali os três a contar piadas que quem passasse dizia que não tinha graça nenhuma... Desde aí ela vinha sempre para ao pé de nós nos intervalos e quando as aulas eram por turnos, quando o Pedro ficava no segundo turno e nós no primeiro sentávamos um ao lado do outro, a rirmo-nos do que a professora dizia e da forma de como dizia, isto é, tinha sotaque alentejano.
O ano inteiro juntos ora a conversar ora calados, sabíamos perfeitamente quando um estava triste, chegávamos até a terminar as frases um do outro!
- Até parecem almas gémeas... – dizia Pedro em tom irónico
- Não vais fazer de menina, pois não?
- Fazer de menina, eu?! Porque dizes isso?
- Estás ciumento, é?
- Estás com umas piadas... – dizia ele rindo-se
Chegámos a ser chamados: os três mosqueteiros! Ríamo-nos sempre que diziam tal coisa.
Foi muito divertido este ano lectivo mas chegara ao fim, e apesar de estudar com afinco havia notas a melhorar...
- Hugo já sabes o que vais fazer? – perguntava-me ela vendo as notas
- Sim: Ciências e Inglês.
- Ah!
- O que foi?
- Também tenho que fazer a Ciências mas a outra vou fazer a Matemática. – rindo-se – Achas que me podias ajudar com a Matemática? E depois eu compensava-te ajudando em Inglês...
- Uma boa troca...
- E depois estudávamos os dois a Ciências...
- Se quiseres...
- Olha, o Pedro não vai fazer melhorias?
Ri-me, Pedro ia passar um mês inteiro em França, ficou delirante quando a tia o convidou para ir um mês e ainda a ajudar na fábrica!
- Olha ele vem aí, pergunta-lhe... – digo rindo-me
Ela desconfiada pergunta ao Pedro.
- Pedro, porque é que não vais fazer melhorias?
- Ah! Chocolate, minha amiga, chocolate! Este ano vou mais cedo para França e vou ficar lá um mês! E ainda vou ajudar a minha tia na fábrica!
- Só podia ser... Então vê lá se trazes chocolates para dividir!
- Vou pensar no vosso caso... – disse fazendo ar de pensativo – Vim-me despedir de vocês, o meu voo é amanhã.
- Boa viagem, Pedro. – disse ela dando-lhe dois grandes beijos na face
- Boa viagem, amigo. – disse dando um abraço
- Não fiques ciumento... – disse em surdina no meu ouvido
Vimo-lo a afastar-se a ir em direcção ao carro da mãe, mais feliz não podia ficar.
- Queres começar a estudar? – disse ela com ar de determinação
- Pode ser, começamos por onde?
- Pode ser Matemática? É o primeiro...
- Está bem, se quiseres podemos ir para minha casa estudar, depois se ainda continuares com dúvidas perguntas ao meu pai.
- Hum... Dois explicadores, melhor não podia ser! – disse rindo-se, semicerrando os olhos, mesmo assim mostravam o seu esplendor – Agora se não te importares íamos a minha casa primeiro buscar os livros...
- Está bem!
Fomos então para casa dela, imaginando pelo caminho o Pedro numa fábrica de chocolate, ríamo-nos que nem perdidos...
- Anda! - dizia ela segurando na porta verde escura
- Tens a certeza? – pergunto em tom sério
- Se não tivesse não te convidava... – disse com um sorriso
Então entrei e olhei para a casa mais organizada que já tinha visto...
- Está muito bem arrumada não é?
- É! – digo com ar espantado
- O meu pai é muito perfeccionista.
Tinha um pequeno hall à entrada, com umas caixas de música de madeira escura, pequenas mas muito bem feitas e com fotografias, dela e com a mãe. Ela era muito parecida com a mãe, os mesmos olhos, o mesmo tom de pele, só o cabelo era diferente, o da mãe era encaracolado e o dela era liso.
- A única coisa que herdei do meu pai foi o cabelo. – disse rindo-se, apercebendo-se que eu estava a olhar para a fotografia
- Era muito bonita a tua mãe.
- Pois era... Mas anda lá, vou-te mostrar a casa...
Passamos então pelo pequeno hall onde nas suas paredes estavam penduradas máscaras de pau-preto.
- O meu pai esteve em Moçambique. – dizia ela apontando para um grande mapa feito de pele, que indicava um dos continentes: África
Entrámos então numa sala, cheia de cultura africana, tinha manuscritos emoldurados, estátuas de girafas da altura dela, era muito acolhedora, com cores quentes... Então daí fomos para o quarto dela, era totalmente diferente do resto da casa.
- A minha mãe diz que em pequena gostava muito das camas assim...
Ela tinha uma cama em dossel com cortinas cor-de-rosa e uma colcha da mesma cor, que se percebia que tinham sido feitas à mão. Tinha um armário embutido na parede, uma secretária de madeira preta e uma estante cheia de livros.
- Eu já sabia que eras doida por leitura... Mas isto é um exagero – digo rindo-me, olhando para a estante que ocupava uma parede inteira!
Ela ria-se, enquanto que procurava os livros no meio daquele mundo da literatura. Até que os meus olhos se pousaram numa caixa de música de madeira clara, completamente diferente da madeira utilizada na casa toda. Inclino-me e reparo no pormenor do tampo da caixa, feito à mão, uma árvore gigantesca ocupava o tampo da caixa de música.
- Estas caixas ainda se fazem?
- Não... – respondeu ela sentando-se na cama – Senta-te aqui.
Sentei-me ao lado dela, a olhar para a caixa de música e para os seus olhos a brilhar de uma maneira que eu nunca vi.
- Esta caixa de música foi da minha mãe, e ela ofereceu-ma antes de morrer... A minha mãe viajava muito e foi por isso que ela conheceu o meu pai, por ter ido para Moçambique visitar uma terra de colonos, mas esta caixa veio da Rússia, onde existe uma vasta produção delas, mas esta a minha mãe viu-a fazer. Diz que foi um artesão de lá que estava muito doente e ela curou, que lhe mostrou o segredo das caixas de música. Mas é claro, o homem já estava velho e acabou por morrer...
- Então e o segredo?
- A minha mãe contou-mo. Não reparaste nas caixas do hall?
- Sim, são pequenas mas muito bonitas.
- Fui eu que as fiz... Quando a minha mãe morreu fiz uma porção delas...
Calámo-nos, ficámos em pleno silêncio...
Até que ela levanta a cabeça e olha para mim deixando cair uma pequena lágrima na sua face morena e... Ela inclina-se para a frente fechando os olhos verdes e tocando com os seus lábios nos meus. Beijámo-nos, deitados na cama... Desajeitado não sabia o que fazer, só sabia que a tinha nos meus braços, a beijar-me, a enrolar a sua língua na minha, a passar a sua mão no meu cabelo, eu apenas tinha as minhas mãos na sua cinta, nos jeans escuros que ela tanto gostava...
- Isto é errado! – disse ela bruscamente – Desculpa, Hugo... Desculpa...
E começa a chorar... Colocando as mãos morenas na cara e começa a chorar... Então eu pego numa das suas mãos, tiro-a da sua face e ela pára de chorar. Limpo com o meu polegar as suas lágrimas, olho seriamente para ela...
- Não tens que pedir desculpa. – digo passando a mão numa madeixa do seu cabelo
- Tenho sim! – dizia ela soluçando – Eu não te quero perder...
- E não me perdes... Podemos continuar a ser amigos e apagar este momento...
Eu nem acreditava do que eu estava a dizer, aquilo ficaria marcado para sempre na minha memória mas se não fingisse que tinha apagado este maravilhoso momento da minha memória, ela podia deixar de ser minha amiga, e isso é a minha única consolação...
- Farias isso? Por mim?
E muito mais...
- Sim...
Nesse momento nasce um sorriso naquela face onde as lágrimas reinavam, era quase como um arco-íris... Ela abraça-me com muita força e ficámos assim um tempo, calados a sentir o calor um do outro.
Dirigimo-nos para minha casa a falar de trivialidades, tinha que parecer que aquele momento nunca tinha acontecido, pelo menos para ela.
Subimos as minhas escadas e entrámos, dirigimo-nos para a sala de jantar e abancamos aí montando a tenda de livros. Expliquei o melhor que podia, pelo menos naquela situação...
Passou-se o exame de Matemática, ao qual ela tirou dezassete, passou-se o exame de Inglês, ao qual eu tirei dezoito.
- Estou mesmo contente e orgulhosa de ti! – dizia ela vendo a minha nota do exame
- Tu também te portaste muito bem! – digo apontando a nota dela de Matemática
Ela vê e abraça-me, nunca conseguia fartar dos abraços dela, eram calorosos e também porque agora seriam muito mais especiais. Depois do acontecimento, evitávamos de nos tocar, e esta era a primeira vez desde o acontecimento que nos abraçávamos.
Depois destes dois exames, agora era o de Ciências, estudámos todos os dias e com muito afinco mas com brincadeiras pelo meio, nunca parávamos de rir, mas também passávamos muito tempo calados, quase que a transmitir por telepatia tudo aquilo que estávamos a pensar...
Finalmente era o dia de ver a nota do exame, estávamos os dois nervosos, eu com as mãos suadas, ela a roer as unhas. Finalmente, devagarinho chegámos ao placar das notas e procurámos os nossos nomes.
- Então? – disse ela tapando os olhos com as mãos – Quanto é que eu tirei?
- Oh meu Deus! – digo para a assustar
- O que foi?! – Responde ela afastando as mãos a olhar para a minha cara
- Tiraste... Dezanove!
Ela gritou de alegria, saltou, agarrou-se a mim de felicidade.
- E tu? – perguntando ela, parando o festim e olhando seriamente para mim
- Dezassete!
E recomeça o festim, levando-nos para o café do Jardim para festejar, tinha sido um tempo duro de estudo mas conseguimos tirar o maior proveito, apesar das brincadeiras pelo meio. Comemos o gelado com gosto, era quase que como comemorar a liberdade... Férias!
Mas dum momento para o outro, ela cala-se, eu respeitava sempre o silêncio dela mas desta vez ela queria dizer alguma coisa.
- O que tens?
- Tenho que te contar uma coisa... Soube disto anteontem de manhã...
- O que é? – disse preocupado
Silêncio... Neste momento a única coisa que queria era o silêncio dela! Não aguentava este suspense, o que se passaria de mal?
Dirigimo-nos então para o local onde ela me abraçou pela primeira vez, vendo o pôr-do-sol... Ela senta-se, olha para mim com aqueles olhos verdes, brilhantes e sinceros... Eles mostravam tristeza...
- Eu vou mudar-me para o Algarve.
O quê? Para a outra ponta do país? O meu coração parou...
- Eu queria contar-te mais cedo, mas não sabia como fazê-lo... Hugo... Vou ao fim da tarde...
- Embora? – digo eu completando
Não era possível... Se me pedissem para descrever o que sentia neste momento eu não teria palavras, era como se uma parte de mim partisse...para sempre...
- Sim... Eu sei que não tenho o direito de te pedir isto mas... Vens despedir-te de mim?
- Claro que sim... Tu sabes que sim...
Ficámos em silêncio outra vez, levei-a a casa, em silêncio, cheguei a casa, em silêncio... Apático sentei-me na cama e coloco as mãos nas minhas faces... Só me apetece chorar, chorar pelo que vou perder, chorar por aquilo que nunca mais vou ter ao meu lado... Apenas chorar... Mas nem uma gota saía dos meus olhos...
Fiquei assim, perdendo o sentido do tempo, até que vi o meu despertador: 18:30, apontava ele... Daqui a minutos estaria ela na central de camionagem, mas não ia ficar ali assim por mais apático que estivesse, por mais deprimido, por mais raiva que tivesse com a vida eu, Hugo Vilela ia fazer um último esforço de estar com ela... Despedir-me dela, isto é, deixá-la ir... Corri para a central de camionagem, ela iria sozinha porque o pai já tinha ido de manhã para tratar da casa, mais um esforço...
Encontrei-a sozinha a olhar para todos os lados como se estivesse à procura de alguém, eu podia sentir-me privilegiado por ser a pessoa que ela anda à procura mas não...
- Hugo... – disse acenando – Já estava a pensar que não vinhas...
- Eu disse que vinha...
- Eu sei... – respondeu agarrando nas minhas mãos – Hugo, basta dizeres uma palavra para eu ficar, eu posso pedir para ficar... Hugo, basta dizeres!
Senti esperança outra vez... Mas tinha que a deixar ir...
- Não tenho nada que dizer...
- Hugo! – disse desesperada – Basta dizeres uma palavra...
- Já disse, não tenho nada que dizer... Tu tens que ir... – disse apontando para o camionista que já começava a avisar que estava na hora de partida.
Então ela dá um passo em frente, agarrando a minha cara com as suas mãos macias e angelicais.
- Estarás sempre no meu coração, Hugo... – disse, ao meu ouvido, dando-me um beijo na testa, demorado...
- Boa viagem e escreve-me por favor...
- É o que eu farei...
Então vejo-a a afastar-se triste e sozinha, na imensidão de pessoas a despedirem-se, mesmo no meio daquela multidão eu senti-me só e desamparado. E então o autocarro começa a andar, vejo-a na janela, a olhar para mim...
- Amo-te, Carina. – digo deixando cair uma lágrima na minha face."
Ok, eu orgulho-me mesmo muito desta obra, para falar verdade é mesmo a melhor delas todas em termos de escrita.
Sim, eu sei, a história é triste mas a vida real também. Pelo menos não morre ninguém... Ah! Espera, morre a tia da Carina.
Devo ter escrito este romance no meu 11º ano, que foi quando deixei de escrever por falta de inspiração e/ou de temas. E agora que me chatearam tanto para continuar este romance que vos vou fazer a vontade, ando agora é numa de pesquisar ideias (já tenho algumas).
Mas falta fazer a derradeira pergunta: querem que morra quem?
Fica ao vosso critério...
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Um beijinho especial a todos que me apoiam e incentivam a escrever. Um obrigada pela vossa paciência (sim, eu sei que os meus romances são, literalmente, uma seca...) e pelo vosso carinho nos vossos comentários.
Muito obrigada!