Domingo, Novembro 04, 2007

Mania das manias...


Para a mania das manias... as ideias escasseiam. Por isso venho outra vez pedir-vos (sabendo que desta vez pelo menos terei algumas respostas) algumas ideias para o capítulo.

Alguma ideia? Alguma dica? Alguma sugestão?
Espero por elas!

E muito obrigada mais uma vez pelo vosso apoio! Obrigada!

P.S. - Ao encontrar os manuscritos de todos os capítulos desta saga deparei-me com uma novidade: não tinha colocado em nenhum deles as minhas dedicatórias... Por isso acrescentei isso a cada um dos posts.

Sábado, Outubro 06, 2007

Os Homens Também Choram, capítulo III

Dedicado à saudade que nos afunda e ao amor que nos salva,
"O sol, a escaldar, batia violentamente nos meus olhos enquanto esperava pacientemente na porta da entrada da casa da Carina. Entretanto apenas pensava.
Andava realmente mais pensativo do que era costume, era constantemente assaltado pela mesma pergunta mas não era isso que me preocupava. O que realmente me incomodava era ter pesadelos todas as noites, acordar a suar e a gritar por qualquer coisa, contudo, não me lembro dos meus pesadelos, por mais que me esforçasse, por mais concentrado que estivesse, não conseguia recordar o que sonhava.
- Olá! – disse uma voz feminina num tom meigo enquanto abria uma grande porta de madeira maciça – Como estás?
- Lá estou. – respondo sem interesse mas aceitando de bom grado um beijo da Carina e agarrando a sua mão quente – Já tens tudo?
- Acho que sim. – responde a Carina, remexendo ao mesmo tempo na sua mochila vermelha – Ainda bem que está muito calor, assim a piscina vai valer bem a pena.
Enquanto seguíamos por entre as ruelas da cidade em direcção às piscinas, eu apercebia-me que mal tinha saído de casa nestas férias apesar das várias tentativas da Carina e dos meus pais mas, finalmente, lá conseguiram convencer-me a sair numa tarde para ir à piscina. Porque é que não compreendiam que eu queria ficar no meu canto, perdido nos meus pensamentos e pesadelos? Agora preferia muito mais estar sozinho do que no meio da multidão e do barulho.
Quando chegámos às piscinas municipais e já estávamos a pagar os bilhetes de entrada, fico perplexo a olhar para umas cadeiras brancas de plástico encostadas ao muro de cimento. Ali numa daquelas cadeiras, há um ano, o Pedro descalçou-se para irmos os dois à piscina e foi nesse mesmo dia que ele me confessou que gostava da Joana, a melhor amiga da irmã.
- Hugo, que se passa?
- Nada. – respondo à Carina acordando para a realidade.
Que estupidez lembrar-me destas coisas.
- Nada, não! Ficaste que nem uma estátua a olhar para não sei onde. – diz a Carina num tom preocupado.
- Está tudo bem, não te preocupes.
Pela expressão da Carina a minha resposta não foi muito convincente, tentei então mudar de assunto dizendo que a apresentação ao director de turma era já no dia seguinte ao mesmo tempo que procurava uma mesa livre perto da piscina. Encontro uma e puxo a Carina pelo seu fino pulso na sua direcção.
Colocámos as mochilas encostadas às pernas da mesa e olhamos em redor, tinham remodelado toda a área da piscina pois onde havia terra batida havia agora uma relva fresca, havia mais árvores plantadas de propósito para criarem uma sombra natural sobre quem estendesse a toalha debaixo delas. A piscina estava cheia e consequentemente havia muito barulho: risos, gargalhadas, conversas animadas, brincadeiras, simplesmente boa disposição. Nesse momento, senti uma grande inveja de todas as pessoas que estavam na piscina a divertirem-se, enquanto que eu não me sentia bem há meses.
- Soube que vamos ter alguns colegas do ano passado na nossa turma. – revelou a Carina quebrando o silêncio.
- Quem?
- Dos que conheço o Vasco mas acho que uma tal Ana que foi da vossa turma no ano passado também ficou este ano na nossa.
Não ouvi a resposta completa da Carina pois já a meio dela me encontrava absorto nos meus pensamentos. Pensar que teria que repetir o 12º outra vez, uma vez que depois do funeral do Pedro os meus pais concordaram que não valeria fazer os exames nacionais naquele ano visto que não iria ter concentração e motivação suficientes. Tinham razão. Quando toda a gente se preparava incansavelmente para tirar boas notas eu ficava deitado na cama, a olhar o tecto do meu quarto, durante horas a pensar em variadas coisas: na morte do Pedro, no seu acidente, nas tremendas saudades da sua companhia, na dor da mãe dele, na dor da Sílvia, na dor da Joana, na dor da Carina, na minha própria dor e, pensava também, no quanto queria estar sozinho, fechado de tudo e de todos, contudo, contrariamente pensava que estava a namorar com a Carina e que não estava a aproveitar.
A tarde na piscina passou lentamente sempre com o pensamento “ O Pedro já não pode aproveitar nada isto” em mente.
Agora, de cada vez que pensava no Pedro sentia uma pontada no peito de saudade e de cada vez que pensava na minha cobardia em ir visitar a campa do Pedro sentia uma outra pontada mas desta vez de raiva de mim próprio.
- Já foste à campa do Pedro? – pergunto, tentado com que parecesse uma pergunta normal.
- Já. Levei umas flores muito bonitas. – respondeu a Carina pausadamente – E tu? Quando vais lá?
- Um dia. – respondo furioso enquanto a ajudava a abrir a sua porta da entrada.
Ela apenas suspira, despede-se de mim com um beijo na testa e vira-me as costas fazendo com que o seu cabelo meio molhado dançasse.
Só depois de um tempo deitado de costas para o colchão é que me apercebo da maneira como falei à Carina. Fui um bruto e ela não merece que o seja, pois também ela sentia saudades do Pedro. “Mas não tantas como tu!”, dizia uma vozinha, “Não! Toda a gente sente a sua falta!”, respondia-lhe eu. “E vais dizer que toda a gente o conhecia como tu o conhecias?”.
Fico em silêncio sem resposta para a minha própria batalha interior, olho então calmamente para o tecto do meu quarto vendo aquelas fissuras, naquela parede branca, que já me eram tão conhecidas e familiares.
- Hugo?! Que tens filho? – perguntava a minha mãe atarantada de pijama.
- Nada. – respondo ofegante mas sem saber porquê.
- Hugo, estás todo suado e estavas a gritar! Diz-me o que se passa por favor.
- Nada, mãe! – respondo cuspindo as palavras – Foi apenas um pesadelo.
- O que sonhaste para ficares assim?
- Não me lembro, ok? – respondo com brusquidão dirigindo-me ao mesmo tempo para a casa-de-banho.
Pensei que talvez um banho fosse o suficiente para me fazer voltar a adormecer mas enganei-me, não consegui dormir o resto da noite e por isso de manhã estava com um péssimo aspecto.
- Bom dia. – cumprimentou a Carina que chegava esplendorosa aos portões da escola.
De cada vez que estava com a Carina arrependia-me sempre por não estar a aproveitar o meu namoro e até mesmo o amor que sentia por ela, mas este sentimento de saudade pelo meu melhor amigo era demasiado grande e preenchia-me por completo. Mirava-a sempre quase como um espectador e não como seu namorado, aliás ainda hoje não acreditava que namorava com a rapariga de quem mais gostava.
Como eu gostava tanto de tocar naqueles cabelos sedosos, sentir cada fio de cabelo por entre os meus dedos, de respirar por cima do ombro dela, sentir a sua pele húmida e acariciá-la com os lábios mas agora, parecia que tudo isto quase não interessava, pois ainda não tinha concluído o luto, pelo menos era o que a minha mãe fazia questão de mencionar todos os dias.
- Ainda bem que ficámos com algum pessoal do ano passado, assim já conhecemos alguém. – digo criando conversa e acariciando o seu longo cabelo que caía interminavelmente nas suas costas.
- Alguns só vão repetir algumas disciplinas e outros precisam de fazer melhorias. – responde a Carina olhando-me fixamente como um gato – Mas o que importa é que ficámos os dois juntos.
Entretanto começam a chegar algumas pessoas, que ao ver-nos começam a murmurar uns para os outros e por incrível que pareça não me importava, simplesmente não queria saber o que diziam apenas queria que me deixassem em paz.
- Hugo! Carina! – cumprimentou uma voz grave, vindo de um rapaz da minha altura, de cabelo loiro espetado, de olhos castanhos mas muito magro, próprio de quem cresceu bastante depressa.
- Vasco? – pergunto incrédulo.
- Claro!
- Credo. Estás…
- Diferente? Já sei. – responde o Vasco com uma careta.
- Estás mesmo muito diferente! – concordou a Carina – Dantes eras um pouco mais baixo que eu e agora estás da altura do Hugo! – exclamou fazendo saltar os olhos entre mim e o Vasco.
- Vocês também estão diferentes. Tu, Hugo, também estás bastante diferente: novo penteado, lentes de contacto, musculatura e, claro, uma nova namorada toda gira. – disse o Vasco alegremente acompanhado de risos da Carina.
- Continuas o mesmo. – respondo a brincar.
Entretanto o professor já tinha entrado para a sala, seguido de uma fila de alunos, seguidos de mim e da Carina, que ao entrar se senta ao meu lado naquelas secretárias beges, mas sentindo um aroma floral vindo detrás de mim que me era estranhamente familiar. Antes que tivesse hipótese de me virar, o professor com uma voz extremamente grave mas rouca chama por mim.
- Quero falar contigo no final da apresentação.
- Ok. – respondo receoso, acenando afirmativamente e secamente com a cabeça.
- O que será que ele quer? – pergunta a Carina em voz baixa enquanto o professor fazia a chamada inicial.
- Deve ser sobre o Pedro. – respondeu o Vasco que estava à nossa frente, virando-se.
- Não há mais nada a dizer sobre esse assunto por isso duvido que seja isso. – intervenho com brusquidão.
No final da apresentação e das recomendações habituais esperei que toda a gente saísse incluindo a Carina que estava bastante preocupada e curiosa.
- Diga professor. – digo educadamente enquanto me aproximava da mesa de madeira muito escura mas de fraca qualidade habitual nas secretárias dos professores.
- Queria apenas dizer-te umas coisas. Em primeiro lugar, quero dizer-te que do que precisares eu estou à tua disposição, tal como a psicóloga da escola.
Começo a olhar espantado para o professor de meia-idade à minha frente.
Ele acabou de me chamar maluco?
- Mais alguma coisa? – pergunto mal-humorado.
- Sim. – respondeu o professor no mesmo tom de voz – O presidente da Associação Académica pediu-me para te dizer que mal comecem as aulas que vás com urgência à A.E.
- Ok.
- É tudo. Um bom ano lectivo, Hugo.
Mal o professor profere estas últimas palavras, saio disparado da sala de aula indo de encontro a uma multidão que congestionava o corredor. Meio atarantado ainda com o que o professor me tinha dito, tento furar a multidão da qual me vou apercebendo que eram basicamente colegas de turma, até que encontro uma mesa com uma folha, uma caneta em cima e várias pessoas à espera de assinar.
- Vou fazer um jantar como o do ano passado. – referiu o Vasco ao ver-me a olhar para a folha de papel.
- Eu já assinei! – disse a Carina entusiasmada.
- Eu não vou. – digo secamente.
- Porquê? – pergunta a Carina indignada enquanto via o Vasco a afastar-se em direcção à multidão perguntando bem-disposto aos nossos colegas se iam ou não.
- Porque não quero ir.
- Porquê Hugo? Fazia-te bem…
- Não quero. – respondo um pouco impaciente afastando-me da multidão, dirigindo-me para a saída mas a ouvir os passos da Carina atrás de mim.
- Espera! Diz-me o que se passa.
- Queres mesmo que diga? – respondo já mal-humorado sem abrandar o passo.
- Não és o único que sofre pela sua perda.
Tal frase atingiu-me como um raio, sentia quase um punhal a entranhar-se cada vez mais fundo no meu peito. Eu pensava sempre na dor dos outros, eu sei que o Pedro faz falta a muita gente mas… a minha dor ainda era demasiado grande para ser ignorada.
- Como te atreves? – pergunto em perfeita cólera, parando para fitar a Carina que tremia e tinha os seus olhos a reluzir das lágrimas que aguentava a toda a força.
- Eu sei que eras o seu melhor amigo e que sentes muito a sua falta. – dizia com falhas na voz – Não é por seguires em frente com a tua vida e por voltares a sorrir que te vais esquecer dele ou que o vais trair como amigo.
Não conseguia ouvir mais nada, estava completamente indignado com a Carina. Nunca a tinha olhado daquela maneira. Começo então a caminhar para a saída, para atravessar os portões e chegar a minha casa… Ao meu quarto… Ao meu mundo. Mas ainda sentia o tal punhal a revirar e a contorcer-se.
Dou por mim não em frente da porta do meu prédio mas, em frente, da porta metalizada do prédio do Pedro. Fico especado no meio da entrada de cimento, chocado. “Como é que não dei conta do caminho? Porque é que vim parar aqui?” perguntava a mim próprio e logo de seguida, vinha a resposta revirando mais uma vez o tal punhal.
- Tenho saudades do Pedro. Tenho saudades de falar com ele. Tenho saudades de rir com as suas piadas. Tenho saudades de não me sentir assim o tempo todo. – digo a murmurar indignado comigo próprio.
- Estás bem? – pergunta um rapaz com uma pele escura, um pouco mais baixo que eu, magro e que possuía uns olhos castanhos escuros perturbados com um verde da cor da relva fresca.
- Estou. – respondo descontraindo pois nem tinha reparado que o rapaz tinha saído do prédio – Desculpa ter incomodado.
- Não incomodas. – diz o rapaz fazendo com que voltasse as costas pois já me dirigia para minha casa. – Tu és o Hugo, não és? O amigo do Pedro que murou neste prédio?
- Sim, sou. Porquê?
- Eu sou o Filipe. – responde pausadamente – Vamos ser colegas de turma.
- Não te vi na apresentação. – digo com brusquidão.
- É normal. Eu não fui. Estive no hospital. – respondeu o Filipe no mesmo tom de voz.
- Ah! – exclamo apercebendo-me da estupidez da minha brusquidão – Desculpa, não sabia. – digo num tom sincero.
- Não faz mal. Vou agora comprar o resto do material escolar, ias subir?
Fazia a mesma pergunta a mim próprio, entre outras. Será que aguentava visitar o apartamento e a família do Pedro?
Tinha que ser forte por eles todos e de certeza que mereciam apoio! Não podia hesitar em ajudá-los!
- Sim, ia agora tocar à campainha.
- Força então. Até amanhã!
- Até amanhã. – respondo, abrindo a porta de metal.
Abro de seguida a porta do elevador, carregando no botão do terceiro andar e ainda virado de costas para a porta, olhava incrédulo para o meu reflexo no espelho do elevador. Não me reconhecia a mim próprio: olheiras de tantos pesadelos, um olhar pesado da angústia, barba por fazer da preguiça. Já não me conhecia.
O elevador pára com um solavanco e saio de bom grado para longe daquele espelho.
- Já vai! – responde-me uma voz feminina familiar depois de eu ter tocado à campainha do apartamento do lado direito.
Ouço um trinco a movimentar-se e a porta abre-se de par em par revelando-me a dona da tal voz talvez um pouco mais mulher.
- Olá Sílvia. – cumprimento sorrindo.
- Hugo! – exclamou em choque mas abraçando-me com força durante um tempo – Senti a tua falta. – murmurou ao meu ouvido.
Fico meio embaraçado por tal recepção da parte da Sílvia, não me deixando no entanto de me sentir constrangido pois lembrava-me perfeitamente da última conversa que tinha tido com ela. Tinha-me dito com o coração nas mãos que gostava de mim. Perguntava a mim próprio se ela já me tinha esquecido.
- Está tudo bem? – pergunto entrando por aquela casa que me era tão querida e sentando-me nos sofás brancos, onde eu e o Pedro tivemos tantas conversas sobre tudo e sobre nada.
- Dentro do possível. – responde a Sílvia, sentando-se no sofá criando um grande contraste – E tu?
- Lá vou andando.
- Pelo teu aspecto acho que não vais a lado nenhum. – diz a Sílvia num tom de brincadeira.
Rio com vontade como já não fazia há meses. Surpreendia-me como me sentia bem na casa do Pedro, era como se a sua presença ainda ali permanecesse.
Passei uma tarde agradável a conversar coisas sérias e de algumas trivialidades. Dizia a mim próprio que estava a precisar de me sentir assim de novo, até que na despedida a Sílvia olha-me seriamente nos olhos.
- Faz um esforço para seguir em frente.
Aceno mecânica e afirmativamente com a cabeça e viro-lhe as costas em direcção ao elevador, ficando desta vez de costas para o tal espelho.
Caminhava lentamente para casa a pensar que já não era eu próprio e isso estava-me a assustar cada vez mais. E enquanto pensava nas últimas palavras da Sílvia daquela tarde, lentamente uma brisa fresca atravessa-me e eu aproveitando-a paro, fechando os olhos.
No dia seguinte era o começo das aulas e, agradavelmente, acordo bem disposto. Sentia-me bem!
- Bom dia, amor. – digo num tom meigo dando um beijo naqueles doces lábios.
- Ena! – exclamou Carina sorrindo – Dormiste bem?
Por acaso sim, nem pesadelos tinha tido.
- Sim. E tu?
- Dormi pouquinho. É que fui à discoteca depois do jantar. – respondeu entusiasmada.
O jantar! Tinha-me esquecido completamente que na noite anterior era o jantar de turma.
- Não me perguntas como correu? – pergunta a Carina olhando-me com aqueles olhos de gato, conforme íamos entrando na escola, passando pela imensidão dos arbustos meios secos.
- Como correu? – pergunto obrigado naquele tom monocórdico que já estava a ser tão usual em mim.
- Foi óptimo! Diverti-me imenso como já não me divertia à algum tempo. Falando verdade, eu estava mesmo a precisar, com isto das mudanças todas e… – interrompe a Carina fazendo uma pausa olhando para mim – Bem, aquilo estava muito bem organizado, fiquei mesmo muito admirada. O Vasco tem jeito para estas coisas, não achas? – continuou afastando o cabelo negro do ombro – O jantar foi óptimo, conheci toda a gente da nossa turma e ainda revi alguns colegas.
- É esta a sala. – digo parando para me colocar em frente da Carina.
- Depois fomos à discoteca da Avenida e…
- Olá Hugo! – interrompe a Ana, na sua voz melodiosa, que estava a passar por nós, fazendo questão de me dar dois beijos em cada lado da face.
- Olá Ana. – cumprimento por respeito mas meio atordoado, olhando para a expressão escandalizada da Carina.
Depois deste momento tão surreal, vejo a Ana a dirigir-se para o grupo de amigas dela aos risinhos. O seu cabelo ruivo a voar tinha perdido todo o seu encanto, porque é que ela fez aquilo? Se ela gostasse realmente de mim, como ela adorava de referir bem alto e a toda a gente que encontrava, então saberia que neste momento não necessitava deste tipo de cenas, quando eu próprio sabia que fazia apenas para provocar, e pelos vistos estava a resultar. Logo de seguida a Carina cala-se e eu não querendo quebrar o seu silêncio começo a ver quem se aproximava da sala de aula.
- Olá Filipe!
- Olá Hugo. Tudo bem? – pergunta o Filipe educadamente, olhando de seguida para a Carina.
- Ah! Filipe, esta é a minha namorada, a Carina! – exclamo distraído.
- Olá. – cumprimenta o Filipe com um sorriso.
- És da nossa turma?
- Sim, este ano sim. – responde o Filipe calmamente.
- Não sabia. Como não te vi nem na apresentação e nem no jantar… Como se conheceram? – pergunta a Carina intrigada.
- O Filipe mora no mesmo prédio onde o Pedro morava.
A Carina ia dizer qualquer coisa mas o professor entra na sala, eu ao olhar para ele lembro-me da nossa conversa na apresentação e no primeiro intervalo da manhã saio disparado em direcção à associação de estudantes com a Carina.
Percorro os corredores cheios de gente sem interesse, corredores cheios de posters de anúncios educativos ou então apenas trabalhos pedagógicos feitos pelos próprios alunos. Tanto trabalho que tiveram para que alguns estivessem profanados ou simplesmente riscados.
Chego finalmente a uma sala minúscula onde na porta tinha grafitado um A e um E bastante grandes.
- Olá Hugo! – cumprimenta o presidente da associação de estudantes que estava sentado atrás de uma secretária velha e muito maltratada.
- Olá. – respondo.
- Olá Carina! – cumprimentou sorrindo.
Nesse momento houve um certo grunhido por entre as minhas entranhas mas estava interessado em saber o que é que ele tinha para me dizer e acabo por não ligar ao que desenrolava dentro de mim.
- Querias falar comigo?
- Sim… – responde clareando a voz – Eu reuni-me com o Conselho Directivo da escola e todos concordaram com a minha ideia. Deram-me luz verde até. – disse num tom importante – Mas antes de avançar gostaria de ter a tua opinião, aliás, a vossa. – salientou inclinando a cabeça para a Carina.
Repetia-se outra vez o festival de rugidos dentro das minhas entranhas e dei por mim a avaliar o presidente da associação, um rapaz um pouco mais baixo que eu, com uma pele muito branca, com um cabelo castanho claro, como se fosse um ruivo gasto, e uns olhos meios azulados que não inspiravam confiança. Tentei concentrar-me outra vez no propósito da minha visita.
- Opinião para quê? – digo impaciente.
- Como vocês devem saber, no final do 12º ano há sempre um baile de finalistas. Então, este ano decidi criar um tema para o próprio baile. – o presidente pára e faz uma pausa para o suspense – O tema seria homenagear o Pedro.
Quase como a saborear o momento o presidente cala-se e olha-nos com os olhos esbugalhados.
- É lindo. – diz a Carina cortando o silêncio e começando a chorar.
Eu envolvo-a com os meus braços pois estava sempre pronto para a proteger.
- Acho que a vossa reacção é suficiente. – diz o presidente com uma falsa modéstia – Mas vou precisar da tua ajuda Hugo. É que para criarmos a tal homenagem precisamos de fotos do Pedro, achas que nos podes arranjar algumas?
Eu, ainda envolvendo a Carina, dou por mim a olhá-la nos olhos. Tinha parado de chorar e olhava-me com aquele olhar de gato.
- Que achas? – murmurou ela.
- Eu acho que ele ia gostar. – respondo no mesmo tom de voz que ela.
Sinto algo estranho na minha barriga, não os rugidos ou grunhidos mas algo que não sentia há meses, “borboletas no estômago” de ver aquele sorriso tão sincero. Correspondo de bom grado ao ver que o sorriso dela não tinha mudado, ainda fazia a tal covinha no canto da boca, contudo, porque é que estava a sentir-me assim? Simplesmente com o sorriso da Carina? “Deve ser por já não a ver a sorrir assim à algum tempo.” penso triste.
Nesse instante, a campainha toca, para nos dirigir-nos para a próxima aula, fazendo com que acordasse para a realidade.
- Eu ajudo-te.
- Óptimo! – exclamou o presidente impacientemente – Ah! E precisava que falasses com a irmã do Pedro se faz favor.
- Eu falo. – respondo fechando a porta da A.E. dirigindo-me para a sala da próxima aula.
- Eu não tenho aula contigo agora, não é? – pergunto parando num daqueles corredores.
- É. – responde a Carina tristemente como se nos tivéssemos a despedir por um longo período de tempo.
Ela beija-me carinhosamente ali no corredor, perto daquelas escadas tão escuras e tão cheias de movimento. As pessoas protestavam ao chegar à nossa beira pois tinham que nos contornar. Não me importava!
Segurava a Carina pela cinta e envolvia-me com cuidado na sua boca.
- Até já. – digo beijando-a na testa.
Ela sorri enquanto a via a afastar-se pelo corredor que estava agora a abarrotar de alunos à espera na entrada das salas de aula. Depois de a deixar de ver, começo a subir as escadas, até chegar ao piso da minha aula. Quando a professora chega, começamos todos a entrar e eu sento-me numa das secretárias do meio começando a retirar o caderno e o livro, até que ao meu lado senta-se o Filipe.
- Posso sentar-me aqui?
- Força.
- É que ainda não conheço mais ninguém.
- Não faz mal. – respondo sinceramente.
Era muito normal uma pessoa sentir-se desamparada no meio de uma turma nova.
- Então a Sílvia, está boa? – pergunta o Filipe enquanto retirava os livros e os cadernos da sua mochila verde-escura - Sabes, eu não me encontro muito com ela mas preocupo-me com as pessoas, sabes?
- Lá vai, acho… – interrompo ao ver um cartão de visita do hospital que tinha caído sem querer de um caderno do Filipe, eu apanho-o e dou-lho intrigado – É uma espécie de passe, não é?
- É do género. É para visitar a minha mãe.
- Está doente? – pergunto com cuidado.
- Bastante. – responde o Filipe a murmurar pois a aula já tinha começado – Está em coma à 5 anos devido a um acidente de viação.
- Pois. – respondo sinceramente sem saber o que mais dizer mas pensando bastante no Pedro.
- Despenhou-se num penhasco porque se desviou violentamente de um carro que estava parado e não estava sinalizado. Sobreviveu contudo ficou como está agora.
O resto da aula e as outras aulas por turnos a seguir foram a conversar com o Filipe a murmurar para que os professores não dessem conta. Falávamos de tudo, das desgraças, das poucas alegrias e de trivialidades. Eu admitia que este tipo de conversas me faziam falta e me faziam sentir bem, até porque acho que isso já se começava a notar na minha disposição e entusiasmo pelas coisas. Até fiquei entusiasmado com a época de testes!
- Eu não percebo nada desta parte da matéria! – diz a Carina revoltada, levantando-se do banco de pedra das plateias do campo de jogos da escola.
Tínhamos tirado essa tarde para estudarmos juntos Matemática pois tínhamos um teste na semana seguinte. A Carina estava muito preocupada com os testes pois já tinha perdido o método de estudo. Eu adorava ajudá-la porque achava piada ao nervosismo inquieto dela fazia-me lembrar aquele verão em que passámos variadas tardes a estudar juntos para as melhorias de nota, parecia que tinha sido há muito tempo.
- O que é que tu não percebes?
- Esta parte. – responde ainda revoltada apontando para o meio da página do manual.
- Ah! Realmente esta parte é tramada porque tens que perceber desde início. Sabes, eu tenho um óptimo livro de exercícios em casa com esta matéria. Queres ir até lá?
- A sério? – pergunta a Carina mais animada.
- Sim. Aproveito para depois disso emprestá-lo ao Filipe, ele também deve querer.
Fomos então para minha casa e mal coloco a chave na fechadura a Carina coloca os braços à volta da minha barriga, sentindo de imediato um calor que se apoderava de mim. Como eu gostava daqueles momentos com ela, pequenos mas com tanto amor e carinho, talvez não andasse a aproveitá-los como devia.
- Tinha saudades do verdadeiro Hugo.
Eu sabia disso e o mais importante é que eu próprio sentia falta de me sentir assim com ela.
Acabo de rodar a chave com alguma brusquidão, abro a porta de rompante, puxo a Carina para dentro e fecho a porta. Olho deliciadamente para os seus olhos, antes de nos lançar-mos num longo beijo ali na entrada. Fugazmente dirigimo-nos para o meu quarto, largando as mochilas na porta e depois agarrando-a, para não a magoar, deitamo-nos um em cima do outro. Dispo-a devagar, beijando carinhosamente os seus ombros nus, percorrendo com as minhas mãos o seu busto, passando pela barriga, até ao fecho das calças.
Ao desapertar os seus jeans, deixo a boca dela e com ternura percorro o mesmo caminho com os meus lábios. A pele dela era tão suave e o seu aroma tão sublime que era capaz de me envolver por completo, fazendo-me esquecer tudo.
Ela senta-se, pega com as suas mãos de menina a minha cara, olha-me com aqueles olhos da cor de um prado verdejante e envolve-me num beijo quente e apressado.
- Amo-te. – diz ofegante.
Sentia o meu coração a querer sair pela boca, sentia a minha maçã-de-adão a ameaçar explodir, contudo sentia-me tão leve… Tão feliz.
- Eu também te amo muito, Carina. – digo enquanto caíamos novamente um em cima do outro.
Despimo-nos totalmente, até que nos unimos, por fim, sempre a sentir a respiração ofegante e nervosa um do outro, sempre apaixonadamente a tocar no corpo um do outro, eu a acariciar furtivamente a sua cinta e ela a passar a mão na minha nuca, sentindo, agarrando o meu cabelo.
Acabámos deitados, agarrados um ao outro, com as pernas entrelaçadas sobre os lençóis brancos, eu a acarinhar o seu longo cabelo e ela a passar a mão lentamente no meu peito.
Os dias seguintes foram passados numa felicidade extrema, quase estranha. Tinha uma namorada espectacular, linda, paciente, inteligente e compreensiva, apesar de não ter podido estar muito com ela pois o Filipe estava a passar por uma crise. De vez em quando, por aquilo que o Filipe dizia, ele ficava deprimido (também seria estranho se não ficasse, com a mãe naquele estado) e como um bom amigo que sou, estou ao seu lado a dar-lhe força. Mas por vezes pensava na razão da minha felicidade quando tinha um amigo que estava mal, e chegava sempre à mesma conclusão “Sinto-me apenas feliz pois estou a ajudar alguém. A confidenciar com alguém. A ser um amigo, uma coisa que pensava que nunca mais iria ser.”
Chega ao último dia de aulas para depois no dia seguinte entrarmos finalmente nas férias de Natal e estava já como era costume no final das aulas por turnos no portão de entrada da escola a falar com o Filipe.
- Obrigado por me teres ajudado com matemática! – exclamou ao saber que tinha um resultado muito bom no último teste do período.
- De nada. – respondo sorrindo – Então e onde vais passar o Natal?
- O meu pai e eu devemos fazer uma pequena ceia com a minha mãe no hospital, uma coisa simbólica e de seguida vamos visitar os meus avós a Lisboa.
Depois o Filipe começa a contar o porquê dos avós dele morarem em Lisboa, pelos vistos os avós dele eram de Cabo Verde e com o 25 de Abril tiveram que se instalar na capital. Entretanto chega a Carina a sorrir, porém quando vê que eu estou acompanhado do Filipe, o sorriso dela desvanece-se completamente da cara dela. Já tinha percebido que a Carina não gostava muito do Filipe mas ele é meu amigo e ela tem que aceitar que quando ele necessita de mim, eu tenho que estar lá para o ajudar.
- Bem, eu vou andando, o meu pai já deve estar à espera. – diz o Filipe depois de cumprimentar a Carina à pressa.
- Tem um bom Natal. – digo meio triste.
Sinto um bocado de raiva da Carina nesse momento por não aceitar um amigo meu e como se ela percebesse que algo estava mal, coloca-se à minha frente, olhando furtivamente com aquele olhar tão típico dela.
- Passa-se alguma coisa? – perguntou a Carina num tom normal.
- Porque é que não aceitas o Filipe? – respondo perguntando, indo directamente ao assunto e reparando que tinha os músculos da cara completamente contraídos.
Eu nunca me tinha sentido assim para com a Carina. Tinha sentido uns rugidos nas entranhas contudo nunca tinha sentido o meu coração em chamas de raiva mas ao mesmo tempo ainda sentir amor e carinho para com ela. Sentia-me um pouco desnorteado com esta nossa primeira grande discussão.
- Acho que não estás a ser um verdadeiro amigo, tal como ele. – respondeu a Carina prontamente no mesmo tom e com o mesmo olhar.
- Como?! – pergunto com desilusão na voz, mirando-a de alto a baixo.
Parecia que naquele momento a chama de raiva que estava acesa no meu coração intensificou-se muito mais. Olhava furtivamente e quase com repulsa a quem tinha duvidado do meu empenho como amigo, a minha própria namorada, a pessoa de quem eu mais gostava.
A minha respiração começava a acelerar desordenadamente, e a rapariga de cabelos enegrecidos longos, munida de uma pele tão suave, de uns olhos verdes envolventes, vestida com uma camisola vermelha e uns jeans escuros justos, tinha perdido todo o seu esplendor.
- Eu apoio sempre os meus amigos! – digo, por fim, furioso – Tu deverias aceitar o facto que quando um amigo meu precisa do meu apoio eu tenho que estar lá para o apoiar!
- Mas eu não duvido disso e eu aceito. – disse a Carina num tom triste puxando-me pelo pulso para trás dos grandes arbustos para podermos falar mais à vontade.
- Eu aceito o teu amigo Vasco.
- O que é que tem isso haver? – pergunta a Carina num tom confuso colocando-se ao mesmo tempo à minha frente e largando o meu pulso.
Para dizer a verdade nem eu próprio conseguia responder àquela pergunta, parecia que dizia as coisas sem pensar sequer e numa impulsividade que não era a minha.
- Não sei onde queres chegar com isso. – diz a Carina já num tom zangado – Mas o que eu quis dizer foi que tu não estás a ser um verdadeiro amigo para com o Filipe porque tu apoias-te nele porque sentes falta do Pedro e eu…
Não conseguia ouvir mais, não conseguia assimilar o que a Carina tinha dito, simplesmente, sentia-me ainda mais desnorteado e, mais preocupante ainda, descontrolado. Não sabia o que pensar naquele momento.
- O Filipe é meu amigo. Eu não sei qual foi a parte que tu não percebeste! – interrompo com demasiada raiva e desilusão dentro de mim, virando-lhe as costas e afastando-me.
- O Filipe nunca vai ser o Pedro! – exclama a Carina bem alto fazendo com que parasse e me virasse novamente para ela – Por mais que queiras não vais encontrar o Pedro no Filipe, nem a vossa antiga amizade, e só te estás a apoiar nele porque infelizmente ele mostrou um interesse maldoso em ti!
- O que queres dizer com isso? – pergunto já não com tanta raiva mas com interesse.
- Tu estavas magoado e sentias falta de um amigo, eu compreendo-te em certa parte porque senti muito a tua falta e a do Pedro quando estive internada no hospital com tuberculose durante meses, mas o Filipe aproveitou-se disso porque não conhecia ninguém na turma e para além do mais tu percebes imenso de Matemática.
- Agora és tu que não estás a fazer sentido.
- Hugo. – chamou calmamente – A tua prontidão para ajudar o Filipe! Ele pedia-te exercícios já resolvidos, trabalhos de casa ou copiar em testes, tu fazias sem pensar duas vezes. Ele aproveitou-se em parte de ti para obter bons resultados.
Tentava descontroladamente assimilar aquilo tudo e tentava compreender mas achava que não era possível tal coisa.
- Ele não iria fazer isso. Tu não sabes o que dizes. – digo num tom mais baixo mas ainda coberto de desilusão.
- Eu sei que te custa a ouvir e custou-me a mim este tempo todo ter observado esta situação, não te dizendo nada com medo de te magoar pois tu já tinhas perdido um amigo, já estavas suficientemente marcado. E tu já estavas bastante fechado para comigo…
- Eu não acredito nisso. – respondo quase cuspindo as palavras.
- Tu não queres é acreditar. – diz a Carina numa voz de choro começando a caminhar em direcção aos grandes portões da escola.
Conseguia ouvir os passos lentos dela na gravilha e depois no passeio. Fiquei apenas em pé, com os punhos cerrados e a olhar para os majestosos arbustos, sem me conseguir mexer. Sentia um milhão de coisas naquele momento, contudo não sabendo o que pensar e no que acreditar.
Será que não queria mesmo acreditar que uma pessoa a quem eu chamava de amiga se tinha aproveitado da minha amizade, ou pior, que se tinha aproveitado da minha dor. Mas se assim fosse então eu tinha voltado a mudar por uma mentira, tinha saído do meu luto por uma mentira, tinha dispensado tempo do meu namoro por uma mentira… Tinha sido uma mentira?
Ainda especado, por detrás dos arbustos que remexiam de cada vez que o vento passava com mais intensidade, começo a fazer uma espécie de retrospectiva na minha cabeça desde o tempo em que comecei a tornar-me amigo do Filipe. Rematavam então variados pensamentos na minha cabeça: o Filipe apenas falava dos problemas dele (mesmo que fosse repetitivamente), o Filipe nunca me ouvia mesmo quando eu queria desabafar com ele sobre a Ana (quando ela estava sempre a fazer cenas em frente da Carina para desestabilizar-nos), o Filipe pedia-me sempre ajuda a nível escolar (até mesmo copiar em testes importantes com o risco de eu ser penalizado), o Filipe nunca me perguntava se tinha dúvida nalguma coisa, o Filipe…
A verdade atinge-me forte no peito, tal como o tal punhal a revirar dezenas de vezes. “Não pode ser. Eu confiei nele!” pensava furioso cerrando ainda mais os punhos.
O que fiz, por onde andei, quem vi, o que pensei, o que disse eu não sei. Parecia que andava à deriva estupidamente por lado nenhum.
Então num certo momento só me ocorre um sítio para estar, quase como um refúgio: a casa do Pedro. Apercebo-me no instante em que penso nisto que já me encontrava na rua da casa dele. Toco à campainha do 3º direito e é a Sílvia que atende.
Subo pelo elevador, mirando-me obrigatoriamente para o espelho. Achava que fisicamente estava bastante melhor do que da outra vez que tinha olhado para aquele lado do elevador, agora estava com a barba feita, o cabelo um pouco maior e não tinha olheiras, contudo, o meu olhar era contraditório e já só isso significava que não estava bem.
- Feliz Natal, Hugo! – exclamou a Sílvia num tom festivo – O que é que se passa? – perguntou, mal me aproximo dela, e mudando completamente o tom de voz.
Como ela já me estava a oferecer a entrada, passei por ela sem cerimónias e sem dizer nada. Sentia-me automaticamente a acalmar agora que estava ali dentro.
- Sabes, eu nunca mais entrei no quarto do meu irmão. – revelou a Sílvia sem nexo – Entras comigo hoje?
A oferta era um pouco estranha mas como já estava mais calmo, aceitei-a. Talvez até fosse bom para mim.
Sigo a Sílvia por aquela casa, que conhecia tão bem como a minha, até ao quarto do Pedro. Ela pára determinantemente em frente à porta do mesmo, indo devagar com a mão à maçaneta prateada. Sentindo-me tocado pela coragem dela, coloco a minha mão no seu ombro direito e aperto carinhosamente, como que sem palavras dissesse “Eu estou contigo”. Ela respira fundo e abre a porta de par em par.
Quando a porta finalmente se abre por completo revela o conteúdo do quarto exactamente como o Pedro tinha deixado, apenas com a diferença que a cama estava feita e a roupa não se encontrava espalhada desordenadamente pelo chão, mas de resto estava tudo no sítio, tal como Pedro gostava.
A cama vestida com o edredão da cor de chocolate branco, estando esta perto da janela de onde vinha toda a claridade do quarto, iluminando a secretária de madeira clara que por cima desta tinha os livros da escola todos empilhados desordenadamente.
- Sempre muito arrumado. – digo tentado suavizar o ambiente.
- Se não estivesse tudo numa grande confusão ele não estava contente. – responde a Sílvia a brincar, enquanto entrava no quarto e puxando a cadeira da secretária senta-se. Eu sigo-a e sento-me na cama que ficava mesmo em frente à tal secretária.
Em silêncio a Sílvia fica a olhar para o vazio passando gentilmente a mão pelo tampo da secretária. Dando-lhe a privacidade que merecia naquele momento, olho para a mesinha de cabeceira dele, que se encontrava a um palmo de distância, e fico a ver uma moldura vermelho-púrpura que tinha uma foto da Joana.
- Foi ela que lhe ofereceu no dia dos namorados. – revela a Sílvia acordando-me para a realidade.
- Como é que ela está? Eu nunca mais a vi e nem soube dela. – digo com cuidado sentindo-me culpado por não ter tentado saber nada dela.
- Ela ficou com uma depressão muito grande, não sai de casa, mal come e pouco fala.
- Vais vê-la muitas vezes?
- Não tantas como gostaria. – responde a Sílvia num tom muito triste.
- Como assim? – pergunto calmamente mas um pouco confuso.
A Sílvia compõe-se na cadeira de modo a ficar de frente para mim e com a claridade vinda da janela a revelar os seus olhos castanhos a reluzir.
- Eu gosto muito dela e quero ajudá-la mas sempre que a vejo lembro-me daquele dia. Já não consigo olhá-la nos olhos! – diz a Sílvia deixando cair uma lágrima em cada lado da face – Para além de me custar imenso vê-la assim, tão perturbada e a nem sequer a aceitar a morte do Pedro, perturba-me saber que simplesmente não segue em frente.
Faz uma pausa criando um momento doloroso de silêncio, eu respeitando-o, olho determinantemente para as minhas sapatilhas, até que sinto a Sílvia a levantar-se e a colocar-se de joelhos mesmo em cima dos meus pés.
- Por isso é que te digo para seguires em frente! Eu sei que tu nunca o vais esquecer, tal como eu mas não te envolvas tanto no luto e na saudade. Eu não quero que te aconteça o mesmo que está a acontecer à Joana. – revela a Sílvia cruzando os braços em cima das minhas pernas e escondendo a cara por cima delas, começa a chorar.
Mais uma vez a minha incompetência veio ao de cima, não sabia ao que responder àquilo, então apenas ajudo-a a chorar, acariciando o seu cabelo cor de avelã que formava uns tímidos caracóis no fim. Ficámos assim por algum tempo até que ela se acalma e pára de chorar, começando a limpar as lágrimas da cara, ainda meia sentada no chão aos meus pés.
- Desculpa. É que tem…
- Não peças desculpa. – digo sinceramente interrompendo-a.
- Mas tu vieste cá por alguma razão em especial?
Sim mas agora os meus problemas pareciam muito pequenos.
- Era para saber se podias dispensar algumas fotos do Pedro para o presidente da associação de estudantes.
- Duvido que tenhas vindo só por causa disso. – disse a Sílvia num tom suspeito – Mas sim, eu tenho aqui algumas que posso dispensar.
Então a Sílvia levanta-se, apoiando-se no meu joelho esquerdo, para se dirigir a uma das gavetas da secretária do Pedro e retira um molho de fotografias dele.
- Quando me disseste que o tema do baile de finalistas era uma homenagem ao Pedro quando nos encontrámos nos corredores da escola, eu pedi à minha mãe para seleccionar as melhores e colocar aqui. É verdade! Como está o teu amigo Filipe? – pergunta interessada estendendo a mão que segurava as fotografias.
Respiro profundamente ao ouvir aquela pergunta pois tudo indicava que a Carina tinha razão mas não o queria admitir.
- Foi passar o Natal fora. – digo por fim meio entediado tentando de seguida disfarçadamente mudar de assunto.
Depois de me despedir da Sílvia com um abraço forte dirijo-me para casa, porém a meio do caminho começa a nevar suavemente. Eu paro no meio da rua deserta, olho para cima vendo milhões de flocos brancos a cair que nem plumas, admirando também o céu que transmitia serenidade e calma através do seu azul celeste. Não tinha frio apesar de conseguir ver o vapor da minha respiração a sair da minha boca.
- O que é que se está a passar comigo? – pergunto a alguém num murmúrio.
Nesse momento um pedacinho de neve, brilhante como um cristal, poisa na minha face e ao derreter desce até aos meus lábios como se de uma lágrima minha se tratasse.
As férias de Natal passaram rapidamente e numa manhã já estava a acordar bem cedo para ir para as aulas mas não eram as aulas que me preocupava, era encontrar e ver de novo a Carina, depois daquela nossa discussão não falámos mais mas eu tinha reflectido bastante sobre o assunto. Pensava na nossa discussão, no motivo, nas coisas que foram ditas, nas coisas que não foram ditas, nas coisas que dissemos sem pensar. Eu sentia que devia pedir desculpa à Carina mas o meu orgulho punha essa hipótese de lado.
Vejo então em frente aos portões brancos e majestosos da escola uma rapariga com uma vasta cabeleira a esvoaçar por causa do vento que se fazia sentir, vejo também que essa rapariga tinha uma mochila vermelha e vejo, por fim, a sua face rosada do frio mas sempre tão esplendorosa como sempre.
- Olá Hugo.
- Olá Carina.
Ficámos parados um em frente do outro, especados a olhar um para o outro, até que perco a minha frieza e o meu orgulho, abraçando-a com força, encostando-a ao meu peito ao mesmo tempo que passava com a minha mão pelo seu cabelo.
- Tive saudades tuas. – digo apaixonadamente, lembrando-me das simples saudades que tinha do seu cheiro.
Parecia que apenas aquele momento apagava a discussão que tivemos e assim foi. Dirigimo-nos juntos para as aulas contudo não deixava de me sentir sozinho e, para além disso, triste principalmente quando via a indiferença do Filipe. Parecia que simplesmente não me conhecia.
Sempre aluado, sempre a querer ficar em casa, sempre a querer ficar sozinho, sempre a afastar-me das outras pessoas e a voltar a ter pesadelos assim se passou Janeiro, contando também um pouco de Fevereiro.
Era a véspera do dia de S.Valentim e estava estendido na minha cama com preguiça de ir comprar qualquer coisa (que ainda não sabia o quê) para a Carina como dizia a tradição. Ao som dos grilos e dos recém-chegados pássaros pensava no que haveria de oferecer “Talvez um peluche.”, pensava entusiasmado, “É um pouco infantil, não achas?” perguntava a outra vozinha.
Então levanto-me da cama, abro a gaveta da minha mesinha-de-cabeceira e tiro de lá a fotografia da Carina, ao olhar para ela lembrava-me, triste, que não lhe estava a dar a atenção que devia.
- Túlipas! – exclamo surpreendido comigo próprio.
Túlipas são as flores favoritas da Carina. Vou comprar-lhe uma! De certeza que ela vai gostar!
Porém ao dirigir-me para a porta de entrada para ir a uma florista, o telefone toca e quase automaticamente atendo-o.
- Estou?
- Hugo? – pergunta uma voz feminina nitidamente a chorar.
- Sim. Quem é?
- É a Sílvia. – respondeu a soluçar.
- Desculpa, não te estava a reconhecer. O que se passa?! – pergunto preocupado sentindo o meu coração a apertar cada vez mais.
- Eu… É que… A… – gaguejava quase como se lhe custasse a falar.
- Espera! – digo impaciente e preocupado – Eu vou a tua casa num instante!
E num relâmpago, desligo o telefone, abro a porta de entrada de rompante, corro em direcção à casa da Sílvia e apesar de estar com o coração aos saltos sentia que alguém o segurava e apertava doentiamente.
Rapidamente chego à porta de entrada do prédio e vejo alguém a sair dela.
- Não feche a porta! – digo alto, só depois reparando que era o Filipe.
Ele ia abrir a boca para dizer qualquer coisa mas continuei a correr, subi pelas escadas até chegar ao terceiro andar, ofegante, com o punho fechado bato três vezes na porta do lado direito, quase de imediato também a Sílvia abre a porta num pranto e lança-se ao meu pescoço não me dando hipótese de recuperar o fôlego.
- O que se passa Sílvia? O que tens? – pergunto ainda fora do apartamento e ainda um pouco ofegante.
Não conseguia perceber o que a Sílvia disse a seguir apenas ouvia o seu chorar a ecoar nas escadas e começando-me a aperceber que ela estava a perder força nas pernas pego nela ao colo, entro no apartamento, fecho a porta com o pé (sempre com a Sílvia a chorar) e pouso-a, por fim, no grande sofá branco da sala, pondo-me de joelhos à sua frente.
- Acalma-te, por favor. – digo preocupado enquanto limpava com as minhas mãos as lágrimas dela.
- É que eu há bocado soube de uma notícia…uma má notícia! – gaguejava novamente a Sílvia ainda a chorar mas pelo menos a tentar acalmar-se.
- Conta-me. Tu sabes que podes falar comigo Sílvia.
- A Joana suicidou-se. – diz a Sílvia finalmente, colocando-se de barriga para o sofá e cruzando os braços, esconde a face entre eles recomeçando a chorar.
Deixei-me cair, ficando completamente sentado no chão, a olhar para as costas da Sílvia enquanto que ela chorava sem que eu fosse capaz de dizer o que quer que fosse. Parecia que não queria acreditar ou simplesmente pensava que não fosse possível.
“A Joana suicidou-se.”, estas palavras ecoavam na minha mente enquanto variadas perguntas se formavam na minha cabeça.
Simplesmente, não sabendo o que dizer ou o que fazer, coloco-me novamente de joelhos e envolvo a Sílvia com os meus braços levando a minha cara ao seu pescoço, ficando assim durante algum tempo até que ela se acalmasse.
- Ela suicidou-se hoje de manhã mas antes escreveu-me um bilhete a agradecer por toda a minha ajuda e a dizer que não conseguia passar o dia dos namorados sem o Pedro. – revelou a Sílvia já mais calma e já sentada no sofá branco, comigo ao seu lado.
Limpava freneticamente com a manga da sua camisola preta os olhos castanhos mergulhados agora na vermelhidão de tanto chorar, porém novas lágrimas brotavam quase compulsivamente dos seus olhos.
- Ela tomou uns comprimidos misturados com o uísque do pai e os médicos dizem que não sentiu nada pois estava a dormir. Ao menos isso. – diz a Sílvia, depois de uma pausa, recomeçando novamente a chorar fazendo com que eu a envolvesse mais num abraço como tentativa de a reconfortar.
- Quando é o funeral? – pergunto baixinho.
- Amanhã.
- Queres que vá contigo?
Nesse momento a Sílvia pára de chorar, apenas soluçando, olhando-me ainda com a vermelhidão a esconder os seus lindos olhos.
- Vinhas comigo? – pergunta quase surpreendida.
- Claro! O Pedro dava-me um carolo se não te apoiasse.
Num misto de riso e choro de agradecimento a Sílvia faz-me prometer a toda a força que iria perguntar à Carina se havia algum problema ou se já tinha planeado alguma coisa para o dia seguinte.
Antes de sair do seu apartamento numa marcha pelo menos mais lenta, olho para a janela e já era noite.
Quando chego a casa, pego logo no telefone para ligar à Carina tal como tinha prometido à Sílvia.
- Sim? – responde a Carina do outro lado.
- Olá! É o Hugo.
Houve um pequeno silêncio que ninguém quis interromper mas era normal que ela estivesse chateada pois eu não lhe tinha dito nada durante o dia todo.
- Desculpa. – digo quebrando esse silêncio – Estive em casa da Sílvia pois recebi uma notícia.
Novamente silêncio.
- A Joana, a namorada do Pedro, suicidou-se. – revelo triste.
- O quê?! – perguntou incrédula.
Tentei explicar o melhor que pude mas tendo em conta a situação não foi necessário, ela percebia que a Sílvia necessitava do meu apoio, afinal era a sua melhor amiga que se tinha suicidado! Deito-me meio relaxado na cama, mal termino o telefonema, encostado à minha almofada.
Encontrava-me na entrada de uma igreja iluminada a velas (ou seja, via muito pouco), caminhando sem vontade própria pela sarcástica passadeira vermelha até chegar ao altar. Via toda a gente de preto e a chorar, contudo não conseguia ouvir o choro ou sequer as fungadelas das pessoas que estavam mesmo ali ao pé de mim. Chego ao pé do altar e olhando para a minha esquerda vejo a mãe do Pedro, a minha própria mãe e a Sílvia, todas a chorar, olho também, por fim, para a minha frente muito devagar, com a minha respiração a acelerar mas sem conseguir mover um músculo, vejo um caixão aberto com alguém lá dentro. Tinha agora o meu coração aos pulos, queria fugir dali mas não conseguia mover-me ou sequer gritar. Vejo, relutantemente, a cara lívida do Pedro dentro daquele caixão brilhante.
- Não!!! – grito com a respiração muito acelerada, parecendo que o meu coração estava na minha garganta desejoso de sair.
Era este! Era este o pesadelo que me atormentava há tanto tempo mas então porque é que tinha a sensação que ainda não tinha visto tudo?
Não queria pensar mais naquele pesadelo, limpo exausto, com a minha mão, a minha testa. Estava todo suado, parecia até que tinha corrido durante horas!
Tomo um banho refrescante e volto para a cama com esperanças de voltar a adormecer mas o pesadelo não saia da minha cabeça. Imaginava que quando me conseguisse lembrar do pesadelo que me atormentava tantas vezes de noite, eu iria ficar minimamente feliz mas não sentia isso. Sentia-me confuso.
Eventualmente voltei a vestir a roupa preta, cansado por não ter conseguido dormir como deve ser depois do atribulado sonho. Fui de seguida buscar a Sílvia a casa dela pois a mãe estava a terminar o turno no hospital, levo-a em silêncio em direcção à igreja onde ia ser rezada a cerimónia fúnebre, mas antes de entrar sinto um aperto no coração e no estômago, lembrando-me do pesadelo daquela noite.
- Entramos os dois. – conforta a Sílvia estendendo-me a mão de cima das escadas.
Agarro então na sua mão sentindo um toque quente e sem dar conta já me encontrava sentado naqueles bancos de madeira rígida e fria especado a olhar para o altar onde estava um caixão de madeira não tão escura rodeado de muitas flores.
Segurava firmemente a mão da Sílvia ao mesmo tempo que relembrava, sem sequer ouvir o padre, a conversa que tinha tido com a rapariga que estava ao meu lado há dias no quarto do Pedro.
Será que o meu futuro era aquele? Será que se não seguisse em frente e superasse o meu luto eu iria acabar daquela maneira? A suicidar-me por não aguentar a dor que me corrói?
Os meus pensamentos e dúvidas foram interrompidos pelo soluçar da Sílvia, que mantinha a cabeça para cima a olhar fixamente para o altar. Sem explicação sinto nesse momento um orgulho tremendo por ela, fazendo com que me sentisse pequeno como uma formiga. Tinha perdido o irmão e a melhor amiga em demasiado pouco tempo mas recusava-se a baixar os braços, recusava-se a simplesmente baixar a cabeça e deixar-se ir pelo luto e pela saudade!
Percebi nesse momento que não tinha realmente mal nenhum em seguir em frente, eu não o iria esquecer. Nunca.
Mas como? Como é que eu iria conseguir ultrapassar tanta saudade? Falar parecia tão fácil.
- Vamos agora para o cemitério. – diz a Sílvia baixinho ao mesmo tempo que limpava as lágrimas.
Como um relâmpago encontro a resposta: tinha que enfrentar os meus medos. E para começar ia visitar a campa do Pedro que inexplicavelmente eu não conseguia sequer pensar.
Acompanho então por respeito a marcha fúnebre até ao cemitério mas ao chegar àqueles imponentes portões de ferro, cheios de ferrugem da velhice, em vez de seguir o mar de gente repleto de angústia, dirijo-me em direcção à campa do Pedro.
- Onde vais? – pergunta a Sílvia preocupada.
- Tenho de fazer uma coisa. Desculpa.
E dito isto, retiro-me pelas vielas estreitas que separavam delicadamente as campas até encontrar o caminho principal feito de calçada. Caminho com a mente clara e como se as minhas pernas tivessem vontade própria, caminho rapidamente. Até que sou assaltado com apenas uma pergunta: “Porque é que me tinha custado tanto pensar sequer em visitar a campa do Pedro?”.
Sem me aperceber estava mesmo em frente à campa do meu melhor amigo, já arranjada, com revestimento de um granito escuro e por cima do mesmo várias lamparinas vermelhas já gastas, estando também ao lado um vaso com flores frescas. Uns vastos lírios brancos a tapar inocentemente a inscrição “Eterna saudade da tua família e amigos” gravada no próprio mármore a dourado e vejo, por fim, uma fotografia do Pedro a sorrir, embutida no mármore.
Sentia-me a fraquejar mas a todo o custo não queria! Isto era importante para mim e eu ia superá-lo.
Como era possível nos ligarmos tanto a uma pessoa? Como era possível essa pessoa ser-nos retirada assim tão abruptamente? Como era possível alguém sentir tanta saudade de outrem? Tanta que nos aperta levemente o peito mas não nos deixa respirar? Porquê este sofrimento?
- Porquê Pedro? – pergunto sentando-me na calçada em frente à campa e escondendo a cara com as minhas mãos.
Já me tinha sentido assim, já não era a primeira vez que queria chorar mas não conseguia. “Se calhar és tu que não me deixas, não é?” penso afastando as mãos e olhando para a estática fotografia.
Quando me apercebi que já seria tempo de voltar, levanto-me sentindo inexplicavelmente mais leve, contudo ainda não em paz.
- Vê se cuidas de nós aí em cima. – digo em tom de brincadeira para a fotografia, afastando-me de seguida.
As semanas seguintes foram ainda a desejar a solidão misturando com o mesmo pesadelo e sempre com o sentimento que ainda faltava ver mais alguma coisa.
Passou-se também a época de testes um pouco mais motivado mas tendo por vezes o Filipe a perturbar a minha fraca estabilidade. Causava-me enjoos pensar sequer que ele se tinha aproveitado da minha amizade e boa vontade para apenas ter bons resultados.
Haveria necessidade de as pessoas serem assim?
Mas neste tempo todo a minha preocupação era a saúde da Carina pois ela começou a tossir bastante quase depois de uns dias do funeral da Joana e ainda não tinha parado.
“Se calhar é melhor ela ir ao médico, já é demasiado tempo a tossir.” penso relaxado na minha cama.
Trim!
- Quem é? – pergunto com a respiração descompensada por ter corrido da minha cama até ao intercomunicador.
- É a Carina. – ouço do outro lado numa voz fraca.
Surpreendido abro a porta e ouço o ecoar do tossir da Carina nas escadas.
- Olá. – digo mal a vejo no cimo das mesmas.
- Olá, Hugo. – responde a Carina num tom de voz fraco – Podemos falar?
Afasto-me da porta para ela passar e acompanho-a até ao meu quarto para estarmos mais à vontade.
Que seria de tão importante que ela queria falar comigo? Estava realmente com uma expressão diferente (o que só isso me deixava preocupado) e apesar de ter dificuldade em falar notava-se que o seu tom era sério.
- Eu queria ter falado mais cedo mas é um bocado difícil falar contigo se estás sempre a fugir das pessoas, incluindo eu.
Não respondi, não era mentira que procurava solidão e para poupar a Carina de alguma discussão inútil a esse respeito, aceno a cabeça afirmativamente para que pudesse continuar.
- É-me difícil falar, tanto pelo assunto como pelo meu estado, por isso peço-te que me deixes falar até ao fim. – diz a Carina rompendo em tosse.
Estávamos sentados lado a lado na minha cama a olhar para o mesmo pedaço de chão.
O que é que se passava?
- Sim. – digo quando ela terminou de tossir.
- Isto do que te vou falar aconteceu no dia dos namorados, no dia do funeral da namorada do Pedro. Eu sei que não tinha esse direito mas fiquei muito triste por não podermos passar esse dia juntos. – interrompe a Carina para tossir mais um pouco – Mesmo sendo da mesma turma que tu não passávamos quase tempo nenhum juntos, pensei que nesse dia irias sentir que querias estar comigo. Sentia-me triste e não o conseguia controlar. – interrompe novamente, demorando desta vez a voltar a respirar – Pela tua falta de apoio, pela tua falta de carinho, pela simples falta de falares comigo, sentia-me muito desamparada e fui-me apoiar, vendo isso agora, à pessoa errada. Pensava que tinha no Vasco um amigo e confiava nele, dizendo-lhe muitas vezes porque estava triste. Nesse dia Hugo encontrei-me com ele a chorar… e ele beijou-me.
Houve uma pausa talvez pela Carina ter começado a tossir mas independentemente disso, eu estava em choque.
- Eu retribuí o beijo, Hugo. – revela a Carina a chorar e a falar um pouco mais forçadamente – Talvez por não me dares atenção, talvez por me sentir sozinha e ele ter estado ao meu lado, talvez por todas as razões do momento. Eu retribuí. Apercebi-me pouco depois do que estava a fazer e parei logo! Apercebi-me que aquilo era errado, que o que sentia pelo Vasco era apenas amizade e que o amor que sentia por ti continuava em pé apesar de tudo. Eu sei que posso não ter o direito de te pedir isto mas por favor. Por favor, Hugo! Desculpa-me…
Não ouvia a Carina a tossir, não ouvia a Carina a chorar, não ouvia os pássaros a chilrear lá fora, não ouvia as portas a fecharem, apenas ouvia o bater do meu coração ao mesmo tempo que milhões de perguntas se formavam na minha cabeça mas todas tinham resposta: eu tinha-me mesmo afastado bastante da Carina e por muito que me custasse eu tinha que admitir isso. Contudo não ia tolerar que ela me traísse!!!
- Perdoas-me? – insistiu a Carina olhando para mim.
- Como deves imaginar, eu preciso de pensar. – respondo num tom irónico com vestígios de sarcasmo sem retirar os olhos daquele pedaço de chão.
A Carina envolveu-se num choro profundamente triste, levantando-se e saindo porta fora. Eu ouço-a, parecendo-me muito longe, a fechar a porta de minha casa, a descer as escadas, enquanto tossia, e a fechar a porta do prédio, sem que sentisse vontade de ir atrás dela.
Levanto-me, contudo, completamente furioso, sentindo também uma raiva interior.
Como é que ela foi capaz? E diz ela que gosta de mim! Não gosta nada! Ela não sente nada por ninguém! Como é que ela foi capaz?!
Os dias seguintes apenas trouxeram raiva, uma vontade inexplicável de atingir o Vasco e, por fim, trouxeram também as chuvas de Abril.
Na escola afastava-me de mau humor de tudo e todos, apenas a Ana vinha ocasionalmente falar comigo durante e fora das aulas. Por vezes dava por mim a criar situações com a Ana para que a Carina visse. Não a beijava nem nada do género, apenas conversava mais próximo, apenas fazia o suficiente que eu sabia que iria atingir a Carina, quase como um sentimento de vingança.
E num dia quando já caminhava ao lado dos grandes arbustos da escola para sair em direcção a minha casa, vejo a Ana no portão a chamar-me mas sabendo que a Carina já estava em casa não sinto a mínima vontade de estar com ela.
- Olá Hugo! – cumprimenta a Ana entusiasmada esticando-se para me dar um beijo na bochecha.
Não estava sequer a prestar grande atenção à Ana mas ela estava a aproximar-se cada vez mais de mim e não sabendo porquê sentia-me cada vez mais, ao mesmo tempo, a sufocar.
- Eu sei que queres tentar mais uma vez comigo. Eu sempre soube que tu nunca deixaste de gostar de mim. – murmura agarrando-me na cara e a aproximar os seus lábios dos meus.
Eu apercebendo-me só naquele instante do cenário todo, faço um movimento brusco para trás.
- Não Ana! Eu não quero nada contigo! – digo rapidamente.
- O quê? – pergunta incrédula – Mas já nos estávamos a dar tão bem!
- Não Ana! – rejeito com veemência – Eu não gosto de ti assim. Desculpa se te dei a entender que iria haver outra vez algo entre nós mas eu nestes dias não estive muito bem. Sou eu quem te deve pedir desculpa por te ter feito isto, por te ter dado esperanças de algo. Podes-me perdoar Ana? – pergunto sinceramente apercebendo-me do mal que estava a fazer a tantas pessoas e da estupidez da situação.
“Eu não sou assim!” penso zangado comigo próprio, sentado na minha cama. Eu não queria trair a Carina, nunca!
Trim! Trim! Trim!
- Mas o que é agora? – pergunto chateado atendendo depois o telefone que estava a tocar – Sim?
- Estou? - pergunta uma voz masculina – É da casa do Hugo?
- É sim. – respondo moderando o tom de voz.
- É o pai da Carina. Ela pediu-me muito que o avisasse que ela está no hospital, é que a tosse dela piorou.
- Como? – pergunto incrédulo e preocupado enquanto me sentava de novo na minha cama – Ela está bem?
- Não está bem, tem muita dificuldade de respirar mas mesmo assim pediu-me para o avisar.
- Muito obrigado! Vou agora para o hospital! – digo decidido.
- Muito bem, eu tenho que tratar ainda de umas burocracias no trabalho e depois também me dirijo para lá. Eu deixei-a na ala Este do hospital.
- Obrigado. – digo desligando o telefone e vestindo de seguida o casaco.
Não poderia contar com os meus pais para me levarem para lá mas podia sempre tentar a mãe do Pedro.
- Quem é? – pergunta a Sílvia falando no intercomunicador depois de eu ter tocado à campainha.
- Sílvia! A tua mãe está em casa?
- Hugo? Ela acabou de descer, mas o que se passa?
É nesse instante que vejo a mãe do Pedro a sair pela porta, vestida possivelmente para mais um turno no hospital.
- Olá Hugo. Tudo bem?
- Por acaso vai agora para o hospital? – pergunto esperançoso ao olhar para a vestimenta azul clara meia escondida debaixo de um grande casaco castanho-escuro.
- Sim. Como vês vou fazer um turno. – responde a mãe do Pedro mostrando a vestimenta usual dos enfermeiros.
- Podia-me levar, por favor?
- Claro mas o que se passa filho? Pareces tão abalado! – diz num tom maternal enquanto se dirigia para o carro.
Na curta viagem de carro apenas disse que a Carina estava no Hospital e que estava na ala Este o que pelos vistos significava que estava na área das urgências.
Mal chego lá, entro naqueles corredores com um cheiro tão característico e tão indescritível, esperando pela mãe do Pedro que foi tentar obter informações por mim. Passado pouco tempo já estava ela de volta com um ar preocupado.
- Mudaram-na para a ala Norte.
- Porquê? – pergunto seriamente preocupado.
- Não sei filho. – responde no mesmo tom – Essa ala é a dos cuidados intensivos. Fazes assim, diriges-te para lá e tentas encontrá-la, é que entro agora ao serviço mas vou tentar saber informações entretanto.
Em pouco tempo a mãe do Pedro explicou-me como me dirigir para a ala onde estava a Carina e agradecendo no final começo a correr com todas as minhas forças.
Tentava desesperadamente estar atento ao caminho que estava a percorrer, para não me enganar mas uma imagem doentia da Carina deitada numa cama do hospital, inanimada, sozinha… O meu coração acelera e eu acelero o passo de corrida para o acompanhar.
Corria desenfreadamente pelos corredores cinzentos, ora com pessoas (tanto doentes a deambular como enfermeiros e médicos a trabalhar), ora sem pessoas, contudo ouvia apenas o bater do meu coração acelerado e os meus passos a ecoar naquele chão mórbido. Só tinha um objectivo: ver a Carina.
Dou conta nesse instante que algo apertava levemente o meu peito, quase não me deixando respirar. Seriam saudades da Carina, seria a ansiedade de a ver, de estar com ela e, finalmente, perdoar-lhe? O que sentia naquele momento superava qualquer rancor, qualquer mágoa, qualquer ressentimento, qualquer traição. Eu amo a Carina! Eu sabia disso o momento todo mas tinha-me deixado levar pelo orgulho.
Lembro-me com tristeza, ao virar pela terceira vez à direita, duma pergunta feita numa tarde de Primavera há um ano atrás, antes da Carina ir para o Algarve e mesmo antes de darmos o nosso primeiro beijo.
- O que esperas de uma namorada? – perguntou interessada deixando-me constrangido.
- Não sei… Talvez apenas que goste de mim e seja sincera comigo.
Foi o que lhe disse, foi o que ela fez! Ela foi sincera e eu virei-lhe as costas.
- Cobarde! – digo descompassadamente ao virar novamente numa esquina depois de um longo corredor.
Eu fui um cobarde! Escondi-me no meu próprio orgulho, enquanto que ela me veio dizer, olhos nos olhos, que errou. Teve coragem para isso, para me pedir perdão e eu…apenas gozei com os seus sentimentos.
Tinha-me realmente afastado de toda a gente, todos os dias me apercebia que isso estava a acontecer, porém nada fazia (ou não queria fazer) para combater isso. Tinha simplesmente construído um muro à minha volta, não deixando ninguém entrar.
Reparo então de repente numa placa azul escura suspensa, que tinha gravado a branco as palavras “Ala Norte” e abrando de imediato. À minha esquerda, espreito para uma pequena sala, entro vendo que na parede tinham um quadro branco onde os médicos e enfermeiros escreviam numa letra muito própria o estado de cada paciente, colocando à frente o número da respectiva cama.
- Procuras alguém? – pergunta um médico que reparou que estava a tentar decifrar a letra.
- Sim. Procuro a Carina Neves por favor.
- Ah! A menina com tuberculose. – responde o médico de bata branca com variadas canetas presas no bolso esquerdo.
- Como é que ela está? – pergunto automaticamente.
- Está muito mal. Está mesmo muito debilitada. Neste momento tivemos que a colocar com oxigénio pois a saturação era bastante mais baixa que o normal.
- Como?! – pergunto confuso.
Oxigénio? Ela deve estar mesmo mal!
Sinto então como se estivesse alguém a agarrar o meu coração e estivesse a contorcê-lo.
- Ela mal consegue respirar. Nunca tinha visto um caso destes. Realmente teve tuberculose mas voltar a ter uma recaída depois do excelente tratamento que teve implica um nível de contágio muito elevado ou então uma concentração de stress enorme. Duvido muito que tenha contraído de outra pessoa, é muito raro, por isso só resta a questão do sistema nervoso, por acaso sabe se a menina Carina esteve exposta a alguma situação com muito stress ou, até mesmo, traumatizante? – pergunta o médico de enfiada e muito informalmente, tirando a ficha médica da Carina da placa de madeira que tinha na mão e uma caneta azul do seu molho, pronto para anotar qualquer coisa.
Fico a olhar meio embasbacado para o médico, ao mesmo tempo que juntava os pensamentos na minha cabeça, como se de peças de um puzzle se tratasse.
A Carina tinha começado a tossir depois do dia dos namorados, depois de ter beijado o Vasco, começou a ficar mal quando me queria contar e ficou ainda pior depois de ter visto tantas provocações minhas com a Ana. Eu em parte era responsável por ela ter piorado.
Tento, por fim, explicar o melhor que pude que realmente a Carina tinha passado por experiências que envolviam muito stress, tentando sempre tornear o seu assunto e motivo. Então de seguida o médico diz-me o número da cama da Carina, para que pudesse, finalmente, vê-la.
Caminhei devagar por mais um daqueles corredores, por mais umas portas castanhas, até chegar a uma porta, da mesma cor e com o mesmo aspecto, com uma folha amarela com os números das camas que estavam naquele quarto.
- 742. – disse baixinho, relembrando-me do que o médico tinha dito.
Estaria preparado para ver a Carina naquele estado? Será que ela iria estar exactamente como eu imaginei?
Abro a porta devagar, ouvindo apenas o seu ranger, entrando de seguida para um quarto triste, de paredes amareladas e com duas camas, uma delas vazia.
Vejo então, fixamente, a Carina deitada, inconsciente, com uma máscara de oxigénio e ligada a um monitor ruidoso.
Com o choque, sinto o meu coração a querer descer até aos meus pés. Uma coisa era imaginar, outra coisa era ver. Ver a Carina neste estado, assim deitada numa cama fria e com a cara tão pálida, quase como a neve de Janeiro.
Caminho depressa na sua direcção, depois de ter reparado que continuava especado na entrada do quarto, puxo uma cadeira laranja de plástico fraco e sento-me devagar, muito perto da cama.
Olho sem qualquer expressão para aquele cenário e apenas pego na sua mão fria, que estava deitada sobre o cobertor azul, que continha as insígnias do hospital, encosto-a à minha face quente (e um pouco suada) de ter corrido desenfreadamente por tantos corredores.
- Amo-te tanto, Carina. – digo com a voz a fraquejar.
Sentia o choro iminente mas não o merecia, não merecia chorar ao ver a Carina naquele estado (por muito que me magoasse) sabendo que tinha uma parte da culpa. Tudo por causa do meu orgulho! Do meu estúpido orgulho! Quando nesse momento queria apenas estar com ela e que ela estivesse bem.
Fiquei assim, com os meus dedos entrelaçados nos dela durante bastante tempo, simplesmente, a olhar para a sua face serena enquanto acariciava o seu cabelo estendido desajeitadamente na almofada.
- Hugo? Ainda aqui estás? – pergunta uma voz familiar na entrada do quarto.
Olho e vejo a mãe do Pedro com um olhar envolvido em preocupação.
- O horário de visitas já acabou! – insistiu depois de eu não lhe ter respondido.
- O seu turno já acabou? – pergunto despreocupado voltando o meu olhar de novo para a Carina.
Estava tão calma, como se estivesse apenas a descansar.
- Sim, entretanto soube em que cama estava a Carina. E quis também saber alguns pormenores do seu estado. – faz uma pausa sentando-se no fim da cama, olhando docemente para a Carina. – Ainda bem que não chegou a nível de contágio. Agora depende dela.
- Ela vai melhorar! – digo num tom baixo mas com veemência.
- Vai sim, filho. – responde logo a mãe do Pedro num tom doce, acariciando-me ao mesmo tempo a bochecha.
Larguei com algum pesar a beira da cama da Carina pois queria aproveitar a boleia da mãe do Pedro.
Cheguei a casa, não comi, tomei apenas um banho e deitei-me de imediato para descansar um pouco na minha solidão.
Na primeira semana, eu ia todas as tardes ao hospital visitar a Carina, sempre na cama 742, ainda inconsciente. Até que um dia, estava a acariciar a sua face agarrando também com firmeza a sua mão, vejo com uma tremenda alegria a Carina a abrir os olhos, embora ainda meia atordoada.
- Hugo. – disse com custo, tentando tirar a máscara de oxigénio para falar melhor.
- Deixa ficar, tu precisas disto. – digo imediatamente num tom meigo, agarrando novamente na sua mão e retomando as carícias na sua face.
E enquanto acariciava a sua bochecha, sinto uma lágrima a cair na minha mão, olho então surpreendido para a Carina que estava a chorar.
- Vai tudo correr bem. Não te preocupes, eu estou aqui. – digo deixando a Carina voltar a adormecer.
Durante os dias seguintes a Carina acordou várias vezes mas por pouco tempo, contudo o médico dela dizia que era um bom presságio. Eu apenas esperava todos os dias à sua beira por um sorriso daqueles lábios que já não beijava há tanto tempo.
O tempo esse, voltou a aquecer um pouco, ao mesmo tempo que a saúde da Carina voltava, ao mesmo tempo que a minha felicidade regressava um pouco todos os dias ao vê-la melhorar.
- Sentes-te melhor? – pergunto preocupado ao vê-la acordar.
- Sim, acho que já estou a respirar melhor. – responde um pouco rouca, entrelaçando os seus dedos nos meus – Estiveste sempre aqui?
- Sim. – respondo com um sorriso nervoso – Eu amo-te!
Se calhar não devia ter dito aquilo mas era o que sentia! Amo-a com todas as minhas forças, queria estar com ela, simplesmente zelar-lhe o sono enquanto acariciava o seu braço estendido inerte no colchão ou então a sua face um pouco mais rosada.
- Eu também te amo muito Hugo, nunca duvides disso, por favor.
Então abraço-a com gentileza, quase com medo de a partir, como se de uma bonequinha de porcelana tratasse.
- Desculpe, o horário de visitas terminou. – diz carinhosamente uma auxiliar que vinha sempre avisar-me que tinha que me ir embora.
Eu levanto-me e encosto a minha boca ao ouvido da Carina.
- Eu perdoo-te se tu me perdoares. – digo num murmúrio.
Ela tinha tanto para perdoar como eu pois eu tinha gozado com os seus sentimentos. Como o pude fazer e porquê? Por vingança? Por apenas um erro que ela cometeu, tendo eu metade da culpa? Não valia a pena, não valia tanto.
Pensava também, já no conforto do meu quarto, enquanto olhava para a fotografia da Carina, na sua resposta. Encostando-me de seguida na almofada adormecendo profundamente.
Via de novo a grande igreja onde tinha sido o funeral do Pedro, entro nela e caminho até ao altar sem vontade própria.
Estou a ter o tal pesadelo!
Aproximava-me cada vez mais do altar.
Será que seria desta vez que iria ver o sonho todo?
Cada vez mais perto.
Eu vou conseguir ver! Eu quero descobrir de uma vez por todas!
Já conseguia ver o caixão do Pedro e olho então um pouco relutante para o outro lado e vejo então um outro caixão com outra pessoa.
Quem será?
Aproximo-me mais desse caixão, vendo a Carina lá dentro, sem a máscara de oxigénio mas lívida e inerte.
- Carina! Não! – grito acordando sobressaltado.
A Carina? Era isto que eu via no pesadelo que me perturbava tanto? O medo de a perder era enorme, eu sabia disso, principalmente quando soube que ela estava no hospital, eu senti um medo enorme de a perder. Senti-me apavorado só de o pensar.
Tinha agora uma vontade enorme de contar a alguém a minha descoberta e só me lembrava de uma pessoa.
Visto-me à pressa e como qualquer coisa de pequeno-almoço, correndo de seguida para a campa do Pedro.
- Sonhei com ela, basicamente com o funeral dela, Pedro. – conto para a fotografia embutida no mármore, já sentado na calçada fria – Eu não suportava perder mais alguém, eu não iria suportar passar novamente o que passei quando tu morreste.
Apercebo-me das minhas próprias palavras, saio do cemitério, dirijo-me para o hospital e quando finalmente chego lá, um pouco ofegante, vou ao piso onde estava a Carina, indo depois em direcção à sua cama. Quando a vejo, ainda a dormir, lanço-me a ela, abraçando-a.
- Amo-te tanto Carina. Eu não te quero perder. – digo baixinho respirando para o seu pescoço.
Sinto então, de repente, os braços da Carina a envolver-me com carinho.
- Tu não me vais perder. – responde-me ela no mesmo tom de voz – Eu estarei sempre contigo.
Passando-se apenas dois meses, a Carina deixou os Cuidados Intensivos e foi para a Enfermaria. Ao fim de dois meses, ela ficou melhor e os médicos deram-lhe alta mesmo uns dias antes do Baile de Finalistas.
- Eu gostava de ir. – dizia a Carina – É uma homenagem.
- Vamos e vamos juntos. – confirmo de seguida, agradecendo depois o esplendoroso sorriso dela, voltando depois a desvanecer-se – Que foi?!
- Não tenho vestido. – responde embaraçada.
Rio com vontade.
Os dias seguintes foram quase como a calma depois da tempestade, sempre feliz por ter a Carina, a pessoa que mais gostava, comigo ao meu lado, também feliz por estar bem e ansiosa pelo Baile pois tinha encontrado um vestido da mãe, teimando em não mo mostrar, querendo fazer-me uma surpresa.
A ansiedade dela e também entusiasmo eram contagiantes, não me deixando ficar indiferente, no dia do Baile visto o meu fato, com uma gravata vermelho-escuro (sugestão da Carina), coloco um pouco de perfume e miro-me ao espelho antes de sair de casa para ir buscar a Carina a casa.
- Um playboy! Um playboy! – dizia o meu pai fazendo-me rir.
Via um rapaz tão diferente, com um brilho diferente naqueles olhos azuis, a pele da cara lisa, o cabelo sempre num desalinho fixado com gel. Estava era um pouco mais magro mas ao menos estava feliz.
Dirijo-me por fim, para a casa da Carina, ouvindo apenas o som ansioso dos meus sapatos na calçada.
Toco então à campainha daquela porta de madeira pintada de verde, à qual foi o pai dela que abriu a mesma, deixando-me entrar, olhando surpreendido para o meu aspecto.
- Estás muito bem. – diz o pai da Carina com um tom de entusiasmo – Ela já desce e eu vou só buscar a máquina fotográfica.
Fico então sozinho no corredor da entrada, em frente às escadas, a mirar uma das muitas máscaras africanas assustadoras penduradas na parede. Não conseguia estar atento a nada, estava muito nervoso, com o meu coração aos saltos, com a maça de Adão a ameaçar explodir de vez, a garganta seca…
Até que a vejo. Até que a vejo a descer graciosamente as escadas.
Quase que sinto o meu coração a parar ao vê-la, com o tal vestido da mãe, que era branco e com uma fita de cetim vermelho-escura a envolver a sua cinta caindo depois graciosamente na parte detrás do vestido. Tinha o cabelo apanhado, formando um pequeno tufo na cabeça mostrando o esplendor da sua face e dos seus lindos olhos.
Estava completamente maravilhado e quase que perdia a força nas pernas para não falar nas mãos, que quando a vejo quase que deixava cair a surpresa que tinha para ela detrás das costas.
- Estás linda! – digo beijando-a com cuidado na testa – Pareces um anjo.
- Não digas isso! – responde corando, começando ao mesmo tempo a mirar-me melhor – Tu é que estás todo giro! – diz animada piscando-me o olho.
Era a minha vez de corar e pronto para contrariar isso, mostro-lhe a surpresa com um beijo: uma túlipa branca.
Depois de ver um sorriso rasgado de surpresa, dirigimo-nos para o restaurante onde ia ser realizado o Baile. Viam-se pessoas muito bem vestidas para a ocasião mas ninguém igualava a Carina.
Tirámos várias fotografias juntos no jardim do restaurante, indo depois de bom grado para o salão de festas. Mal entrámos, eu sinto um arrepio na espinha ao ver uma grande foto do Pedro (a sorrir) apoiada numa grande mesa cheia de flores e velas.
Ao ver isto, a Carina, acompanhada de uma lágrima, aproxima-se da mesa e pousa delicadamente a túlipa branca em cima da mesa. De seguida, vira-se para mim a sorrir, abraçando-me, por fim.
Tinha-me comovido o seu gesto e ao som da música que ecoava na sala, agarro-a para bem perto de mim para dançar, ao mesmo tempo que deixava cair uma lágrima em cada lado da minha face, fechando de seguida os olhos, sentindo apenas o sabor da música e, calorosamente, o cheiro que a Carina emanava pelo ar."





Com tanto carinho e incentivos para escrever, claro que acabei o 3º capítulo num ápice!
Espero ter superado ou pelo menos igualado às vossas espectativas quanto a este capítulo. O espaço de comentários é vosso, vocês sabem que eu agradeço sempre um comentário ou, claro, uma crítica.
Espero, também, do fundo do meu coração que gostem este capítulo porque foi graças a vocês que tive ideias e, ainda mais importante, vontade de escrever.
Muito obrigada por tudo e boa leitura.

Sábado, Setembro 01, 2007

A mania continua...


A mania continua! E mais uma vez digo que este blog não foi de todo uma tentativa frustrada para eu voltar a escrever pois para além de eu voltar a escrever, vocês inspiraram-me para olhar mais além e pensar ainda em mais capítulos! Coisa que nunca tinha pensado na vida!
Por isso, aproveito desde já, para agradecer a todos vós que leram o que escrevi até agora e um especial obrigado a todos os que se apaixonaram pela obra Os Homens Também Choram.


Sendo assim, dou-vos as novidades, já comecei à algum tempo a escrever, no meu moleskine novinho em folha (agora já não), o terceiro capítulo desta obra mas sempre com um receio enorme de não estar, pelo menos, a igualar às vossas espectativas quanto a este capítulo. Só rezo para que vocês gostem e se interessem ainda mais pois eu escrevo estas obras de alma e coração.
Ah! Já sei quem morre neste capítulo! Escusam de tentar escolher mas podem especular.



Terça-feira, Julho 17, 2007

Os Homens Também Choram, capítulo II

Dedicado a todos os que não estão connosco mas que zelam sempre por nós,

"Não queria acordar. Queria continuar a sonhar com ela, sonhar pelo menos um segundo que estava com ela, sonhar que a beijava, outra vez, no seu quarto.
Era inútil… Levanto-me mas fico sentado na borda da cama a olhar para o chão de madeira escura que me fazia, muitas vezes, lembrar a cor do cabelo da Carina, e depois, lembrava-me do seu cheiro, do seu toque… Sentia tanto a sua falta.
Não!
Jurei a mim próprio que a iria esquecer! Mas estava a ser difícil, mais difícil do que imaginava. Pensava que depois de a ter deixado ir, que não a vendo, a iria esquecer mais facilmente.
- Bom dia, preguiçoso. – disse a minha mãe, abrindo a porta e estendendo a mão – Aqui tens a tua correspondência.
Dou um salto, arranco as três cartas da mão da minha mãe e fecho a porta bruscamente. Eu sei que não ando propriamente bem-disposto, pelo menos desde que a Carina se foi embora. Ando sempre ansioso… Ansioso pelas respostas dela.
Esfolhei violentamente a correspondência: publicidade, um aviso do ginásio para pagar as quotas anuais e mais publicidade, mas nada dela. Sinto um vazio e sento-me, novamente, desiludido na cama, pensei realmente que ela me fosse responder.
- Já se passaram 2 semanas. – digo pensativo enquanto abro a gaveta do fundo da minha secretária.
Tinha as cartas dela todas ordenadas com muito carinho. Começámos a corresponder-nos mal ela se foi embora, porém as cartas são apenas uma pequena fonte de saudades, não me acalmavam. Por vezes, nas tardes entediantes, desafiava-me a mim próprio a pensar no que faria quando a voltasse a ver.
Não!
Eu vou esquecê-la e seguir em frente, aproveitar a minha adolescência, tal como ela deve estar provavelmente a fazer.
Visto-me à pressa e dirijo-me, contrariado, para o almoço.
- Boa tarde, filho! – disse o meu pai alegremente.
- Boa tarde, pai. – Não parecia eu a falar.
- A tua voz está cada vez mais grave! – constatou a minha mãe com um sorriso.
- Como a do teu velhote. – respondeu o meu pai dando várias palmadinhas nas costas – Qualquer dia não há rapariga que te resista!
- Que convencido, Alfredo! Duvido que o nosso filho seja desses. – concluiu, servindo-me de uma boa quantia de arroz de polvo.
Ri-me a pensar que estava realmente cada vez mais diferente do rapazinho que entrou para a escola secundária, muito baixinho, franzino e de óculos de massa azuis-escuros. Porém, parecia que estava também diferente do rapaz do ano passado, parecia que neste curto espaço de tempo tinha ficado mais alto e mais entroncado. Mas também isso devia-se ao facto de eu ir ao ginásio quase todos os dias, ás vezes, era capaz de admitir que era uma forma de eu descarregar todas as minhas emoções e frustrações. Eu sei que tenho um grande amigo sempre pronto a ajudar-me e a ouvir-me mas já estava farto de estar a falar sempre na mesma coisa, e posso apostar que Pedro também já devia estar farto do mesmo tema de conversa. Agradeço-lhe tanto e ele sabe que sim.
- Então e hoje que vais fazer, Hugo?
- Mãe, já te tinha dito! Vou à piscina com o Pedro.
- Ah! Pois era filho… - A minha mãe é tão esquecida.
Saio da mesa e vou arranjar o saco para ir ter com o Pedro às piscinas municipais, como combinado. Ainda estava bastante calor para início de Setembro, mesmo aquele calor que convidava para entrar na água fresca e límpida duma piscina.
Só de pensar que daqui a uns dias as aulas iam começar, só de pensar que amanhã vai ser a apresentação com o director de turma e só de pensar que no ano passado estava tão ansioso por a ver, só que agora estava apenas ansioso pelas respostas dela às minhas cartas. Ela estava tão longe mas tão perto ao mesmo tempo…
- Terra chama Hugo…
- Ah! Olá, Pedro! Nem dei conta de tu chegares.
- Eu sei que não…
Era incrível, nem tinha dado conta que tinha chegado às piscinas. Estávamos a comprar o bilhete de entrada, quando várias raparigas passam por nós e entregam o bilhete ao segurança, que estava nos portões, porém começam aos risinhos.
- É o que te digo, só espero que entre gente nova na nossa turma. Já estou farto de ver as mesmas caras.
- Podes crer. – digo estendendo o bilhete ao segurança. Ainda conseguia ouvir os risinhos. – Só espero que não tenha que aturar risinhos daqueles, durante um ano inteiro!
- Nem me fales nisso! - respondeu o Pedro, descalçando-se – Mas sabes, aquelas raparigas não era do nosso ano.
- Não? – Pareciam mesmo da nossa idade.
- Não, rapaz. São do mesmo ano que a minha irmã.
- Da Sílvia? Não pode ser. A tua irmã só anda no 9º ano.
Ao contrário de mim o Pedro não era filho único e tinha uma irmã mais nova. Era bastante engraçada e seria curioso vê-la depois de algum tempo, ela tinha estado doente e não saia de casa.
- Como é que ela está? – pergunto com cuidado
- Está óptima! Já me anda a chatear, até esteve sempre a falar que queria vir à piscina connosco mas a minha mãe não a deixa sair de casa, gripes no Verão, diz ela, são muito difíceis de curar.
- Mas é verdade. Diz-lhe que ela vem para a próxima vez.
- Não digo não! Estás doido? Chateia-me em casa e ainda a vou aturar uma tarde inteira na piscina.
Dou uma gargalhada, só o Pedro para me fazer rir.
- Vá, não sejas assim…
- Imagina aturar aquilo durante uma tarde inteira. – disse apontando com a cabeça para o grupo de raparigas, que tinham entrado antes de nós e que tinham recomeçado com os risinhos.
- Mas olha que eu cheguei mesmo a pensar que fossem do nosso ano.
- Parecem cada vez mais velhas. É assustador! – diz fazendo uma careta.
Começo a rir, tentando ao mesmo tempo procurar uma mesa com um guarda-sol livre. Vejo uma e chamo o Pedro, que estava distraído a olhar para o tal grupo de raparigas. Sentamo-nos, colocando a toalha por cima da cadeira branca de plástico.
- Ah! Sombra… - agradeceu o Pedro conforme se ia instalando na cadeira que estava mesmo por baixo do guarda-sol.
- Então? – pergunto instalando-me também à sombra. Está um calor abrasador, infelizmente tinha que fazer a digestão e não podia saltar directamente para a água cristalina da piscina ali perto.
- Então, o quê? – respondeu o Pedro de olhos fechados, encostado e relaxado na cadeira.
- Estavas muito distraído há bocado. – digo insinuando.
O Pedro coloca-se de novo direito na cadeira e dá uma tossidela seca.
- Estás a corar, Pedrinho?
- Tens muita graça. – diz rindo – Algumas são bem giras e não me digas que não reparaste!
- Reparei nelas porque pensava que eram do nosso ano e poderiam entrar para a nossa turma.
- Pois, pois. Engana-me. – diz retirando um baralho de cartas vermelho. – Queres jogar?
- Ok. Já que temos que esperar até acabarmos de fazer a digestão.
- Pois, se a minha mãe soubesse que tinha ido para a água antes de…
Porém, a reclamação do Pedro contra o facto de ter uma mãe enfermeira não chegou a ser concluída pois nesse momento passaram duas raparigas pela nossa mesa.
- Olá, Pedro! – disse a rapariga loira, fazendo com que o Pedro se mexesse na cadeira para se meter numa posição um pouco estúpida, acho que a intenção dele era ficar o mais direito possível. Não resultou.
- Olá, Joana!
E avançaram elas para o grupo de raparigas, ainda aos risinhos, ali perto instaladas.
- Certo… E eu sou cego.
- Que estás para aí a falar? – respondeu o Pedro incomodado.
- Estás apaixonadiço por uma das duas raparigas, ou seja, que falta saber qual das duas era. – digo fingindo esticar o pescoço para observar as raparigas.
- Oh! Pára com isso. - respondeu, fazendo uma pausa grande antes de voltar a falar. – É a Joana.
- A loirinha?
- Sim. Ela tem ido lá a casa todos os dias para visitar a minha irmã. Acho que já não dispenso a presença dela.
- É assim tão grave? – digo em tom de brincadeira.
O Pedro ri-se mas parecia mesmo apaixonado pela tal Joana, já não o via assim desde o namoro que teve com a Sara, no qual saíra magoado.
Tivemos uma tarde muito agradável apesar de ás vezes dar com o Pedro a olhar distraído para o grupo de amigas da irmã. Porém, quando o sol começou a pôr-se, um frio estranho colocou-se no ar. Arrumámos as toalhas e seguimos para os portões de entrada.
- Ainda no início da tarde disseste que não estavas para aturar risinhos das miudinhas.
- Que queres dizer com isso? – diz o Pedro num tom de desafio, fitando-me.
- Que ainda há bocado estavas a dizer que não estavas para aturar miúdas e estás caidinho por uma. – respondo com um tom sincero.
- Ela é diferente. Parece que tem uma maturidade mais avançada. Não tem aqueles ataques de histeria estúpidos e não se põe a rir e a cochichar com as colegas quando passa um rapaz.
- Não fazia ideia. Eu também não a conheço bem.
- Acreditas que no outro dia… - e cala-se caminhando mais depressa.
- O quê? – digo impaciente, acompanhando-o.
- Irias gozar comigo. – respondeu num murmúrio.
- Esse é o teu departamento.
O Pedro olha para mim e diz num tom sério que nunca tinha ouvido.
- No outro dia, ela foi visitar a minha irmã mas ela tinha adormecido e então, começámos a falar e falámos desde as coisas mais banais até filosofia.
- Filosofia? – pergunto incrédulo.
- Eu sabia que ias gozar comigo, Hugo.
- Eu não estou a gozar contigo! – digo colocando a minha mão no ombro do Pedro, este também estava mais alto. Era inevitável, estávamos a crescer tanto por fora como por dentro. – Apenas não sabia que te interessavas por filosofia.
- Apenas gosto de questionar as coisas. Pensar no destino, nas perguntas existenciais… - concluiu, encolhendo os ombros.
- Ás vezes, também me questiono sobre o destino.
- Tens pensado na Carina?
- Muito. – respondo fazendo uma pausa. - Mais do que devia.
- Ás vezes, há coisas que não se devem esquecer.
- Como assim? – Não estava a perceber o que é que o Pedro queria dizer com aquilo.
- Porque é que a deixaste ir? Ela podia ter ficado, ela própria o disse.
- Tu não percebes. Eu não podia pedir-lhe isso. Aliás, ficou bem claro que ela só me queria como amigo.
- Ou não!
Não estava para ouvir outra vez o Pedro com as suas insinuações de que se ela tivesse ficado que tudo tinha corrido bem. Não era possível porque para além de eu não a querer prender, não queria perder a sua amizade. Era demasiado importante.
- Se eu fosse importante, então já me tinha respondido, já lá vão 2 semanas.
- Se calhar teve um imprevisto. – supôs o Pedro.
- Ou então seguiu com a vida dela. – respondi amargurado.
Não obtive resposta, era óbvio que o Pedro também pensava isso. Que outra explicação tinha? Que explicação tinha o interregno das respostas dela, quando mesmo ela prometeu corresponder-se comigo? Só podia ser isso.
Antes de chegarmos à bifurcação que nos separava em direcção às nossas casas, senti um arrepio na nuca, paro e digo num tom sério:
- Talvez fosse mesmo bom eu começar a tirá-la da minha cabeça, isto é, do meu coração.
- E deixas de te corresponder com ela?
- Se ela me responder, não. Eu gosto muito dela, mesmo que a tire do meu coração, vou ser sempre seu amigo.
E despedimo-nos caminhando em direcção para as nossas casas.
No dia seguinte, levantei-me cedo e já estava mais que pronto para ir à reunião de apresentação na escola e quando estava quase a chegar à escola encontro o Pedro muito divertido a falar com a tal Joana. Por respeito, caminho como se não o tivesse visto e entro pelos portões brancos dirigindo-me para a entrada principal.
- Hei! Hugo! – gritou o Pedro.
- Ah! – finjo – Nem te tinha visto.
- Pois. – diz o Pedro murmurando – Estava a conversar com a Joana. Acho que também tem a apresentação dela hoje.
Dirigimo-nos, por fim, à sala estipulada e sentamo-nos nas secretárias beges, começando a entrar mais pessoas na sala, umas conhecidas, outras nem por isso. Cumprimentámos antigos colegas, conversámos sobre as férias e até conversamos sobre as novas “colegas”.
- Ah! É verdade. Não se vão logo embora depois da apresentação porque eu quero fazer um comunicado. – disse o Vasco, um colega nosso de estatura pequena, com um tom importante.
- Ok. – respondo, olhando em volta para as muitas caras que nos rodeavam.
- Pára com isso.
- Paro com o quê?
- Parece que estás à procura dela.
E realmente parecia que estava. Sempre a olhar em volta, com esperança de a ver naquela multidão de rostos sem interesse.
- Vá! Sentem-se! – gritou a professora.
A apresentação passou-se quase a uma velocidade relâmpago, talvez tenha tido esta velocidade porque estava tão abstraído nos meus pensamentos, levantando apenas a minha mão mecanicamente conforme ouço: “Hugo Vilela”, ao som da voz estridente da professora e sentindo um aroma floral ali perto. No entanto, quando a professora desejou um bom ano, o Vasco levanta-se de rompante pedindo a toda a gente que se deixasse sentada e fazendo tempo para que a professora atravessa-se a porta.
- Ok. – diz o Vasco clareando a voz – É apenas para vos convidar para o jantar de turma que se vai realizar antes das aulas.
Ouviu-se alguns murmúrios em forma de aprovação.
- Então – continuou o Vasco – se quiserem ir, venham aqui à frente e escrevam o vosso nome na folha para eu depois saber o número exacto de pessoas que vai.
Eu e o Pedro concordámos logo em assinar e até fomos uns dos primeiros. Seria óptimo ter um jantar com os colegas para celebrar o início das aulas. Até era bastante inteligente da parte do Vasco pois era uma forma de o pessoal novo se integrar na turma. Tinha então ficado marcado num restaurante perto da escola, ao alcance de todos, às oito horas da noite.
- Estou ansioso por ir! – diz o Pedro, mal atravessávamos outra vez os portões brancos, piscando o olho.
- E eu a pensar que estavas caidinho pela Joana. – digo em tom de troça.
- E estou! Mas nada me impede de ver as “vistas”. – respondeu prontamente o Pedro que tinha sempre uma resposta na ponta da língua. Mesmo assim, não consegui rir pois estava um pouco confuso em relação ao esquecimento da Carina.
- E tu também vais aproveitar ao máximo. – continuou o Pedro apontando para mim.
- Tu não deixavas que fosse o contrário.
- Claro que não. Quem sabe se não te dás, relativamente, bem com alguma rapariga no jantar?
- Duvido que isso aconteça. – digo, dando uma gargalhada sonora. – Sou feio à vista de todos.
- Deves estar a gozar.
- Não estou. Não sou assim tão popular como tu. – digo fazendo uma careta. – Mas porquê? Vais-te pôr de joelhos e dizer que sou uma brasa?
- Que piada. Mas então és mesmo muito ceguinho.
- Ceguinho porquê?
- Lembraste do grupo de amigas da minha irmã? Quando tu passaste por mim e pela Joana ela disse que as colegas dela estavam todas caídinhas por ti. Estavam sempre a dizer: “Ai credo, que ele é lindo de morrer! Que brasa! Que giro!...” – revelou o Pedro imitando muito mal uma voz de rapariga.
- Estás a falar a sério? – pergunto rindo-me com vontade
- Claro. – diz o Pedro já num tom sério – Não sei porque é que te custa admitir.
- Porque ninguém me acha interessante e porque até agora ninguém me abordou.
- Isso é porque elas têm muita vergonha de falar contigo. – responde o Pedro numa forma como se fosse óbvio. – Pelo menos foi o que a Joana disse.
- Mesmo que seja verdade, dispenso miúdas de 9º ano.
- Estás insinuar alguma coisa? – pergunta o Pedro já meio enervado.
- Tu percebeste. Não deve haver por aí muitas “Joanas” no 9º ano.
- Ah! – concluiu – Então volto a repetir o que te disse e agora acrescentando o facto de que tens um batalhão de raparigas na tua alçada: és bem capaz de encontrar alguma rapariga interessante no jantar, basta estares pré-disposto.
- Como assim? Isso é muita filosofia para mim. – digo dando uma gargalhada.
- Ri-te à vontade. Mas se fores para o jantar pré-disposto a conhecer gente nova e a travar conhecimentos, talvez seja uma maneira de focares a tua atenção numa coisa diferente, sem ser na…
Não o deixei completar a frase, tinha compreendido o que ele quis dizer e, mais uma vez, tinha razão.
- Ok. Ok. Tens razão.
- Já estavas a demorar a chegar a essa conclusão.
- Muito sinceramente, vou pensar nisso que me disseste. – digo num tom sério
E nisto voltamos a separar-nos em direcção às nossas casas.
O jantar era para ser no dia a seguir à apresentação pois no dia a seguir começavam as aulas. Porém, nesse mesmo dia decidi ir visitar o Pedro a casa dele, isto é, a irmã dele pois ainda não podia sair de casa. Então depois de comer uma boa pratada do almoço, segui rumo à casa do Pedro. Era quase automático, podia ir de olhos fechados que não fazia diferença, foram tantas as vezes que fiz aquele caminho, que até as pernas o sabiam de cor, mesmo assim, estava perdido nos meus pensamentos, tinha pensado a sério no que o Pedro me tinha dito. Será que a dificuldade de a esquecer estava a ser criada por mim? Será que eu não a queria mesmo esquecer? Ou nem sequer estava a fazer um esforço? Parecia que de cada vez que pensava no assunto ou ficava mais confuso ou ficava com mais saudades da Carina.
Chego por fim à porta do prédio do Pedro e toco na campainha do 3º direito, onde foi ele a responder:
- Sim? Quem é?
- É o Hugo!
E nisto ouço o barulho metálico da porta a abrir-se. Subo no elevador e quando chego ao andar do Pedro já ele estava à porta.
- Então? Passa-se alguma coisa? – perguntou com o sobrolho levantado.
- Vinha visitar a tua irmã. Está melhor?
- Sim. – responde o Pedro deixando-me entrar – Mesmo assim a minha mãe proibiu-a de sair de casa para que quando começassem as aulas ela estivesse a 100%.
- Ou seja, tu vais-me dizer que estás farto de a aturar – digo sentando-me no sofá branco da sala.
Já estava tão habituado à casa do Pedro que notava sempre quando a mãe dele modificava qualquer coisa. A casa dele estava cheia de plantas pois a mãe do Pedro adora botânica porém as plantas desta vez estavam um pouco secas que o habitual.
- Já notaste, não já?
- Pois. Não é normal estarem assim. – E não era! Naquela casa era um crime haver uma planta seca.
- A minha mãe andou tão preocupada com a Sílvia que se esquecia de colocar a água. Ah! Queres ir ver a doentinha? – perguntou com uma piscadela.
Dirigimo-nos então para o quarto da irmã do Pedro, acho que se não conhecesse a casa mesmo assim dava com o quarto dela, pois tinha um “S” estampado na porta mas em tamanho gigante, cheio de recortes e brilhantes. O Pedro abre a porta, revelando o conteúdo do quarto: uma televisão em cima da secretária, uma estante com variadas coisas, um guarda-fatos enorme e uma cama com um edredão roxo.
- Olá, Sílvia! Então estás melhor?
De repente só vejo os olhos dela pois tinha puxado com alguma violência os lençóis para cima.
- Ui! Que vergonha. – troçou o Pedro.
- Não é vergonha. – disse uma voz meia nasalada a sair dos lençóis– É que tenho o nariz do tamanho de uma batata e da cor de um tomate.
- Pois tens! – riu-se o Pedro – Mas isso é que tem piada!
- Oh! – disse a Sílvia indignada – Então trouxeste o Hugo só para gozar comigo…
- Não, eu vim para saber se já estavas melhor. Não tenho nada haver com o teu irmão.
Então os olhos da Sílvia comprimiram-se mas como estava tapada com os lençóis imaginei que estivesse a sorrir.
- Oh! Lá estou. Sinceramente, estou farta de estar fechada no quarto mas ali o senhor Pedro também não ajuda nada estando sempre a gozar comigo por causa do meu aspecto.
- Se ele te der problemas avisa-me. – digo em tom de brincadeira.
Depois disso a Sílvia não falou muito, era mais o Pedro a gozar com ela mas imaginei que estivesse cansada e que se calhar lhe custava a respirar. Despeço-me do Pedro e dirijo-me para casa, era quase noite. Tinha ficado com eles bastante tempo.
Quando cheguei a casa tentei não demonstrar muito interesse no correio, apesar de antes de colocar a chave na fechadura tenha ficado a olhar fixamente, perdido nos meus pensamentos, para a caixa de correio.
Jantei quase sem interesse, apenas avisando os meus pais que iria a um jantar de turma no dia a seguir. Acho que mais pelo meu humor destes últimos dias é que eles até me incentivaram a ir.
Já deitado, de barriga para cima, inundei-me mais uma vez nos meus pensamentos e nas minhas dúvidas, chegando apenas à conclusão que pensava demais.
No dia seguinte, estava com bastante perspectivas para o jantar de turma, porém o dia teimava em não acabar pois tinha ido com a minha mãe comprar os manuais escolares e os devidos suplementos. Até no meio da rua encontrava colegas meus que também tinham deixado as compras escolares para os últimos dias. Felizmente, não havia livros esgotados por isso ainda cheguei a casa a tempo dum duche rápido. Estava ansioso.
Antes de sair olhei mais uma vez para o meu reflexo, estava bastante arranjado e passo a mão no meu maxilar, tinha feito a barba. O cabelo sempre no mesmo desalinho mas eu até gostava dele assim. Tinha combinado com o Pedro às oito horas na bifurcação para irmos juntos para o restaurante, porém já passavam dez minutos das oito quando saí de casa.
- És sempre o mesmo atrasado. – reclamou o Pedro batendo com o dedo indicador no relógio – O pessoal já lá deve estar todo mas… - diz dilatando as narinas e fazendo o barulho de respiração forçada – Que cheiro é este? Água-de-colónia?!
- Sim. – Aí vinha gozo.
- Está bem. – concluiu encolhendo os ombros – Afinal sempre me dás ouvidos.
Dirigimo-nos, por fim, para o restaurante e o afinal o Pedro tinha razão, já lá estava uma multidão considerável. Cumprimentamos avidamente os nossos colegas mas não demorando muito pois começaram logo a entrar para o restaurante. Havia uma longa mesa que depois reparei que havia outra encaixada formando um “L”, sentei-me com o Pedro à minha direita, na parte final do “L”. Tendo depois várias raparigas se sentado à nossa frente.
- Boa noite. – disse a rapariga ruiva.
Ainda cheguei a pensar que ela estivesse a falar com outra pessoa mas reparo que ela estava mesmo a olhar para mim pois estava a sentar-se mesmo à minha frente.
- Boa noite. – respondo avidamente mas fui interrompido pelo Vasco a clarear a voz.
- Boa noite a todos! – disse num tom bem-disposto – Como somos muitos e até há aqui caras novas seria fixe o pessoal levantar-se e apresentar-se. – concluiu ao som de murmúrios afirmativos – Então começo eu: Olá! Eu sou o Vasco!
E a partir do Vasco um a um, foi-se levantando e dizendo o seu nome, ás vezes seguido de palmas de colegas conhecidos, chegando à vez do Pedro que tropeçou na cadeira a levantar-se, criando a risota geral. Chegando por fim à minha vez, levanto-me com cuidado, não fosse acontecer a mesma coisa que o Pedro e digo alto e em bom som:
- Olá e chamo-me Hugo!
Conforme me ia sentando ia reparando na tal rapariga à minha frente que estava a sorrir e chegando a sua vez de se apresentar, levantou-se com toda a delicadeza e disse numa voz melodiosa:
- Olá! Chamo-me Ana. – e sentou-se da mesma forma graciosa, ajeitando a cabeleira ruiva, não podendo deixar de reparar nos seus olhos, eram de um castanho muito claro misturado nuns tons de verde. Eram cativantes. Como ela reparou que estava a olhar fixamente para ela, sorri-lhe tal como ela fez quando eu me apresentei.
O resto das apresentações foram rápidas e sendo assim um senhor com uma certa idade mas alegre perguntou se podia começar a servir o jantar, tendo esta pergunta sendo escusada pois toda a gente estava cheia de fome. Porém, seria de esperar que quando chegasse a comida a conversa cessasse mas não, as conversas animadas continuaram e até aumentaram.
- És daqui? – perguntou a voz melodiosa.
- Sim, e tu?
- Eu sou de Braga mas os meus pais mudaram-se para cá quando era pequena.
A cada pergunta e a cada resposta sentia umas pequenas borboletas no estômago, o que era um pouco impossível pois tinha acabado de comer. Estava muito nervoso. E se respondia alguma coisa estúpida? Ou se não parecesse interessante?
Continuamos a falar animadamente todo o jantar e até chegamos a falar em grupo pois a amiga dela que estava com ela à direita, a Catarina, apresentou-se também ao Pedro, tendo este também ficado surpreendido. Foi bastante divertido.
Chegado o fim do jantar, o pessoal começava a falar em ir à discoteca.
- Vais? – perguntou a Ana.
- Hum… Não sei. – respondo receoso apercebendo-me que o Pedro estava numa conversa muito chegada com a Catarina.
- Oh! Anda lá! Vai ser divertido!
Porquê negar? Estava o jantar a correr tão bem, porquê não prolongar mais um bocado?
- Oh! Ok. Vou só ali perguntar ao meu amigo Pedro se também quer vir. – digo pois tinha reparado que a Catarina se tinha evaporado.
- Ok. Se quiserem podemos ir todos juntos.
- Pode ser.
- Até já! – respondeu sorrindo
Dirijo-me perto do Pedro que ainda estava a pagar a parte dele do jantar.
- Então? Vens à discoteca? Vamos com o grupo da Ana.
- Não… Passo.
- Porquê?! – Seria quase impossível o Pedro estar a dispensar uma coisa destas.
- Porque já me desentendi com a Catarina.
- Começas bem. Mas e eu a pensar que te estavas a dar bem com ela. Que se passou?
- Ela perguntou se eu queria “curtir” com ela e eu respondi que não. – respondeu com veemência – Só pensava na Joana.
- E não vais por causa disso?
- Além de não querer estragar a tua noite, – disse apontando com a cabeça para a Ana que se encontrava no lado de fora do vidro – não me apetece dar de caras com a Catarina. Além do mais, quero combinar um encontro tardio com a Joana. – e inclinando a cabeça para a minha direcção disse num tom baixo – Vou pedir-lhe em namoro.
- A sério? – mudando completamente de expressão – Isso é óptimo! Depois conta como correram as coisas.
- Claro e idem aspas.
E despedimo-nos fazendo com que eu ficasse sozinho, como não queria forçar a minha presença ao grupo onde estava a Ana, dirigi-me para um grupo de colegas do ano passado que discutiam qual era a discoteca da noite.
- Eu acho que devíamos ir à nova que abriu! – afirmou o Vasco – E tu Hugo, que achas? – perguntou vendo que me tinha aproximado.
- Dando a minha modéstia opinião – digo em tom de brincadeira – acho que devíamos ir à discoteca na avenida porque essa até tem sofás onde o pessoal se quisesse podia continuar a falar ou então para o pessoal que não sabe dançar como o Vasco se sentar para não criar congestionamentos na pista de dança.
Toda a gente começou a dar sonoras gargalhadas, até o Vasco, porém conseguia ouvir uma gargalhada diferente mesmo ao meu lado. E enquanto o Vasco anunciava a toda a gente que iríamos para a discoteca da avenida, a Ana aproximava-se cada vez mais.
- Então sempre vais! – disse animada.
- Acho que sim. - respondo sorrindo.
- Pensei que já que o teu colega não ia, tu também não viesses.
- Pois. Acho que mesmo assim vou.
Fomos então os dois pela rua abaixo sempre a falar e a rir. Ela era muito inteligente, simpática e estava-se sempre a rir. Sentia-me bem com ela, tirando os nervos.
- Ah! É verdade… E a tua colega a Catarina? Não vais com ela? – pergunto olhando em volta à sua procura no meio das tantas caras.
- Não. Ela ficou meia amuada quando o teu colega negou “curtir” com ela. Ele não a achou bonita, é isso? – perguntou naquela voz melodiosa mas num tom de desafio.
- Não tem nada haver com isso, a sério. – respondo calmamente – Digamos apenas que o coração dele já está ocupado.
De repente, dá-se um momento de silêncio sobre nós onde apenas se ouvia o resto do pessoal que ia à discoteca a falar alegremente conforme ia andando. Então ela muito corada e olhando para o chão perguntou:
- E o teu já está?
Parecia quase uma pergunta que poderia fazer a mim mesmo.
- De momento não. – A Carina estava longe do meu pensamento.
Parecendo ficar cada vez mais corada, quase como a cor do cabelo, decidi perguntar-lhe a mesma coisa, à qual obtive a resposta: “Também não.” Numa voz bastante ansiosa.
Chegamos por fim à entrada da discoteca e como era relativamente cedo para entrar em discotecas não foi preciso esperar muito para sermos atendidos. Deram-nos um cartão magnético onde registava tudo o que consumíamos e dirigimo-nos para a zona onde se deixava os casacos e malas.
- Se quiseres podes deixar o teu casaco no meu cabide. – disse numa voz querida.
- Obrigada. – agradeço sorrindo.
Dirigimo-nos então para a discoteca propriamente dita, onde era uma espécie de grande sala revestida com uma carpete azul escura onde ali e além se viam agrupamentos de sofás vermelho-púrpura. Era uma sala pouco iluminada mas mesmo assim conseguia ver o brilho dos olhos da Ana.
- Olha! – gritou, chegando-se o mais perto possível, pois estávamos perto duma coluna de som, indicando o pessoal do jantar sentado num agrupamento de sofás no fim da sala.
Eu percebendo, vou atrás dela para nos juntarmos ao resto dos nossos amigos mas parecia que não estava atento ao caminho (tendo por vezes me aleijado nas mesas pequenas ali distribuídas) mas sim à figura da Ana. Vestia um top que lhe realçava a cintura, onde se distinguia o cabelo ruivo a esvoaçar e também vestia uns jeans claros onde na parte de cima desses suportava um cinto com detalhes metalizados.
Foi termos chegado ao destino que fez com que eu acordasse e sentisse com mais violência um batalhão de borboletas na barriga, pois vejo que já não sobravam muitos sofás, dirigimo-nos a um grande e livre pouco distanciado do grupo.
Sentámo-nos a distância normal e começámos a falar sobre o facto de nunca nos termos cruzado na escola.
- Eu só me mudei para a nossa escola no ano passado. – revelou ela olhando-me com aqueles olhos penetrantes.
- E antes andavas onde?
- Na escola privada ao pé da estação de comboios.
Continuamos a falar abertamente onde ela revelava que tinha saído duma escola privada para uma pública porque os pais se tinham divorciado. Não sabia o que dizer… Apenas sabia que ter os pais separados era uma grande mágoa para qualquer um, especialmente para um adolescente.
- Lamento, não sabia.
- Não faz mal. – disse sorrindo – Eu já me habituei à ideia.
Então do nada senta-se um casal ao nosso lado, que por acaso era do nosso grupo e que por acaso a rapariga era a tal Catarina, começando aos beijos quase colados. Senti-me um bocado constrangido e desejando que parassem com aquilo, será que ela esperava uma atitude idêntica?
- Hum… – Pensa em qualquer coisa! – Queres ir beber qualquer coisa?
- Pode ser. Estou cheia de sede! – respondeu animadamente. Talvez também tenha achado a situação constrangedora.
- Que queres beber? – pergunto mal chegamos ao bar, onde se podia ver uma variedade enorme de garrafas, de conteúdos coloridos, expostas na parede.
Escolhemos as bebidas fazendo piadas às cores dos conteúdos das garrafas e voltamos para o mesmo sofá, com esperança que o casal se tivesse mudado. E, felizmente, isso aconteceu pois quando conseguimos ver o sofá, este estava livre.
Antes de nos sentarmos, um rapaz passou a toda a velocidade repentinamente, pelo nosso meio, atrás duma rapariga com um ar ameaçador, indo de encontro à Ana fazendo com que ela fosse cair. Graças aos meus reflexos segurei-a pela cintura, evitando que ela fosse mesmo cair. Foi, novamente, um momento constrangedor pois ela virou-se, fazendo com que quase os nossos narizes se tocassem. Podia agora observar, mesmo ela sendo mais baixa que eu, todo o esplendor dos seus olhos castanhos-claros com umas ondas esverdeadas.
Num impulso, beijo-a nos seus lábios doces e num gesto involuntário o meu braço que continuava à volta da sua cintura esmoreceu, dando espaço para que se ela quisesse afastar-se, poder fazê-lo. Mas não o fez, manteve-se junto a mim e abrindo os olhos do beijo, entrelaça os braços à volta do meu pescoço, voltando a beijar-me.
Nem tive tempo de pousar o copo, apenas ficámos ali um bons minutos em pé, juntos, sentindo o calor um do outro. Parecia que, para nós, o Mundo tinha parado. Contudo, fomos interrompidos por um outro casal que queria atravessar. Ela retira os braços, voltando-se para o sofá, agarrando na minha mão, passando por cima dos cacos do seu copo. Segui-a, com o coração a bater-me furiosamente na maça de Adão. O que significava isto? O que aconteceria a seguir? De que iríamos falar? O que é que ela iria dizer?
Sentámo-nos e aproveito deixando o copo, que parecia ter as marcas dos meus dedos, na mesa ali perto. Sentamo-nos juntos, frente-a-frente, e ela entrelaça os seus dedos nos meus. Tinha as mãos mais pequenas que as minhas, duma pele macia e, não sabendo porquê, senti um arrepio na espinha quando ela me tocou no braço com a sua outra mão, contraindo desnecessariamente o braço.
- Obrigada por me teres agarrado – disse na sua voz querida, sorrindo – Infelizmente o copo não teve tanta sorte.
- Se quiseres vamos buscar outra bebida. – Que estúpido! Não é o momento indicado para falar em bebidas!
- Deixa estar. – agradeceu acariciando a minha cara – Tens uns olhos lindos, sabias?
- Os teus são bens mais…
Rindo-se, aproxima-se e beija-me, enrolando lentamente a sua língua na minha. Senti um outro arrepio porém mais violento, quando ela começou a dar pequenos beijos no meu pescoço, conforme eu ia acariciando a sua cinta por baixo do top. Mal conseguia respirar.
- Reparei logo em ti, mal entraste na sala quando se deu a apresentação na escola.
- A sério? – pergunto baixinho dando um beijo debaixo do seu ouvido.
- Sim, foste a razão pela qual vim ao jantar.
Acho que nesse momento corei bastante e por falta de palavras da minha parte, ela prosseguiu, deixando-me especado a mirar os seus olhos.
- Gostei de ti, mal te vi, Hugo.
- Tu também me deixaste bastante intrigado ao jantar. – digo sorrindo – Não conseguia deixar de reparar em ti e de nem sentir nervoso à tua beira.
- Eu deixo-te nervoso, é? – perguntou provocando-me mordiscando os meus lábios.
Aproveitei cada beijo, cada carícia sua como se fosse a última.
Continuámos, durante o resto da noite, assim frente-a-frente, até que chegou a hora de fecho da discoteca, foi quando reparamos que a última música da noite ia tocar e por isso toda a gente estava na pista de dança. Mesmo assim, concordámos em dirigirmo-nos nesse instante para pagar, para ir buscar os casacos e a mala, pois assim não tínhamos que ficar muito tempo em fila de espera.
- Eu levo-te a casa. – afirmo, enquanto nos dirigíamos para a saída.
- Deixa estar não é preciso. – responde a Ana com um sorriso tímido.
- Nem pensar! – digo envolvendo-a com o meu braço – Eu quero levar-te a casa.
- És mesmo teimoso. – respondeu rindo.
Queria naquele momento esclarecer tudo, queria tentar perceber o que era “isto”, se era apenas um acontecimento de uma noite ou então algo mais sério. Não era capaz de lhe perguntar ou sequer referir esse assunto, sentia-me tão bem naquele momento.
- É aqui. – disse apontando para uma casa com uns portões pretos.
- Hum… – O que haveria de dizer?! Apetecia-me estar com ela mais um bocado, que a noite não acabasse tão cedo.
- Boa noite, Hugo. – disse sussurrando e beijando-me fogosamente, causando um outro daqueles arrepios.
Vejo-a, quase a flutuar, a dirigir-se em direcção à porta de entrada, com um vitral em cima, a meio vira-se para trás e diz-me adeus. Respondo-lhe, reparando que ela tinha deixado cair o seu elástico de atar o cabelo perto de mim.
Vou para casa, para a minha cama, perdido nos óptimos momentos que tive nesta noite. Será que vou acordar e isto não passou de um sonho?
- Bom dia, filho! – cumprimentou a minha mãe afastando as cortinas, deixando entrar a luz, fazendo com que eu puxa-se os lençóis para cima da minha cabeça – Chegaste tão tarde ontem! Anda comer qualquer coisa.
Meio preguiçoso destapo-me mas mesmo assim de olhos fechados. Será que foi mesmo um sonho? Sonhei que uma rapariga linda se interessou por mim e estivemos juntos na noite passada. De certeza que vou abrir os olhos e o mundo continua igual, mas se foi um sonho… Foi um sonho bom. Por fim, abro os olhos e percebo que não foi um sonho pois mesmo à minha frente, disposto na minha mesinha de cabeceira, estava o elástico azul-escuro dela. Peguei-lhe e levei-o ao nariz, ainda podia sentir aquele aroma florar do seu cabelo.
Sinto-me revigorado e levanto-me para almoçar. Como, satisfeito comigo próprio, porém essa felicidade torna-se em preocupação, quando me sento na minha cama, já envolto na minha toalha de banho e com o cabelo a pingar.
E agora?
Fico assim estático por alguns minutos, até que o telefone toca.
Trim!
- Estou?
- Hugo? – responde uma voz masculina no outro lado.
- Olá, Pedro!
- Olá! Telefonei para saber se queres sair hoje de tarde.
- Pode ser.
Lá combinámos ir comer um gelado, pelo menos o último desse ano, pois aposto que tínhamos muito que contar um ao outro. Visto-me e volto a olhar de soslaio para o elástico da Ana, acabando por sorrir meio parvo e colocando-o à volta do meu pulso.
- Olá, Pedro! – cumprimento chegando à gelataria da avenida.
- Olá! Tudo bem? – perguntou o Pedro chamando a empregada – Queria um gelado de chocolate, por favor.
- E eu um de baunilha. – digo automaticamente.
- A Joana aceitou! – diz o Pedro entusiasmado.
Esboço-lhe um sorriso enquanto ele conta que tinha feito a maior das loucuras, isto é, depois de ter saído do jantar foi ter à casa da Joana, adivinhou a janela dela e começou a atirar pedrinhas contra o vidro. Ainda bem que a janela dava, realmente, para o quarto dela e que ela morava num 1º andar.
- Que lamechas que o senhor Pedro é. – digo em tom de brincadeira.
- Pelo menos gostou… – diz o Pedro fazendo uma careta – Depois ela desceu e eu pedi-lhe em namoro, quase como um impulso.
- Aposto que sim. – digo um pouco sonhador lembrando-me do meu primeiro beijo com a Ana.
- E por incrível que pareça, ela aceitou. Disse que também já sentia alguma coisa por mim mas que também não queria abusar porque eu era o irmão da melhor amiga dela.
- E a Sílvia já sabe?
- Sabe. Preferi ser eu a contar, até nem se demonstrou surpreendida e ainda me disse “Trata-a bem!” – diz o Pedro imitando a voz da irmã.
- É normal. Não quer ver nenhum dos dois magoados, até é bastante adulto da parte dela.
- Influências da Joana. – respondeu inchando o peito.
- A minha noite também teve umas quantas surpresas.
E contei-lhe tudo sobre a noite com a Ana e como eu me sentia com ela, mas também falei sobre as minhas incertezas sobre o que tinha acontecido.
- Falas amanhã com ela.
- Achas? – pergunto inseguro.
- Sim. Assim também tens mais tempo para analisar os teus sentimentos, por assim dizer.
- Mas eu não sou de “curtes”. – digo enojado. De facto, nunca tinha percebido o porquê das pessoas pensarem sequer nisso pois sai sempre alguém magoado da situação. E eu não queria isso.
- Eu sei, pá! Mas se ela te disser que foi apenas uma coisa de uma noite ou uma “curte”, não a vais obrigar a mais.
- Claro que não! Nem eu sei o que aquilo significou.
- Vê-la também te vai ajudar a decidir.
- Como assim?
- Porque ao vê-la podes sentir qualquer coisa. Ou não.
Era uma boa hipótese.
- E tu não vais ter com a Joana? – pergunto mudando de assunto enquanto acabávamos o gelado.
- Vou ter com ela… – diz o Pedro olhando para o relógio de pulso – Daqui a dez minutos, ali à frente.
Já não via o Pedro assim cheio de entusiasmo já há um tempo. Ficava feliz por ele.
Despedimo-nos e enquanto me dirigia para casa pensava, repetidamente, no que iria sentir quando visse a Ana, no que iria fazer e no que iria dizer. Estava completamente nervoso e ansioso pelo dia de amanhã.
E o dia seguinte não tardou muito a chegar, não tardou muito até eu estar a preparar a mochila, não tardou muito até eu estar a chegar à escola e pisar aquela gravilha novamente. Parecia que tinha um colete invisível que me impedia de respirar.
- Olá, Hugo! – disse uma voz melodiosa atrás de mim.
Tinha receio de me virar, tinha o coração a bater furiosamente e a maça de Adão a tentar sair da minha garganta a toda a força.
- Olá, Ana! Tudo bem?
- Acho que sim… – respondeu num sorriso.
Toda a gente olhava para nós, ali em pé, um ao lado do outro, supostamente as notícias corriam depressa.
- Eu quero falar contigo. – Mas ainda não sabes o que dizer Hugo Vilela!
- Será melhor ir-mos para um sítio mais calmo.
E dirigimo-nos para um sítio onde fosse difícil ouvirem-nos: para perto das grandes sebes da escola.
- Eu – digo meio gago – queria saber o que significou para ti a noite na discoteca.
- Significou muito, não apenas uma curte se é isso que queres saber. – diz olhando-me com aqueles olhos penetrantes.
- Era isso que eu queria saber. – digo olhando relutantemente para as minhas sapatilhas.
Deu-se um súbito momento de silêncio, onde só se ouvia, apenas as muitas vozes animadas, ali perto, completamente alheias à nossa conversa. E ainda bem. Então, de repente, depois de ganhar uma certa coragem, olho directamente para os seus olhos e num outro impulso, como o da noite da discoteca…
- Ana. – digo engolindo em seco – Queres namorar comigo?
E nisto ela sorri, entrelaçando os seus braços, à volta do meu pescoço.
- Claro que sim. – respondeu beijando-me.
O primeiro dia de aulas foi espectacular, estive sempre com a Ana, ora a namorar, ora a conversar. O que causava certos murmúrios à nossa volta mas eu não queria saber, sentia-me bem naquele momento, demasiadamente para me preocupar.
Para falar verdade, o primeiro mês de aulas correu da mesma maneira que o primeiro dia, relativamente bem e melhor ainda sentia-me feliz, apesar desse mesmo mês ter passado a correr.
- Parabéns. – digo num sussurro ao ouvido da Ana oferecendo-lhe um malmequer, a sua flor favorita.
- Mas eu não faço anos, Hugo. – respondeu surpreendida.
- Faz hoje um mês que começámos a namorar.
A Ana olha para mim e em segundos tinha-a, agarrada a mim, felicíssima.
- Tu lembraste-te! – gritou, dando-me um beijo – Hugo, é verdade, queria pedir-te um favor. – disse já num tom sério
- Claro. O que é?
- Queria que me explicasses Matemática, eu não percebo nada desta nova matéria e daqui a pouco está aí o teste! – respondeu a Ana, olhando para mim docemente. Quem lhe podia recusar fosse o que fosse?
- Claro. – digo sorrindo – Queres combinar no Jardim? Hoje à tarde?
- Não pode ser noutro sítio? É que no Jardim está muito barulho. Que tal se fosse em tua casa?
- Acho que sim. – Acho que os meus pais iam trabalhar os dois nesta tarde, por isso não haveria barulho.
- Então eu depois de almoço apareço lá, pode ser?
- Ok. – respondo, dando-lhe um beijo na testa.
Enquanto me dirigia para casa, comecei a pensar, à quanto tempo não conversava com o Pedro, também ele andava lindamente com a Joana, parecia estar sempre com um sorriso estúpido na cara, porém, tinha saudades de falar com o meu melhor amigo.
Quando cheguei a casa deparei-me com o meu quarto todo desarrumado: roupa espalhada, cama por fazer, livros amontoados e cadernos abertos com folhas espalhadas. Relutante, comecei a organizar tudo aquilo de maneira a que se fosse preciso vir buscar algum livro ou caderno, não fosse preciso descrever um labirinto pelo meu quarto.
Almocei à pressa, quase empurrando os meus pais porta fora. Lembrando-me da sala de jantar, o sítio onde iríamos estudar, mas como não era muito utilizada, encontrei-a já arrumada e limpa.
E enquanto abria as persianas para deixar entrar o sol febril do Outono, alguém toca à campainha.
- Sim?
- É a Ana!
Abro-lhe a porta, espero que ela subisse as escadas e dou-lhe um grande beijo.
- Vamos aqui para a sala, que estamos mais à vontade… – digo encaminhando-a para lá.
- Oh! Mas podíamos ir para o ter quarto… – disse corando – Assim ficávamos mais confortáveis.
- Pode ser. – respondo automaticamente.
Dirigimo-nos então para o meu quarto (ainda bem que o tinha arrumado) e disponho os livros em cima da cama. A Ana tira o casaco, colocando-o na cadeira da minha mesa de estudo, ficando apenas com uma blusa preta e senta-se, entrelaçando as pernas em cima da cama mesmo ao meu lado. Não sei porquê mas senti-me intimidado naquele momento, porém, como se nada fosse, comecei a esfolhar o livro de matemática.
- Ora tu não percebes esta parte, não é? – pergunto com o dedo indicador na página das derivadas, recebendo apenas um aceno afirmativo e um sorriso da sua parte.
Expliquei o melhor que pude, porém parecia que ela não estava a prestar muita atenção ao que eu estava a dizer.
- Percebeste? – pergunto sem fôlego de tanto explicar.
Contudo, não recebi nenhuma resposta nem aceno da parte da Ana. Apenas sorriu, começando a inclinar-se na minha direcção e com os braços encosta-me à cama. Não percebi muito bem como chegámos àquele ponto, só dei por nós a beijar-nos fogosamente, ela em cima de mim.
Não sabia o que fazer.
Então, quase automaticamente, começamos a tirar a roupa um ao outro. Eu dispo-lhe a blusa preta, fazendo com que ela ficasse apenas com o soutien, ela, tremendo, tira-me a t-shirt vermelha que tinha vestida, atirando-a para o chão. Continuámos assim, por mais um bocado, a sentir o corpo um do outro e a beijarmo-nos como nunca, até que a Ana tenta desapertar-me as calças.
- Pára. – digo firmemente, olhando-a nos olhos – Queres mesmo fazer isto?
Ela puxa a franja ruiva para trás, recuperando o fôlego e desviando o olhar, parecia mesmo que tremia por cada canto do seu corpo.
- Ana. – digo suavemente, puxando o seu queixo para cima, obrigando-a a olhar-me nos olhos…parecia que ia começar a chorar – Não há pressa.
E nisto ela sorri e abraça-me, fazendo com que tocasse na parte de trás do soutien e num pouco da sua pele, estava fria.
Não falámos muito do que aconteceu nessa tarde, pois acho que isso ia deixar a Ana, também, um pouco embaraçada. Não havia pressa e se não tínhamos a certeza se queríamos fazer, mais valia não fazer mesmo.
O restante mês de Outubro passou a correr e a grande velocidade passou Novembro cheio de testes, até que chega Dezembro e as férias de Natal. E no último dia de aulas, antes das férias, apareço de surpresa à Ana.
- Feliz Natal!
- Feliz Natal! – responde a Ana, dando-me um beijo longo.
Tínhamos que nos despedir nesse dia pois a Ana ia passar o Natal e as respectivas férias em Braga com o pai, porém, não sabendo porquê, não me sentia triste ao contrário dela.
Enquanto me dirigia para casa comecei a pensar novamente nas saudades que tinha de falar, como deve ser, com o meu melhor amigo e pensando nisto, mudo de direcção até sua casa.
- Sim? Quem é? – respondeu o Pedro quando toquei à campainha.
- É o Hugo!
Entrei em casa dele e reparei que as plantas estavam, novamente, lindas e esplendorosas. Como nessa tarde nem a irmã e nem a mãe estavam em casa falámos, à vontade, dos últimos tempos. Contei-lhe também a tarde embaraçosa que tive com a Ana.
- E conseguiste parar? – perguntou o Pedro incrédulo.
- Pá, ela não se sentia bem e se não estávamos preparados mais valia nem tentar.
- Eu desconfio que, – diz o Pedro num tom sério – precisamente, quando estavam nessa situação que tu desejavas que a Ana fosse a Carina.
Olho fixamente e sem resposta para o Pedro. Seria verdade? Será que o que me levou a parar na altura foi ter-me apercebido que ela não era a Carina?
- Acertei, não acertei? – perguntou o Pedro cortando o silêncio.
- Eu… Não sei. – digo por fim.
Não passei muito bem o resto das férias de Natal pois estava sempre a pensar no que o Pedro tinha dito, a tentar analisar todos os meus sentimentos, até que me apercebo no quão confuso estava e isso não era bom. Era evidente que a Carina ainda mexia comigo.
As férias acabaram e as aulas estavam a recomeçar. Sentia-me nervoso só de pensar que daqui a instantes iria estar com a Ana e perguntava-me se me iria sentir bem ao seu lado.
- Olá paixão! – disse a Ana pegando na minha face para me dar beijos cheios de saudade.
Como era possível eu ainda sentir alguma coisa pela Carina depois deste tempo todo? E como era possível eu também sentir, ao mesmo tempo, alguma coisa pela Ana? Começava a ficar, cada vez mais, confuso e começava a afastar-me, cada vez mais, da Ana.
Janeiro passou a uma velocidade estonteante e sem nada de novo. Porém, depois de um dia cansativo de aulas, abro a porta de minha casa e vejo o correio em cima da mesa. Não foi o monte de cartas que atraiu a minha atenção mas apenas um envelope rosa, o tipo de envelope que a Carina costumava usar, por baixo de várias cartas. Fico especado a olhar para a carta, até que por fim pego nela, era sem dúvida uma carta da Carina, conseguia reconhecer facilmente a sua letra miudinha no envelope. Sentia o meu coração a acelerar e as palmas das minhas mãos a ficarem suadas. Abro com mil cuidados, desdobro o papel e começo a ler a sua letra miudinha.

Querido Hugo,
Como estás? Espero que estejas bem.
Desculpa não ter respondido mas estive muito doente, estive até internada no hospital. Não te preocupes que agora já estou bem! Já estou em casa e feliz por te estar a responder ao fim deste tempo todo, já devias ter começado a pensar que me tinha esquecido de ti.
Não posso negar, nem a mim mesma, que nestes meses que eu estive internada no hospital pensei muito em ti e cheguei à conclusão que sentia muito a tua falta. Foram muitas as vezes em que dei comigo a desejar que estivesses ao meu lado, ou sonhava acordada com o beijo que me deste naquela tarde de Verão. Acho que foi mesmo preciso eu ficar internada para perceber que gosto de ti… Mais que um amigo.

Sentei-me, de boca aberta, na minha cama. Sentia uma alegria imensa no meu peito por ter lido aquelas últimas quatro palavras. Nunca desejei tanto a sua presença.
Depois de me recompor, continuei a ler porém mais sofregamente.

Mas depois deste tempo todo começo a pensar que será demasiado tarde para te dizer isto, porém, sinto-me bem em dizer-to, mesmo que não sintas ou que nunca tenhas sentido alguma coisa. Desculpa-me se for o caso, eu não quero perder de maneira nenhuma a nossa amizade. E é por isso que gostava de saber novidades tuas e também do nosso maluco Pedro.
Já agora dou-te o meu número de telefone, na última parte da carta. Sabes, enquanto eu estive no hospital, o meu pai conseguiu colocar, por fim, um telefone aqui em casa. Liga-me se houver alguma novidade. Fora isso, gostava de puder continuar a corresponder-me contigo.
Fico à espera da tua resposta.
Um grande beijo cheio de saudade,

Carina Pereira.

Fiquei estático a olhar para o vazio para tentar assimilar aquilo que tinha lido. Tinha a garganta seca e sentia que o meu coração ia explodir a qualquer momento.
Ainda a amava.
Podia ter suprimido isso, podia ter-me esquecido, podia sentir uma paixão pela Ana mas amava a Carina com todas as minhas forças.
“O Pedro tinha razão.”, penso segurando a cabeça com uma mão e com a outra a carta. Apesar de me sentir bem com a Ana, nunca vou sentir por ela o que sinto pela Carina.
E agora?
No resto desse dia li várias vezes a carta e relia sempre as mesmas quatro palavras “Mais que um amigo”.
Nessa noite não comi, não dormi e dirijo-me sem motivação para a escola no dia seguinte, mas dizia para mim, em silêncio, algumas palavras de incentivo.
- Ana. – digo tocando no seu ombro pois ela estava de costas. Queria esclarecer tudo com ela. – Preciso…
- Toma! – disse entusiasticamente enquanto me estendia um postal com corações vermelhos – Abre!
Abro o cartão e por dentro estavam apenas duas palavras.

Amo-te Hugo!

E por baixo das palavras dela, estavam umas palavras escritas, do próprio cartão, a computador: Feliz dia de S.Valentim rodeadas de corações.
- Ana… – digo num tom sério, pousando o cartão.
- Hugo, se não sentires o mesmo, eu compreendo. – interrompeu a Ana.
- Ana, por favor. – digo pausadamente - Deixa-me falar.
- Claro… Diz. – respondeu apreensiva.
Eu não queria que tivesse chegado a este ponto… Não queria… E ainda por cima de tudo, tinha-me esquecido completamente que era dia dos namorados. Eu não podia acabar com a Ana num dia tão feliz para ela.
- Eu não gosto de ti assim. – digo por fim.
- Eu compreendo, já te disse tonto. – respondeu agarrando a minha face para me dar um beijo. Naquele momento, senti-me muito mal por estar de certa forma a enganar a Ana. Era verdade que gostava dela e a cada momento que passava na sua presença, estava cada vez mais convencido que o que sentia por ela não passava de uma mera paixão. Só agora é que me tinha apercebido disso.
Passei o dia inteiro a fugir aos carinhos incessantes da Ana e uma forma foi aproximar-nos do Pedro e da Joana. Falámos bem os quatro mas o Pedro pressentiu logo que algo se passava e na primeira oportunidade, puxou-me à parte.
- Que se passa? – perguntou preocupado.
Expliquei-lhe resumidamente e, num murmúrio, o porquê de estar a invadir o tempo dele com a Joana. Quando acabei de contar tudo, o Pedro fica de boca aberta e a olhar fixamente para mim.
- Não queria acabar com ela hoje. Percebes?
- Pá, eu percebo perfeitamente.
- Só agora me apercebi no quanto eu gosto da Carina e nas saudades que tenho dela. Antes tentava suprimir e esquecer isso, o que se tornou um pouco fácil quando me envolvi com a Ana: tinha um motivo para a esquecer e pensei que poderia mesmo amá-la. Mas agora que a Carina disse que gostava de mim, parece que isso se tornou impossível.
Ao dizer aquilo, apercebi-me no quanto era verdade e no quanto queria acabar com aquela situação toda mas no dia seguinte mal estive com a Ana, o que tornou difícil termos uma conversa decente e eu queria pelo menos explicar-lhe tudo, ela merecia. Porém, a cada dia que passava tornava-se cada vez mais difícil acabar o namoro com ela pois, talvez inconscientemente, evitava-a e, para além disso, costumava ficar horas a fio a olhar para uma folha em branco. O que iria responder à Carina?
- Acaba com a Ana de uma vez por todas! – disse o Pedro meio irritado, ajeitando-se no seu sofá.
Tinha ido mais uma vez directamente para a casa do Pedro, só me apercebendo quando já estava a pressionar a sua campainha.
- Mas ela está tão em baixo por causa das notas que… – digo num murmúrio
- Não! – diz o Pedro firmemente – Alguém tem que te abrir os olhos. Tu estás a criar desculpas e mais desculpas para não acabares o namoro com a Ana!
- Fala mais baixo! – digo zangado – Senão a tua irmã e a Joana vão ouvir a conversa toda e aliás eu quero mesmo acabar o namoro com ela.
- Não o estás a provar.
- Mas isso é porque…
- Mais desculpas? – interrompeu o Pedro impacientemente
Olho para ele e penso que só um verdadeiro amigo me falaria assim, só um verdadeiro amigo me tentaria abrir os olhos para o meu bem. Sentia-me, por um lado, feliz por ter o Pedro como meu melhor amigo e, por outro, infeliz por não estar a conseguir fazer o que queria: acabar o namoro de uma vez por todas.
- Hugo – disse o Pedro calmamente – quanto mais tempo gastares à procura de desculpas, pior é. E eu sei que tu tens consciência mas… – continuou o Pedro suspirando – Já pensaste se a tua razão de estares tão relutante em acabar com a Ana é por já não estares habituado a estar sozinho? A Ana basicamente é o teu porto seguro.
Levei algum tempo a assimilar as últimas palavras do Pedro criando um grande momento de silêncio dos dois ao qual o Pedro respeitou, ouvindo-se apenas os risos da Sílvia ali perto.
- Assusta-me conheceres-me melhor do que eu próprio. – Mais uma vez ele tinha razão, apesar das maluqueiras, o Pedro conhecia-me melhor do que ninguém e conseguia ser directo e sincero.
Despedi-me do Pedro, poucos momentos a seguir, com um abraço de agradecimento por todos os conselhos que ele me estava a dar e saí de casa dele decidido pois só havia uma coisa a fazer e eu sabia perfeitamente qual era.
Em, forma de relembrar a pessoa que mais amava, mudei de direcção para o Jardim, tinha sido aí que a Carina revelou que se iria mudar para o Algarve e começo a sentir ainda mais saudades dela. E foi no momento em que entrei no Jardim, olhei para as montanhas pensativo e só depois de algum tempo é que me apercebi que o sol já se tinha posto. Mal rodo a chave na fechadura de minha casa, a minha mãe aparece exaltada à porta.
- Hugo! A Sílvia tem estado raladíssima a telefonar para aqui. – disse a minha mãe estendendo o telefone sem dar mais pormenores.
- Sim? – pergunto apreensivo.
- Hugo! – respondeu a Sílvia ofegante – Por favor, vem buscar-me! O Pedro e a Joana foram atropelados e já estão no hospital. Por favor, Hugo! A minha mãe já estava no hospital a trabalhar!
Não me lembro muito do que fiz a seguir, só me lembro de estar no hospital seguindo a Sílvia que conhecia os cantos à casa e a maioria dos enfermeiros e de ter deixado os meus pais no parque de estacionamento.
- Disseram-me que o Pedro está em estado crítico. – disse a Sílvia começando a chorar.
Eu coloco o braço à volta dela e tento acalmá-la.
- E a Joana? – pergunto com cuidado.
- Ela vai ter alta daqui a pouco. – respondeu limpando as lágrimas e afastando-se um pouco de mim.
- Sílvia. - digo tentando fazê-la sentar-se – Afinal o que se passou? – pergunto já estando os dois sentados naqueles bancos laranjas, tão impessoais e desconfortáveis.
Não recebi nenhuma resposta da Sílvia, apenas um aceno negativo e novas lágrimas. Como é que a poderia confrontar se eu próprio ainda estava em estado de choque? Porém, o choro da Sílvia foi interrompido pela chegada da Joana, notando-se apenas nos seus olhos vermelhos de tanto chorar e num grande arranhão na cara. Quando a Sílvia e a Joana se viram, miraram-se e de seguida abraçaram-se com bastante força. Até que assaltei a Joana com perguntas.
- O que se passou?
- O Pedro foi atropelado. – respondeu contendo o choro – Eu não fui porque ele empurrou-me… Se calhar apercebeu-se… - respondeu recomeçando a chorar.
Comecei a estalar os dedos de nervosismo e, quer acreditasse ou não, comecei a rezar pelas melhoras do Pedro.
- Mas vocês foram atropelados porquê? – perguntou a Sílvia interrompendo o silêncio.
- O Pedro foi-me levar a casa como ele costuma fazer. – disse deixando cair uma lágrima – Estávamos até no passeio! O Polícia que veio falar comigo disse que o condutor estava bêbedo.
Foi nesse instante que senti algo a rugir dentro de mim e estalei os dedos com mais força.
Estivemos sentados naqueles bancos ao que parecia à séculos e sem notícias do Pedro. A Sílvia ia tentando, regularmente, contactar a mãe mas era quase impossível no momento. Até que por fim… Vê-mos a mãe do Pedro, uma senhora esbelta, de cabelo apanhado e vestida num fato azul-bebé, a dirigir-se para nós a chorar. O meu coração começava a dirigir-se para sul e quando a mãe do Pedro chega ao pé de nós, abraça-nos todos ao mesmo tempo, sem cessar o seu choro.
- Ele faleceu… – disse por fim na sua voz rouca – Ele não resistiu aos ferimentos.
Então nesse momento um monstro apoderou-se de mim, levanto-me zangado dirigindo-me para uma máquina (com doces e garrafas de água) dando um valente murro no metal e gritando um grito de dor, porém não era de dor física.
O Pedro não era da minha família mas nós já éramos amigos à tanto tempo que o considerava como tal e ainda à poucas horas lhe tinha confessado que ele conhecia-me melhor do que eu próprio. Como é que era possível? Porquê? Como? Porquê ele?... Tantas perguntas que saltavam no meu pensamento mas nenhuma teve resposta e foram interrompidos pelas palavras da mãe do Pedro.
- Infelizmente, quando morre alguém temos que pensar imediatamente no funeral e como vou telefonar à minha família que está em França que… – disse engolindo o choro – Por isso o funeral será em princípio daqui a dois dias. Hugo… – disse olhando directamente para os meus olhos – Conto contigo para avisares os colegas de escola e amigos do Pedro, por favor.
- Claro. – Realmente como era possível ter-mos de pensar em transmitir a notícia? Queria ajudar a mãe do Pedro no que pudesse pois teria que tratar de todos os preparativos, para não falar em avisar toda a família do Pedro, que era mesmo muita. – Não se preocupe.
Cheguei a casa com os meus pais que estavam muito preocupados comigo, porém não interromperam o meu silêncio. Mal cheguei a casa fechei-me no quarto à procura da agenda telefónica, apesar de que sei que me custaria de ter de transmitir tal notícia a tanta gente, acho que o fiz pois queria estar ocupado. Telefonei então a todos os amigos do Pedro e todos receberam a notícia da mesma forma, nem ao último telefonema acreditava no que estava a dizer, parecia que estava apenas a representar ou que estava a dizer uma mentira.
Até que os telefonemas cessaram, pousei o telefone ao lado da minha agenda de couro, contudo parecia que faltava alguém.
- A Carina! – digo desanimado por ter de lhe dar uma notícia daquelas.
Procurei a carta dela na última gaveta da minha secretária onde tinha lá o número de casa dela.
- Estou? – respondeu uma voz masculina no outro lado.
- Boa noite. É da casa da Carina? – pergunto no mesmo tom monocórdico que tinha usado nos outros telefonemas.
- É sim! Eu vou chamá-la.
- Obrigada.
- Sim? – respondeu logo a seguir desta vez uma voz feminina.
- Carina?
- Sim. Quem é?
- É o Hugo.
- Hugo! – gritou animada – Tudo bem?
- Eu estou a telefonar para te dar uma notícia. – digo ainda no tom monocórdico.
- Que se passa?
- O Pedro faleceu há poucas horas. – respondo fraquejando a voz.
- O quê?! – perguntou sem necessidade pois começou nesse instante a chorar, como é que poderia dizer-lhe para parar de chorar se nesse momento eu também queria compartilhar o choro.
Ela respondeu logo na hora que vinha ao funeral do Pedro e que iria chegar amanhã ao final da tarde.
- E onde ficas?
- Na minha antiga casa. – disse fungando – O meu pai nunca a chegou a vender.
E a seguir, foi esquisito despedirmo-nos pois não tinha sido um telefonema feliz mas sim um telefonema mórbido. Quando tinha acabado de desligar, senti uma explosão de sentimentos dentro de mim: tinha que acabar com a Ana, amava a Carina, queria estar com a Carina, o Pedro tinha morrido, tinha perdido o meu melhor amigo… Sentia que poderia explodir a qualquer momento.
Tinha-me perdido tanto nos meus pensamentos e nos meus problemas que nem notei que a minha mãe tinha vindo buscar o telefone.
Parecia relutante em pensar no beijo que tinha recebido naquela tarde de Verão ao mesmo tempo que pensava no Pedro e que ele já não se encontrava vivo… Coloco as mãos a segurar a minha cabeça, parecia que ia explodir, parecia que o meu coração ia saltar da minha garganta e parar aos pulos no chão do meu quarto.
- Hugo? – pergunta a minha mãe abrindo a porta do meu quarto, obrigando que acordasse – Filho, telefonei aos avós e eles também querem vir ao funeral do Pedro, prestar uma última homenagem. – disse sentando-se ao meu lado - Lembras-te de quando vocês eram pequenos e iam à aldeia dos avós?
- Sim. – digo dando uma risada – O Pedro uma vez partiu o braço porque saltou do muro de pedra.
- Pois foi… – respondeu a minha mãe colocando o braço à minha volta – Tens sempre que te lembrar, principalmente, agora das coisas boas. – disse calmamente, fazendo uma pausa, tentando pentear o meu cabelo com as mãos – Eu e o teu pai partimos amanhã ao final da tarde mas só conseguimos vir no dia a seguir, está bem filho? – fez outra pausa à espera do meu aceno afirmativo – Se precisares de alguma ajuda ou de qualquer coisa, telefona, está bem?
Como não lhe respondi, apenas passou a mão no meu cabelo desalinhado e dando-me um beijo na testa diz:
- De certeza que o Pedro não iria gostar que tu estivesses assim.
Sinceramente, até agradecia ficar sozinho e foi o que fiz quase todo o dia seguinte…ficar sozinho.
Não tinha dormido nada, comi insuficientemente durante o almoço e durante a tarde sentei-me na minha cama a mirar a parede, a lembrar-me de cenas engraçadas, tristes, sérias e assustadoras com o Pedro durante o tempo em que fomos amigos, ou seja, desde sempre. Até que me lembro das palavras da minha mãe, de certeza que o Pedro me teria batido se alguma vez na vida me teria visto assim. Com esse pensamento tomo um duche rápido, tendo antes telefonado à Ana, combinando com ela na escola.
Não me apercebia muito bem do que fazia, apenas tinha uma ideia na cabeça: seguir o último conselho do meu melhor amigo, da pessoa que mais estimava.
- Hugo! – chamou a Ana perto do portão. Quase parecia que a escola estava deserta.
- Ana. – impedindo um beijo seu – Quero falar contigo seriamente, por favor.
- Lamento o que aconteceu ao Pedro.
- Queria falar contigo sobre “nós”. – digo seriamente como se não me tivesse interrompido – Queria dizer-te que não é possível continuarmos juntos porque o que sinto por ti é apenas uma paixão.
- Mas eu já te tinha dito que compreendia.
- E eu amo outra pessoa, pensei que a tinha esquecido mas não… – digo como se não tivesse sido interrompido novamente, porém desta vez crio um momento de silêncio da sua parte.
- Eu não acredito. E os momentos que passámos juntos? Tu ainda gostas de mim, eu sei que sim! – disse a Ana indignada dando-me um beijo à força.
Afastei-a mal consegui afastar as suas mãos que segurava, com bastante força a minha cara. Não lhe correspondi o beijo, pensava determinantemente na Carina. Porém, ouço uma fungadela estranha nas minhas costas fazendo com que me virasse.
Era a Carina, em pé, parecendo em estado de choque, mal me virei e a vi ali especada, apercebi-me no quanto a queria desesperadamente beijar. Contudo, ela dá meia volta e começa a andar muito depressa em direcção à sua antiga casa.
Eu, deixando a Ana especada nos portões da escola (arrancando o seu elástico do meu pulso e entregando-lhe), corro na direcção da Carina, na direcção do esvoaçar do seu cabelo castanho-escuro.
- Espera Carina! – digo agarrando-lhe no seu pulso fino. A sua pele continuava macia como a pele de um anjo.
- Fui a tua casa mal cheguei e a tua mãe disse que tinhas vindo à escola. – disse quase cuspindo as palavras e numa voz amargurada que eu nunca tinha ouvido, olhando em direcção aos portões da escola disse num tom de choro eminente – Eu já vi que fizeste as tuas escolhas e avançaste na tua vida. – e acrescentou triste – Tu és livre. Desculpa por isto.
Não consegui mover-me, não consegui detê-la por causa do choque, só passado um tempo é que tive reacção. Eu amo-a e sempre a amei, porém ela não o sabia e pensava o contrário. Quase que podia sorrir: ela estava com ciúmes. Porém queria resolver as coisas com ela e mal entrei em casa, peguei no telefone.
Procurei imediatamente na lista o número da antiga casa da Carina e começa então a tocar…a tocar…a tocar… começava já a ficar desesperado até que a chamada vai para o atendedor. Só ao fim de algumas tentativas é que parei no meio do quarto a olhar para o vazio. E só depois de alguns minutos especado e meio atordoado é que volto a mim e tento uma última vez…. A chamada vai novamente para o atendedor.
- Carina, esta será a última mensagem que te vou deixar no atendedor. Eu percebo que agora estejas num turbilhão de sentimentos, eu também me sentia assim mas…agora…tenho a certeza do que sinto e o que sempre senti! – respiro fundo, ganhando coragem e digo calmamente como se o sempre soubesse – Amo-te Carina. – e desligo o telefone, pousando-o na cama.
Continuava especado no meio do quarto, já não olhava para o vazio mas sim para a primeira gaveta da minha mesinha de cabeceira. Sento-me perto dela e abro-a, revelando um variado conteúdo mas saltando logo à vista uma foto da Carina ali cuidadosamente guardada, não a tinha tirado do sítio pois nunca tinha deixado de ser importante para mim e apesar de estar a ver a Carina na foto lembrava-me, rindo para dentro, que tinha sido o Pedro que tinha “encontrado” a fotografia. Sentia saudades de ambos e saudades dos velhos tempos em que éramos os três melhores amigos.
Passava o dedo na foto numa tentativa de me imaginar a acariciar a face dela, lembrando-me que ela estava diferente, mais alta, esbelta e cada vez mais elegante, sempre com o seu cabelo solto permitindo que o vento o acariciasse. Contudo, a sua face estava igual mas perguntava-me se ainda continuava a fazer a covinha na bochecha enquanto sorri. Foi nesse momento que me apercebi que sentia umas saudades imensas do seu sorriso e, também, dos seus calorosos abraços.
- Filho, tens aqui uma visita. – disse a minha mãe enquanto abria a porta – E eu e o teu pai já vamos para a aldeia dos avós. – avisou, dando-me um beijo na testa mas não se apercebendo da foto da Carina pois tinha-a colocado de costas sobre o tampo da mesinha de cabeceira. – Podes entrar. – disse a alguém que estava no hall.
Devia ser muito provavelmente algum colega meu a querer saber algo mais sobre o funeral ou a querer falar sobre o Pedro, até que entra a Carina no meu quarto, sem dizer uma palavra fazendo-me levantar automaticamente.
- Até amanhã, filho! – disse o meu pai no hall fechando a porta da entrada atrás de si.
Conseguia-se ouvir os meus pais a descer as escadas, degrau a degrau, e fechar, por fim, a porta do prédio pois estávamos os dois em silêncio a olhar fixamente um para o outro. Foi simplesmente o silêncio mais ensurdecedor do mundo.
Só passado um bocado a Carina ganha coragem, dirige-se para mim, ficando a pouca distância, não me deixando de me olhar nos olhos.
- Eu também te amo muito. – revelou num murmúrio, beijando-me com os seus doces lábios.
Apanhando-me de surpresa, vejo os seus olhos fechados e sinto as suas mãos a agarrarem as minhas. Fecho então os olhos, deixando-me levar pelo momento, aquele momento que eu desejava à tanto tempo.
Beijamo-nos intensamente, eu passando a mão no seu cabelo e ela acariciando o meu pescoço. Sinto um arrepio violento quando a minha mão chega ao fundo das suas costas pois estava a acariciar a sua pele fria.
Estava a tremer, não sabia se era de entusiasmo, se pura alegria, ou nervosismo ou então ansiedade, e sem saber o que estávamos a fazer, começamos a dirigir-nos para a minha cama, fazendo com que ela ficasse sobre mim, acariciando as suas pernas nas minhas, sem parar de me beijar. A partir desse momento, não tive controlo sobre mim, os beijos tornavam-se cada vez mais ofegantes e percorria-mos com as nossas mãos o corpo um do outro.
Agarro-a pelos jeans, revirando-a, tendo o cuidado para não a magoar. Então ela entrelaça as suas pernas nas minhas, começando a tirar a minha t-shirt ao mesmo tempo que eu tirava o seu top. Acho que não nos apercebemos do que fizemos a seguir pois estávamos tão ofegantes que uma coisa levou à outra e, de seguida, estávamos nus sobre os lençóis. Como que o despertar para o que estávamos prestes a fazer, paro de a beijar, abrindo os olhos preparado para ver os seus olhos de um verde intenso mas em vez disso vi a pessoa que mais gostava deitada sobre os meus lençóis, a acariciar a minha face, a olhar docemente para mim e eu ali sobre ela com um medo terrível de a perder.
- Carina… – digo ofegante e a sorrir – Queres namorar comigo?
- Sim… Muito. – respondeu, voltando a beijar-me e a acariciar o meu cabelo, fazendo com que senti-se de novo um arrepio na espinha.
- E… – digo interrompendo, outra vez, os seus beijos mas com um tom sério – Queres mesmo fazer isto?
- Eu não sei. – respondeu, sinceramente, começando a corar – É a minha primeira vez.
- É também a minha primeira vez. – respondo-lhe, beijando-a, entrelaçando a minha língua na dela calmamente e acariciando a sua coxa.
Não me apercebi muito bem do que se passou a seguir, apenas estava muito nervoso por ser a nossa primeira vez e estava a tentar ter o maior dos cuidados com a Carina.
Por fim, consumamos o nosso amor.
Continuámos ali deitados, lado a lado, a olhar um para o outro em silêncio, ela a acariciar o meu cabelo e eu a acariciar o seu ombro despido. Sentia-me extremamente feliz por estar ali com ela e apercebendo-me das saudades que tinha dela, abraço-a com força.
- Tinha muitas saudades tuas. – digo largando-a e voltando às carícias.
- Posso perguntar uma coisa? – perguntou olhando-me seriamente – Tu já gostavas de mim?
- Já. – respondo sorrindo – Já gosto de ti à algum tempo.
- Mesmo antes de nos tornarmos amigos? – perguntou entusiasmada – Desculpa não ter admitido que gostava de ti logo naquela tarde de Verão.
- Não tens que pedir desculpa. – respondo, beijando-a na testa.
- Eu nunca tinha sentido por ninguém o que sentia e o que sinto por ti, tinha medo de te perder e de perder a tua amizade.
- Eu também não te queria perder e ainda não quero.
- Fico feliz pela minha primeira vez ter sido contigo. – afirmou beijando-me novamente.
Como estávamos sozinhos em casa, deixamo-nos ficar deitados, agarrados, a sentir a respiração e o calor um do outro. Vejo-a a adormecer, percorro com os meus dedos a sua face, deitada no meu peito, e inclinando-me para a beijar suavemente na testa, perco-me a sentir o aroma doce dos seus cabelos.
- Amo-te. – digo num murmúrio, adormecendo profundamente feliz.
No dia seguinte, acordei meio atarantado a pensar “Foi tudo um sonho!” mas mal abri os olhos, vi a Carina sobre o meu peito.
- Bom dia. – disse-me com um sorriso
- Bom dia. Dormiste bem? – pergunto esfregando os olhos.
- Muito bem. E tu?
- Não muito. – respondo fingindo um bocejo – Tu ressonas.
- Ai é? – perguntou na brincadeira começando a fazer-me cócegas.
Rebolamos na cama, acabando eu por cima dela a morder-lhe o pescoço. Paro e olho-a nos olhos, como eu era capaz de me perder naqueles olhos tão meigos, como era possível eu estar tão bem com a Carina e ter que me dirigir para um funeral?
- O que foi? – perguntou a Carina preocupada agarrando-me no meu braço direito.
- Temos que nos levantar. Temos que ir para o funeral do Pedro. – respondo sentando-me ao seu lado e esfregando a minha cara com a minha mão direita.
- Não penses que me esqueci Hugo.
- Eu sei. – digo olhando para ela, ali deitada naquele mar de lençóis brancos – Sabes, a última coisa que ele me disse foi para te dizer de uma vez por todas que gostava de ti.
- A mim também. – respondeu calmamente.
- O quê?! – pergunto admirado, arregalando os olhos.
- Ao mesmo tempo que te escrevi, mandei ao Pedro uma carta a contar o que aconteceu e a dizer que estava tudo bem agora. – respondeu sentando-se, também, ao meu lado e agarrando a minha mão – Tal como a ti, mandei-lhe o meu número de casa. Acho que mal ele recebeu a carta, telefonou-me a perguntar como estava e que queria saber quando é que te dizia que gostava de ti. – faz uma pausa e olha-me directamente nos olhos – Eu nunca lhe tinha dito que gostava de ti, aliás nunca disse nada a ninguém.
Fez-se um silêncio sobre nós, afinal o Pedro conhecia-nos muito bem ou talvez o nosso amor na altura fosse quase óbvio. Fosse o que fosse, o Pedro é o grande responsável por estarmos juntos agora. E podíamos estar felizes mas sentíamos uma mágoa mútua por termos perdido uma pessoa que nos era tão querida e que só nos queria ver felizes.
- Queres tomar um banho? - pergunto rompendo o silêncio de uma vez.
- Não estarás, só por acaso, a chamar-me porca? – ripostou a Carina rindo.
- Estou. – respondo rindo, então saio da cama, pego-a ao colo e levo-a até à banheira.
Lavamo-nos demoradamente com alguns beijos molhados pela água quente, saímos enrolados em toalhas brancas, prontos para vestir a roupa preta.
- Precisas de ir a casa?
- Não… Eu não larguei a minha mochila.
E só aí é que reparo numa mochila vermelha caída perto da porta do meu quarto.
Sento-me, ainda com a toalha enrolada na minha cintura, na cama por fazer. Sentia-me extremamente pesado, como se me tivesse apercebido, verdadeiramente, que estava prestes a ir ao funeral do meu melhor amigo quando vejo a roupa preta estendida na cama. Com a toalha também enrolada no seu corpo, a Carina abraça-me.
- Eu sei que vais ter muitas saudades dele.
Queria muito chorar mas não conseguia brotar uma única lágrima dos meus olhos. Queria muito gritar mas tinha perdido a voz. Apenas levantei os meus braços e envolvi a Carina com eles. Ela estava a tremer.
- Eu também sei que vais sentir muito a sua falta. – dito isto a Carina abraça-me com mais força e começa a chorar.
Não sabia o que dizer, não sabia o que fazer e não sabia sequer o que pensar, sentia apenas as suas lágrimas quentes a cair no meu ombro.
Vestimo-nos, por fim, e fechando a porta da entrada, saímos os dois vestidos de preto. De luto pelo Pedro e pelos nossos sentimentos por ele.
A igreja onde ia ser a sua missa não era muito longe de minha casa e, por isso, chegámos lá bastante depressa mas quase que nos assustámos ao ver tanto carro estacionado perto da igreja, devia ser muito provavelmente de toda a família do Pedro pois uma facção dos carros tinha matrícula francesa.
Entramos no pátio da igreja e vi-mos uma multidão à volta das escadas que davam para a grande porta de entrada da igreja, apesar da quantidade de pessoas parecia estar tudo calado, havendo apenas um choro ou uma fungadela aqui e acolá. A expressão das pessoas era de pura mágoa e tristeza, todas pareciam conhecer o Pedro mas aposto que nenhuma delas o conhecia como eu e pensando nisto começo a levantar a moral.
- Vamos entrar? – perguntou a Carina com a voz a fraquejar.
Aceno afirmativamente com a cabeça com um movimento firme e começo a subir as escadas de pedra. Sinto ao meu lado a Carina a tremer, por isso coloco o meu braço à sua volta mas ela não olhou para mim, olhava fixamente para o fundo da igreja, até que mete as mãos à boca. Com receio, viro a cabeça na direcção do seu olhar e apanho um choque, como se de um balde de água fria se tratasse paro no meio do corredor da igreja, no meio da irónica passadeira vermelha, especado a olhar para um caixão de carvalho brilhante, colocado perto do altar, rodeado de muitas flores. No caixão via uma figura singela vestida toda de preto. Começava a pensar se estaria preparado para ver o que iria ver.
Perto do caixão via a mãe do Pedro e sua irmã a Sílvia, ganhando coragem, dirijo-me a elas mas retirando de bom grado os olhos do caixão.
- Hugo! – exclamou a mãe do Pedro largando o lenço que tinha nas mãos abraçando-me – Obrigada por teres vindo e de teres convidado os amigos todos do Pedro.
- Eu não ia faltar e era o mínimo que podia fazer. – digo olhando no meu canto do olho a Carina a abraçar a Sílvia – Força, Sílvia. – digo abraçando-a.
Quando largo a Sílvia vejo nos seus olhos cor de mar uma determinação estranha.
- Hugo. – chamou a Sílvia baixinho – Antes de a cerimónia começar, gostava de falar contigo.
- Continua. – respondo vendo a Carina a ajudar a mãe do Pedro a sentar-se nos bancos de madeira rígida da igreja e a dar-lhe palavras de alento.
- Lá fora, se não te importares.
- Está bem. – digo concordando e seguindo-a à saída da igreja.
O que seria que ela me queria dizer que era tão importante?
Dirigimo-nos para um tronco de uma árvore de grande porte que ficava a uma distância suficiente da porta da entrada para que se pudesse ter uma conversa particular.
- Eu sei que o que te vou dizer pode te parecer bastante fútil. – começou a Sílvia gaguejando um pouco – Mas eu gostava de seguir o último conselho do meu irmão.
Começo a sorrir a pensar que tinha feito o mesmo à bem pouco tempo.
- Força.
- O Pedro aconselhou-me a revelar sempre os meus sentimentos. E…portanto…eu queria dizer-te que gosto de ti. Acho que sempre tive um fraquinho por ti, coisa que foi sempre crescendo quando ias lá a casa regularmente. Tive a estupidez de contar a uma colega minha sem ser a Joana e foi desde aí que começaram todas a interessar-se por ti. E…o meu irmão disse-me para te revelar o que sentia mesmo que sentisse que não ia ser correspondida pois…assim…pelo menos estava a ser sincera contigo…e assim mediante a tua resposta ou podia ter esperanças ou podia começar a esquecer-te.
Tento assimilar tudo aquilo que a Sílvia teve tanta coragem em dizer e por isso queria pensar nas minhas palavras antes de as dizer pois não a queria magoar com a minha resposta.
- Desculpa, Sílvia. Mas eu sempre amei uma pessoa e graças ao Pedro estou com ela agora. Contudo, ele tem razão numa coisa. – digo calmamente olhando-a nos olhos e segurando a sua pequena mão – Obrigada por me contares pois assim sabes que eu tenho sentimentos por outra pessoa, assim podes esquecer-me. E tenho a certeza que vais encontrar alguém que te dê o devido valor, como tu mereces.
- Eu compreendo. Obrigada por teres sido sincero comigo, Hugo. – respondeu a Sílvia deixando cair uma lágrima – Consigo perceber porque é que o Pedro gostava tanto de ti e te considerava mais que um amigo.
- Mais que um amigo?
- Sim… Como um irmão. – respondeu a Sílvia calmamente.
Sinto uma alegria imensa e quase de imediato abraço-a.
- Obrigada por me teres dito isso. – digo baixinho.
Voltamos juntos para a igreja, onde já se viam alguns colegas meus e do Pedro na entrada, um pouco mais adiante estavam as colegas da Sílvia e da Joana em grupo.
Entramos igreja adentro sem cumprimentar ninguém e eu, ainda sem coragem para olhar para dentro do caixão, dirijo-me então para o lugar vago perto da mãe do Pedro, da Carina e da Joana. Esta estava envolvida num pranto incessante mas mesmo assim abraçou-me. Não seria muito fácil perder o namorado e via-se através dos seus olhos que gostava muito dele.
De repente, o padre entra, clareia a voz e começa a cerimónia, olho para trás e vejo uma multidão de gente a ficar em completo silêncio, ora velhos, ora adolescentes, ora adultos, ora jovens mas todos vestidos de preto pelo Pedro, estavam ali todos para lhe prestar uma última homenagem. Não conseguia prestar muita atenção à cerimónia pois estava a ter uma grande batalha interior: olhar de uma vez por todas para o caixão. Sentado naquele banco maciço e rígido, olhava para o chão de pedra a pensar no que a Sílvia tinha acabado de dizer. O Pedro considerava-me como um irmão e eu, apesar de nunca lhe ter dito, sentia o mesmo. Era como se fosse um irmão que nunca tive, aquela pessoa a quem podia falar sobre tudo, confessar os meus medos, dizer de quem gostava, dizer quem odiava, com quem podia sorrir e chorar. Com quem eu podia ser eu próprio.
Levanto a cabeça num movimento brusco, agarrando com força a mão da Carina, olhando quase preparado para o que iria ver.
Via… Via o Pedro, com a pele cor de cera, com um corte acima da testa, vestido com um fato preto, uma camisa muito branca e gravata preta. De resto, parecia que estava apenas a dormir pois ainda me senti tentado a chamar por ele “Vá lá seu mandrião! Acorda!” mas não valeria a pena.
Sinto uma grande dor no peito, era persistente enquanto pensava com um misto de tristeza e raiva que nunca poderia dizer ao Pedro que o considerava como um irmão. Nunca mais…
A cerimónia foi curta, pelo menos foi assim que me pareceu, e a seguir a isso puxo a Carina para fora da igreja. Não conseguia respirar, sentia-me a sufocar com a dor que tinha que teimava em não desaparecer.
Depois de me ter acalmado um pouco a carrinha funerária já estava pronta para levar o corpo para o cemitério porém não era um cemitério qualquer, era o cemitério onde o pai do Pedro estava enterrado à mais de dez anos. Toda a gente começou a seguir a carrinha funerária, não de carro mas a pé, em silêncio, seguindo a tal carrinha que prosseguia em marcha lenta.
O cemitério não era muito longe da igreja mas pareceu-me uma eternidade, as minhas pernas pareciam chumbo e os meus olhos teimavam em não largar o chão, apenas tentava caminhar, envolvendo a Carina com o meu braço.
Chegamos por fim aos portões de ferro forjado do cemitério e à sua entrada esperava o coveiro para nos levar à campa certa. Era estranho pensar que aquele senhor já de idade mas ainda com uma mão firme podia ter aquela profissão e sempre tão amável para com os familiares.
Os agentes funerários começaram a retirar o caixão até que o tio do Pedro, um senhor alto e bem parecido, se aproximou.
- Deixem. Porque alguns de nós vão querer levar o caixão até à campa. – afirmou com uma voz muito grave.
Mal ouvi isto aproximei-me do caixão e pego numa ponta, as outras foram preenchidas facilmente por outras pessoas: o tio, o avô e, para minha grande surpresa, a Joana amparada pela mãe e a irmã do Pedro.
Quando se levantou o caixão parecia que pesava uma tonelada, pensei para com os meus botões que o Pedro estaria neste momento a dizer em tom de gozo “Estás a chamar-me gordo?” e com este pensamento ganho coragem e ânimo para percorrer aquelas pequenas ruelas por entre as campas. O Pedro podia ter morrido mas iria estar sempre comigo.
Nesse momento, a dor persistente desaparece.
Chegámos, por fim, à campa destinada ao Pedro, pousamos o caixão em cordas para depois ser colocado no fim da campa e afastamo-nos formando um grande círculo de gente à volta do caixão. Enquanto que se esperava pelo Padre para as últimas rezas, sinto a mão da Carina a apertar a minha.
- Olha os teus pais. – apontou baixinho.
Numa outra extremidade via o meu pai com os meus avós e a minha mãe a tentar furar o mar de gente em direcção a nós.
- Estás bem filho? – perguntou ofegante abraçando-me com força.
- Sim, mãe. Não te preocupes. – respondo monocórdico.
- Vou cumprimentar a mãe do Pedro.
- Ok. – digo no mesmo tom enquanto a vejo a dirigir-se para a mãe do Pedro.
O Padre clareou a voz uma última vez, disse as tais rezas e perguntou quem queria dizer umas últimas palavras. Claro, a mãe e a irmã do Pedro chegaram-se à frente.
- Vamos ter muitas saudades tuas. – disseram quase em coro, perseguido de lágrimas e fungadelas de todos.
De seguida, a Joana chega-se à frente.
- Obrigada. – disse docemente e retira-se recomeçando a chorar mas abraçada à Sílvia.
A Carina, surpreendendo-me, também se chega à frente.
- Obrigada pelos teus conselhos. Obrigada por seres um amigo que se preocupa. Obrigada por tudo. – disse fraquejando um pouco na última parte.
Então, num impulso, chego-me também à frente vendo um buraco grande e, lá no fundo, o caixão do Pedro. Tentava imaginá-lo a sorrir.
- Eu também te considero como um irmão. Obrigada por tudo, Pedro.
Então o coveiro começa a deitar pequenas camadas de terra por cima daquele caixão tão brilhante. A Carina agarra-se a mim com força, encostando a sua cara ao meu peito, começando a chorar, eu envolvo-a nos meus braços, também com força, afago-lhe o cabelo fechando os olhos, até que deixo cair uma lágrima sobre a minha face."









Ao fim de tanto tempo, consegui finalmente satisfazer a minha "mania de escrever" acabando por fim o 2º capítulo da obra Os Homens Também Choram. Só espero ter evoluído tanto na escrita como a personagem.
Espero que gostem, espero também pelos vossos comentários e/ou críticas!

Sexta-feira, Maio 18, 2007

Mas que mania...



Mas que mania que eu tenho... Então este blog não foi uma tentativa frustrada de eu recomeçar a escrever, afinal apenas precisava de estar mais tempo com a minha fonte de inspiração.

Sendo assim já tenho a continuação do romance Os Homens Também Choram prontinha para começar a escrever qualquer coisinha, há apenas um senão... Os exames estão aí!

Vou tentar mesmo assim não perder a inspiração e nas horas vagas escrevinhar qualquer coisinha no papel ainda branco.

Ah! E uma última coisa, já sei quem morre.

Quinta-feira, Abril 19, 2007

Os Homens Também Choram, capítulo I

Dedicado ao amor, à teimosia e à preserverância de uma só pessoa,

"As aulas começaram... Nada mudara, a mesma turma, as mesmas pessoas e mais um ano a tentar sobreviver no meio de pessoas entediantes mas ao menos o meu melhor amigo Pedro, como há poucos, ficou na turma apesar de já ter ameaçado mudar. Ele sabe que eu por mais que sofra eu não mudaria de turma por nada, isto é, mudaria se ela mudasse também.
Ela... Ela... Ela... Está no meu pensamento e principalmente no meu coração hà mais de dois anos... O seu cabelo a esvoaçar, os seus olhos a brilhar, o esticar dos seus lábios quando sorri, simplesmente, não me sai da cabeça. Quando eu olhava para ela, Pedro sabia perfeitamente que logo a seguir o meu coração ficaria reduzido ao tamanho de uma ervilha, então sabia perfeitamente o que dizer: “ Não vais começar com aquela cena do cabelo a esvoaçar, os olhos assim, o nariz assado, pois não? Porque é que só pensas nessas coisas? Ao menos experimenta olhar para o rabo dela... Ás vezes pergunto-me se és gay...”
Fazia-me rir e isso tornava tudo a cores outra vez.
Bem, mais um ano, mais vale entrar com o pé direito, e assim faço, coloco o pé direito em frente do pé esquerdo sobre a primeira porção de gravilha da escola. Não há muita coisa a descrever da escola, apenas paredes brancas, umas flores aqui e ali, e uns quantos arbustos que tinham que ser aparados quase todas as semanas...
- Olá Hugo!
- Olá Pedro! Então? A França estava boa?
- Oh... Mais ou menos, não consigo adaptar-me ao tempo de lá... Mas os chocolates estavam óptimos! – respondeu de sorriso de orelha a orelha
Sempre bem disposto este Pedro, nada o fazia ficar triste, nem mesmo daquela vez em que ele namorou com uma Sara, que ele gostava muito, e ela acabou tudo, apenas disse: “Mereço melhor!”
- Este ano qual era a novidade? – Quando o Pedro vinha de França a conversa sobre chocolates durava pelo menos uma semana. – Estou a ver pela tua cara que comestes bastantes...
- Chocolate com mel... – dizia ele lambendo os lábios – Divino, meu amigo, divino!
A madrinha do Pedro tinha ido trabalhar para França à 20 anos e sempre trabalhou na mesma fábrica de chocolates, e convida o Pedro a passar em casa dela umas duas semanas das férias grandes todos os anos e, como era de prever, não era preciso dizer duas vezes para o Pedro ir. É louco por chocolates! Mas como todos os adolescentes, sofre duma doença que é muito amiga dos chocolates: a acne.
- No ano passado fiquei pior... – disse rindo-se, passando a mão na bochecha cravada de borbulhas – E então, já a viste?
- Não... Ainda não a vi... – digo cabisbaixo
- Também tens tempo Hugo, tens o ano todo para a ver...
Não é verdade, já me tinham dito que alguém iria sair da turma mas ninguém me soube dizer quem...
- Vamos ver as turmas...
- Para quê?
- Anda lá...
Os placares das turmas estavam agora cheias de nomes de alunos mas a mim só me interessava ler um, apenas um!
- Que turma somos?
- Décimo primeiro B.
O meu dedo indicador correu os nomes de vários colegas nossos, até chegar ao que eu mais queria ler.
- Está aqui... – disse respirando fundo
- Mas tu duvidavas? Todos os anos diz a mesma coisa mas fica sempre...
- Tenho medo que alguma vez aconteça.
- Hugo... – Ele bem que queria repreender-me mas sabia que não valia de nada – Tu preocupas-me.
Trim!
- Olha o sino está a tocar, vamos para a sala!
- Qual é a pressa? – Era escusada a pergunta... – Ah! Está bem.
Acho que passos largos seriam um eufemismo, era mesmo correr, não queria perder o lugar, isto é, o lugar atrás dela!
- Porra, Hugo! – diz Pedro ofegante, com as mãos nos joelhos – Já pensaste ir para atletismo?
Espreito devagar para dentro da sala amarelada, cheia de cadeiras e mesas beges que convidavam vivamente a escrever o nosso nome ou uma expressão de amor lá.
- Ninguém. – disse sorridente
- Claro que não há ninguém, viemos a correr!
Respiro fundo, é agora, é ao fim de três longos meses que a vou ver...
- Nervoso? – perguntou Pedro com tom sério
- Não... Um pouco... Ok! Bastante! – é impossível mentir, eu transbordo nervosismo! – Achas que ela vai reparar?
- Não tenhas muitas esperanças, as raparigas ficam todas chateadas quando nós não reparamos nalguma coisa diferente nelas mas nem sequer são capazes de reparar em nós.
- Olha! Gente...
Ao longe vinham os nossos colegas de turma: “Ena!”, “Estás tão diferente!”, “Ficas mesmo bem assim!”, “Nem te reconhecia!”, diziam eles conforme iam chegando, até que...
- Hugo! – Pedro agarra-me no braço e aperta-o com alguma força.
- É ela, não é? Onde está?
- Não olhes, por favor...
- Não olho? O que se passa? O que tem? Onde é que ela está? – pergunto nervoso e ao mesmo tempo preocupado, olhando para todo o lado, até que os meus olhos pousam num cenário que eu nunca esperaria ver. “Não é possível”, pensei, não era ela, não podia ser...
- Nem parece ela, não é? Eu nem a reconheci com aquela roupa preta e os olhos vermelhos...
De preto, da cabeça aos pés, lá estava ela a chorar ao longe no ombro duma amiga, que não sabia o que dizer...
- Se calhar foi melhor assim... – dizia ela para a consolar mas pouco conseguia.
Lá estava ela... De preto, nem parecia mesmo ela, a menina cheia de vida, sempre sorridente, com os olhos a brilhar... Era a minha luz do dia...
- Vai ter com ela!
- Achas? É melhor não, não sei o que dizer... – digo eu, vendo-a a aproximar-se
- E é preciso dizer alguma coisa? – diz Pedro empurrando-me para a frente, fazendo com que embatesse nela...
- Oh, Hugo... – disse fungando – Olá, tudo bem?
Responde... Sim, está tudo bem... Precisas de alguma coisa? Responde!
- Sim! E contigo? – Que estúpido!!! E contigo? A rapariga com os olhos cheios de lágrimas e eu a perguntar “e contigo”?!
- Nada bem... A minha tia morreu ontem, estava muito doente sabes...
Aqui estava ela, à minha frente a falar comigo, fungando de vez em quando mas enquanto falava, os olhos iam ficando menos vermelhos e o seu verde ia ficando mais brilhante, não sei se talvez da luz ou das lágrimas. Só me apetecia dizer-lhe o quanto ela é bonita, o que sinto por ela e que quero ficar com ela para sempre...
- E foi disto, acho que no fim ela estava a sofrer e acho mesmo que foi melhor assim, mas eu gostava tanto dela Hugo... – E entra num pranto colocando as mãos à frente da cara e inclinando-se para a frente colocando a sua cabeça no meu peito. E agora?! O que faço? Nunca me senti assim, ela estava agora no meu peito a chorar e a única coisa que me ocorria era abraçá-la, colocar os meus enormes braços em volta dela mas os meus braços eram chumbo, não me conseguia mexer! Até que sinto uma mão a puxar-me o braço para cima, olho para baixo e era Pedro e gesticular freneticamente com uma mão para eu colocar os braços à volta dela, com grande esforço eu enlaço os braços sobre ela e encosto a minha face na cabeça dela.
Nunca senti tanto calor, nunca a tinha sentido assim, tão de perto... Apenas a ouvia chorar baixinho e fechando os olhos, comecei a sentir o perfume dela... Quase que partilhava o choro com ela...
- Obrigada Hugo... – diz afastando-se um pouco – És um óptimo amigo. – e nisto afasta-se caminhando perto das amiguinhas dela, deixando-me parado, sem fala...
Entramos na sala e ainda não proferi uma palavra, quando foi a chamada apenas levantei o braço fazendo notar que estava ali mas não estava, estava nas nuvens no mais alto dos céus.
- Sonhei... – digo, suspirando
- Não, não sonhaste... – diz Pedro com ar de felicidade, eu nem tinha reparado que ele tinha entrado comigo e ficado ao meu lado apesar de ficarmos sempre – Agora diz lá, queres deixar o suspense e dizer do que falaram?
- Parece que a tia morreu...
- Que mal.
- Pois...
- Hugo? Hello! Terra chama Hugo! Tens de acordar e lutar Hugo, não te soube bem esse abraço?
- Ainda perguntas?
- Então! Tens que lutar Hugo e é agora!
- Eu quero lutar por ela mas não é agora... Ela agora está em baixo e não me vou aproveitar disso, quero por agora continuar a ser um amigo.
- Então ao menos aproxima-te mais dela, conversa e assim, aquilo que tu estás sempre a dizer que pelo menos queres fazer...
- È o que eu mais quero... – digo olhando para ela, correctamente sentada como estava sempre, para aquelas mãos de menina agarrando um lenço de papel ensopado.
- Espero que tenham um bom ano lectivo! Estudem muito!
- O quê? Já acabou a apresentação? – digo desnorteado
- Claro, a maior parte do tempo tiveste a sonhar acordado. – diz Pedro a brincar – Agora a sério, vai ter com ela!
- E digo o quê? E faço o quê? Eu quando estou ao pé dela fico sem reacção...
- Já reparei. Leva-a até casa! Leva-a!
- Não sei... Não sei se ela quer...
- Ainda não lhe perguntaste! Vai perguntar-lhe.
- Está bem mas se ela responder que não, fico chateado contigo!
Pedro engole em seco, nem ele tinha a certeza que dizia mas não custava nada tentar... Mais vale uma tentativa falhada, do que nenhuma...
Aproximo-me dela, devagar, respirando fundo, treinando as palavras, agora tem que sair perfeito!
- Queres que te leve a casa? – digo quase em surdina
- Diz? Desculpa, não te ouvi com a barulheira...
- Queres que te leve a casa?
- A sério?
- Sim... – cuidado com as palavras – Se não quisesse não te perguntava.
Parvo, estúpido! O seres bruto não resolve nada! Pronto... Ela vai responder que não...
- É... – diz rindo-se – Isso é verdade... Vamos então?
Ufa! Ao menos levou para a brincadeira... Respiro fundo e tento caminhar ao seu lado enquanto fala do início das aulas, nunca tinha andado a seu lado, sempre atrás, para sentir o seu perfume, ou a olhar para ela, a admirar a sua beleza...
- Achas que vamos ter sorte com os exames este ano?
- Desculpa?
- Ai, Hugo sempre no mundo da lua...
- Não, desculpa... Eu estava a ouvir... – Tenho que estar atento ao que ela diz...
- Estava eu a perguntar-te se achas que vamos ter sorte com os exames este ano.
- Ah! Mas nós este ano não vamos ter exames...
- Não?
- Não, pelo que sei estamos a ser cobaias de um novo programa do Ministério. E este ano não vai haver exames, só melhorias de notas, – Aqui estava eu a falar com ela, de igual para igual, eu não mereço este momento, não mereço estar ao pé dela – e este ano as melhorias só sai a matéria que dermos este ano.
- Ena, estás sempre bem informado... Que bom! Estava um pouco preocupada porque tenho medo dos exames. – disse fazendo uma careta.
- Então porque não te inscreves nas melhorias? Assim preparaste para um exame a sério...
- Não sei... Tenho medo... E tu?
- E eu o quê?
- Vais-te inscrever?
- Sim...
- Ai é? Então vou falar com o meu pai, já que tenho que pedir dinheiro para isso não é?
- É... – disse esperançoso
- Então eu telefono-te ainda hoje para casa para te dizer alguma coisa, está bem?
Telefonar para minha casa? MINHA casa? Eu não consigo acreditar, ela vai ligar para mim, para MIM!
- Ok! – disse contendo um grito de alegria.
- Bem, é aqui... Obrigada por me teres trazido a casa...
- De nada, sempre às ordens... – Estamos nalgum quartel, ou quê? Sempre ás ordens?!
- À vontade, meu soldado! – disse, esticando os lábios, até fazer um tímido sorriso, aquele sorriso que eu esperei três meses para ver...
- Então, até logo. – disse subindo o degrau da sua porta e nisto inclina-se para a frente, esticando os braços e as mãos, levando-as à minha cara agarrando-a...
Engulo em seco, o que estava ela a fazer? Até que encosta os seus lábios à minha cara, dando um beijo de agradecimento na minha testa...
Não sei o que aconteceu a seguir, só dei por mim deitado na cama da minha casa, de braços estendidos e sonhar acordado com aquele beijo tão inocente...
O Pedro! Tinha-o deixado na escola, já nem me lembrava dele... Corro para o local da base do telefone mas não estava lá telefone nenhum. Malditas tecnologias, maldito telefone sem fios, agora tenho que procurar por toda a casa para ver onde deixaram o raio do telefone...
- Ah! Aqui estás tu...
Marco sem hesitar os números da casa do Pedro e mal toca a segunda vez, atende ele do outro lado:
- Seu estúpido! Já nem dizias nada? Estou curioso... O que se passou? Conta, conta...
- Ela beijou-me... – digo suspirando
- Hum, mas foi um beijo a sério?
- Deu-me um beijo na testa... – digo sentando na minha secretária
- Só na testa? Porra, como avanças devagar... Mas pronto e então que falaram?
- Falámos de coisas sem importância mas...
- Mas, o quê? Fala homem!
- Ela hoje vai telefonar-me para casa para me dizer se vai fazer melhorias ou não...
- Que fixe! Isso é óptimo! Agora imagina que ela telefona-te e diz-te que sim, o que dizes?
- Ainda bem, assim ficas com notas muito boas...
- Não! Nem penses em dizer isso! Dizes que ainda bem que sim e tal mas dizes logo que já que vão fazer os dois podiam estudar juntos...
- Estás doido? Não lhe vou dizer isso... Ela pode pensar outras coisas...
- Faz como quiseres...
- Olha e agora desimpede-me a linha que ela vai telefonar-me daqui a nada...
- Achas que sim? Ainda agora...
Nem teve tempo de acabar a frase, carrego no botão vermelho para desligar e fico extasiado a olhar para o telefone. Parecia uma eternidade...
Tlim! Tlim! Tlim!
É ela! Tenho que atender...
Tlim! Tlim! Tlim!
Digo “olá”, não, não, “estou?”, não demasiado formal, “quem fala?”, também não...
Tlim! Tlim! Tlim!
Porra, apenas atende!
- Estou sim?
- Estou? Boa tarde, estou a ligar de uma nova empresa de companhia de telefones, por acaso não estará interessado em mudar de companhia?
- Não, boa tarde! - E pumba, desligo o telefone!
Nem acredito... Companhia de telefones? Não têm mais nada que fazer? Devia ser um crime, aproveitarem-se de serem uma companhia de telefones para telefonarem para todas as pessoas...
Pouso o telefone na secretária e sento-me na cama.
- Ela não vai telefonar... Ela nunca iria telefonar-me...
Nisto puxo a gaveta de cima da minha mesinha de cabeceira e no meio de tanta tralha, porta-chaves velhos, perfumes, até cromos antigos, mas por cima disso tudo estava a foto dela, bela e esplêndida... Era uma foto pequena, daquelas de passe, que utilizávamos para colar no cartão de estudante, a foto em si era um crime porque quando ela estava a colar outra no cartão de estudante esta cai-lhe do bolso e o Pedro apanha-a sem ela dar conta! E depois aparece à minha frente de sorriso de orelha a orelha, a dizer: “Tenho uma prenda para ti!”, estendo-me a tal foto. De sorriso, de posse para a fotografia, lá estava ela de camisola vermelha com uma blusa branca por baixo...
- Como a tecnologia evoluiu...
É verdade! Apanhava a covinha do sorriso dela na perfeição! Passo o meu dedo pelo cabelo dela,
- Ainda hoje de manhã o tive entre os dedos, ainda hoje senti o seu cheiro... – digo colocando a mão aberta à frente do nariz, inspirando com força para tentar obter algum cheiro que restava do cabelo dela...
Tlim! Tlim! Tlim!
- Se for outra companhia de telefones... – atendo – Estou?
- Estou? É da casa do Hugo?
- É sim... – digo de coração a palpitar fortemente – É o próprio...
- Olá Hugo! Sou eu!
- Ah! – É ela! – E então tudo bem?
Tudo bem? Se ainda há bocado estiveste com ela e sabes perfeitamente a resposta...
- Já tenho uma resposta...
- E então?
- Sim! Vou fazer!
- Ainda bem... – ia começar a debitar aquela conversa de melhorar as notas mas lembrando-me do conselho do Pedro, não o fiz
- Olha, queria pedir-te uma coisa...
- Força.
- Vens amanhã comigo inscrever para as melhorias?
Era uma oportunidade única de estar com ela...
- Claro, passo em tua casa a buscar-te, ok?
- Ok.
- Olha... Eu não te cheguei a dizer, os meus pêsames... – QUE BURRO! Ela até já tinha sorrido e tudo! E tu foste lembrar-lhe disso! Vai começar a chorar ao telefone e tu não vais saber o que dizer...
- Obrigada Hugo... És um querido sabias?
Acho que corei por tudo que era canto da minha cara... Ainda bem que ainda não há videoconferência por telefone em Portugal...
- De nada...
- Bem tenho que ir, tenho o funeral da minha tia daqui a bocado...
- Ok. – O que dizer nestas alturas? “Um bom funeral”?
- Então, até amanhã...
- Sim...
- Tchau.
- Adeus.
E desligou... Não acredito, tivemos a falar ao telefone, estivemos a caminhar lado a lado para casa dela... Este dia não podia ficar melhor...
- As horas! – Não chegámos a combinar as horas...
Ia quase a procurar na agenda do telefone o nome dela mas...
- Se ela disse que foi agora para o funeral...
Bem, teria que esperar... E afinal o dia podia ficar melhor! Vou ouvir a sua voz mais uma vez! Só teria que esperar pela noite, esperar que ela chegue para lhe telefonar... É só esperar...
- Mas esperar é tão difícil...
Deito-me na cama a pensar... E se a tia dela não tivesse morrido no dia anterior? Não devia pensar nestas coisas, pobre da senhora... Mas não querendo ser hipócrita, foi a única coisa em cinco anos que nos juntou para falar...tão perto...tão sinceramente...
Já tínhamos falado de outras coisas, do tempo, dos testes... Coisas que não se comparam com o que falamos hoje... Ela desabafou comigo, preferiu desabafar comigo do que com as amigas dela... Deve significar alguma coisa...
- Não ganhes esperanças... – digo triste
Mas realmente este é o melhor início de ano lectivo que já tive... Realmente se não fosse pelo...
- Pedro! Deve estar roído de curiosidade...
Pego no telefone, na verdade contar o que disse pelo telefone com ela, não era uma grande prioridade mas como também não tinha nada que fazer...
- Estou?
- Sim?
- Pedro?
- Hugo? Então? Já telefonou? Demorou bastante...
- Sim... Ela quer ir comigo inscrever-se para as melhorias...
- Ah? Mas as inscrições não abrem só no fim das aulas?
- Pois é! – digo batendo com a mão na testa...
- Deixa estar, ao menos estás com ela um pouco... Isto é, se fizeres que não sabes de nada...
- Não, digo que me enganei...
- Olha, queres estar com ela?
- Sim, claro que sim, porque é que ainda me perguntas?
- Sim, realmente, que pergunta estúpida... Mas se queres tens que fazer de conta que não sabias de nada, ok? Porque senão aí ela vai pensar que fizeste de propósito...
- Mas eu não quero isso...
- Eu sei, por isso mesmo tens que fazer o que te digo.
- Hum... Está bem.
- Ainda bem! E então e falaram de mais o quê ao telefone?
- Bem, ela... – Ela tinha-me chamado de querido, só agora é que me tinha apercebido disso!
- Ela o quê?
- Ela chamou-me de querido.
- Ah! Ah! – ria-se que nem perdido – O Hugo ficou coradinho, coradinho ele ficou... Ah! Ah!
- Não te rias... Olha que fiquei mesmo.
- Bem deixando de brincadeiras de lado, a que horas combinaste com ela?
- Não combinei, devia ter combinado mas ela ia para o funeral da tia.
- Hum... Isso é mau...
- Olha que não! Assim telefono-lhe outra vez e falo com ela.
- Ah, pois é. Agora vê lá se não ficas especado ao telefone, tipo uma menina.
- Achas? – digo num tom de gozo
- Tenho a certeza, Hugo! Bem amigo, tenho que ir, a minha mãe quer que vá com ela ao supermercado.
- Olha não é a controlar os teus gastos e nada mas, já não foste ao supermercado a semana passada? A tua mãe não gosta nada de ir às compras e compra logo um montão de coisas...
- Pois é mas como estiveram aqui os meus tios de França e da Suiça, houveram grandes jantares e almoços, logo gastaram-se rápido...
- Pois, imagino, se forem todos como tu.
- Ah! Pois é, família é assim... Tchau aí!
E desligou.
A família do Pedro era muito esquisita, comiam imenso mas era muito difícil engordarem, quando a mãe do Pedro o vinha buscar, aqui a casa, a minha mãe gabava sempre o físico dela. Mulheres...
Agora ela...ela...ela... Ela era diferente, ela era simplesmente linda e maravilhosa...
- Só de imaginar que a tive nestes mesmos braços... – digo esticando os braços olhando para eles
- Olá filho!
- Olá mãe! – respondo atarantado, nem a tinha ouvido entrar
- Como foi a apresentação?
A melhor de sempre! Melhor não podia haver!
- Foi a mesma coisa que os outros anos...
- Depois não te esqueças de me dizer quando é que é a reunião dos pais...
- Está bem...
- Vamos jantar?
- Ok...
Comi apenas uma pequena porção do que eu costumava comer, nervoso e apaixonado, não era lá grande mistura para ter apetite.
Mal acabo de jantar corro para a base do telefone mas não encontro lá.
- Outra vez?
Mas reparando melhor...a luzinha de chamada estava acesa.
- Pronto a minha mãe começou as chamas dela, só telefono daqui a pelo menos uma hora... – digo caminhando desanimado para o quarto, quando por trás de mim...
- Hugo, é uma chamada para ti filho, é uma colega tua. – diz a minha mãe dando-me o telefone.
É ela... Só pode ser ela...
- Sim?
- Hugo?
- Sim...
- Sou eu!
- Ah! Olá!
- Esqueci-me de combinar as horas...
- Pois, também eu.
- Vamos de manhã?
Pobrezinha, ao menos não ia acordar cedo, não queria mentir-lhe mas...
- Que tal irmos de tarde? E aproveitávamos a manhã para dormir um pouco...
- Boa ideia, aproveitar a liberdade não é? – disse rindo-se
- É... Então a que horas te vou buscar?
- Podia ser depois do almoço... Ás duas?
- Ok. – Nem sei se vou aguentar – Então até amanhã?
- Sim, dorme bem e...obrigada por tudo...
- De nada, não tens nada que agradecer, – E os amigos são para as ocasiões e tal, não vou chateá-la com isso – dorme bem!
Acho que não vou conseguir aguentar até amanhã, é tanto tempo... Eu queria estar com ela, abraçá-la, protegê-la, sentir o seu cheiro maravilhoso que me deixa extasiado.
Deito-me na cama, a pensar que o amor é complicado, agora não me podia sentir mais leve mas pesado ao mesmo tempo.
Estou a começar a ter esperanças, o que é mau porque ela nunca quererá namorar comigo, nem eu lhe pediria uma coisa dessas... Ao menos que seja minha amiga, para mim é suficiente, mais que suficiente! Prefiro tê-la como amiga, do que não tê-la.
Deitado, de braços atrás na nuca, começo a lembrar-me dela, do que sinto por ela, “mais uma vez no mundo da lua” como diria ela, mas não... Eu vivo no mundo dela, no dela...
- O beijo... – digo, acariciando a testa
Foi um beijo tão inocente, tão delicado mas foi o melhor beijo da minha vida. Também não tenho muito com que comparar, o meu primeiro beijo do que me lembro foi num jogo com uma garrafa de Coca-Cola a rodar e várias pessoas colocadas numa roda, ela estava lá e rezei tanto para que a garrafa parasse em mim... Mas não, a garrafa ruidosa pára subitamente num colega da minha turma... Desiludido mas ainda com alguma esperança, rodei a garrafa e tentei criar, uma espécie, de momento esotérico: fazer com que a garrafa parasse em frente dela! A garrafa começava a parar, a fazer soar o barulho da gravilha e pára em frente duma outra rapariga, Sandra Calas, lábios finos e sabor a morango, apesar de não ter gostado do meu primeiro beijo, nunca se deve esquecê-lo, seja com quem for.
Não tinha ideia de um primeiro beijo assim, desajeitado e húmido, “Não nascemos ensinados” disse Pedro uma vez, acho que é melhor assim, seria um pouco aborrecido se nascêssemos ensinados.
- Bem, vamos mas é dormir. – digo abrindo o guarda-fatos tirando a t-shirt azul que tinha vestida – Estou diferente! – digo parando o olhar no espelho
Olho atentamente para o espelho, implantado na parte de dentro da porta do guarda-fatos, olho para uma silhueta de um rapaz de dezassete anos, diferente do rapazinho franzino, baixo e com os típicos óculos azuis-escuros. Agora já não é um rapazinho, já não é um menino e não pode voltar atrás e já não é baixinho!
- Um metro e setenta e nove. – digo orgulhoso de mim mesmo
E já não tem óculos, agora são lentes transparentes. Vejo um pouco de barba a crescer na minha face que jamais será a mesma, vejo os pêlos no meio do meu peito e abaixo os abdominais trabalhados.
- Estou diferente... – concluo
Acabo de me vestir e deito-me debaixo dos lençóis, tentando sonhar com ela, com ela, com ela...
Não gosto de sonhar, já sonho bastante durante o dia apesar de saber o meu lugar, ao lado dela sim mas como amigo, a ouvi-la, a desabafar com ela...
- Filho! Hugo!
- Mãe... mais cinco minutos... – respondo preguiçoso
- Nem pensar, tens que almoçar... – diz a Sra. Dona Mãe
- Almoçar?!
- Claro...
Tão tarde! Salto da cama, corro para a casa de banho, tomo um duche rápido, corro para a mesa sento-me no meu lugar, em frente à minha mãe, e olho para o relógio de metal com os ponteiros pretos, que tinha o mais pequeno no 1 e o maior no 6.
- Uma e meia... – digo em surdina – Tenho meia hora.
- Hugo, estás cada vez mais parecido com o teu pai! – dizia a minha mãe olhando para mim e para o meu pai.
Realmente estava com a mesma expressão facial, o mesmo tipo de cabelo...
- Serás um playboy, Hugo. – diz o meu pai batendo-me nas costas.
Playboy? Eu só quero uma, ela... Ela! Tenho que a ir buscar!
Como numa velocidade voraz, corro para a porta...
- Menino, não tens cinco anos, já lavar os dentes!
A mãe com as suas exigências, é o que dá ter uma dentista em casa.
Lavo os dentes a correr e aí sim, saio de casa e ando a passo acelerado para a casa dela, encho o meu peito de ar mas pouco conseguia respirar devido aos nervos. Isto é praticamente uma saída... Não demorei muito a chegar a casa dela, cheguei à sua porta e fiquei especado a olhar para a porta, ainda ontem aqui estive a receber o melhor beijo da minha vida!
- Acorda Hugo! – digo a mim mesmo e nisto subo o degrau e toco à campainha
Tlim!
Espero um pouco... Não deve ter ouvido...
Tlim!
- Se calhar esqueceu-se... – digo triste – Bem uma última vez...
E quando ia colocar o meu dedo na campainha ela surge-me por trás.
- Bum!
- Ah! O-olá! – digo gaguejando
Não é tempo para gaguejos!
- Desculpa fui passear a minha cadelinha, – disse olhando para uma cadelinha com o pêlo todo branco – vou só deixá-la em casa e já desço, ok?
- Sim.
E lá ia ela, abrindo a porta com uma chave pequena com as suas mãos de tom moreno com gestos de princesa. Já me tinham contado que ela não deixa qualquer um entrar em casa dela, nem ás amigas ela deixava entrar, todos achavam mal mas eu não tinha opinião formada, acho que se ela quer guardar o espaço dela está no seu direito e assim só deixa entrar quem ela sente mesmo uma amizade forte.
- Vamos? – disse fechando a porta verde atrás de si
- Vamos... – Não sabia o que dizer, não havia inscrições nenhumas, só apetecia dizer-lhe isso neste preciso momento mas...estou com ela...
- Já sabes mais ou menos quem vão ser os nossos professores?
- Não faço a mínima ideia, – digo encolhendo os ombros – quem sabe não são os do ano passado.
- Era fixe que fossem, eu gostei dos “profs” do ano passado.
- Não eram maus de todo. – Engulo em seco, ela estava a falar comigo e de cada vez que dizia alguma coisa olhava sempre para mim com aqueles olhos verdes de gato. – Não está calor?
- Pois é, tens razão. Este tempo é um pouco esquesito, de manhã está frio e de tarde está muito calor...
- Chama-se aquecimento global.
- Pois, já imaginaste que qualquer dia já nem o ar poderemos respirar? – disse ela olhando para mim abrindo aqueles enormes olhos...
- Realmente...
Entrámos na escola, vazia e deserta, também ninguém queria estar na escola sabendo que as aulas começavam amanhã, caminhámos para a Secretaria que era logo na entrada, bastou-nos entrar virar à esquerda e abrir a grande porta de madeira maciça.
- Boa tarde – disse ela com a sua voz de menina – queremos nos inscrever para as melhorias...
- Para as melhorias? – disse a mulher rouca
A senhora que atendia ao balcão na Secretaria era muito simpática, de cabelo grisalho e pele enrugada atendia os mais rebeldes dos alunos com a maior das calmas, só perdeu a calma uma vez, quando soube que tinham roubado o cofre da escola.
- As inscrições para as melhorias, linda são só no fim das aulas.
- Oh! Viemos por nada.
Dizendo isto saímos pela porta da Secretaria e caminhámos para a entrada da escola, neste momento conseguia ouvir o caminhar dos meus ténis na gravilha e o meu coração a bater. E já começava a suar das mãos...
- Desculpa ter-te feito vir por nada Hugo. – disse com a sua voz carinhosa – Eu não sabia.
- Deixa estar, não tens nada que pedir desculpa... – Não sabia mesmo o que dizer nesta altura, mas estava contente por ter estado com ela este bocado, neste bocado tinha estado no paraíso. – Então eu levo-te a casa?
- Sim... Mas com uma condição...
O que viria ali? Eu já estava nervoso mas agora estava bem pior...
- Vens comer um gelado comigo primeiro. – disse sorrindo
Agora sim pude estimar a beleza do seu sorriso, aqueles lábios com um tom avermelhado a formarem o sorriso mais lindo que eu já vira.
- Está bem! – disse contente e retribuindo o seu sorriso – E queres ir comer onde?
- Que tal ao café do Jardim?
Do Jardim? Era o local mais romântico da cidade! Aí podia-se apreciar o deitar do Sol nas planícies transmontanas.
- Claro.
O Jardim não era muito longe da escola mas nesse tempo falámos de tanta coisa, de travessuras enquanto pequenos, episódios com professores e ao chegarmos ao Jardim apercebemo-nos que a única coisa que sabíamos um do outro era o nome e onde morávamos.
- Desejam alguma coisa? – Veio o empregado, mal nos sentámos nos bancos de ferro forjado.
- Gelado de baunilha – dissemos em coro, olhámos um no outro e começamo-nos a rir, até tínhamos os mesmos gostos e nem sabíamos. Eu também nunca me dei a conhecer.
- Ninguém come só baunilha!
- Pois é, ou é gelado com baunilha e morango, chocolate, ananás mas só baunilha também nunca vi ninguém comer.
- É verdade, quando eu vinha aqui com as minhas amigas elas chamavam-me de esquesita. - dizia ela rindo-se ao mesmo tempo
Chegando os gelados comemos enquanto falávamos, nunca parávamos de falar, quanto mais falávamos mais descobríamos coisas um do outro em comum! Adorávamos cinema, e até gostávamos do mesmo grupo musical!
- Sabes... Quando estávamos a vir para a escola eu reparei que estás diferente.
Engulo o gelado todo que tinha na boca, congelando-a, ficando sem voz. Ela reparou...
- Achas?
- Sim... Estás mais alto, mas isso reparei na escola, mais entroncado e reparei numa coisa... Que vergonha...
- Que vergonha o quê?
- Só agora é que reparei que tens uns olhos azuis lindos!
Agora não me podia queixar das tecnologias, ela agora estava mesmo à minha frente e eu a corar feito um tomate.
- Mas não entendi onde está a vergonha... – digo mudando um pouco de assunto
- Oh! Já reparaste que estamos na mesma turma desde o sétimo ano e só agora é que reparo que tens olhos azuis?
- Mas não é nada de importante...
- É sim, nunca vi uns olhos de um tom como os teus, são mesmo lindos...
Já tinha voltado ao estado normal mas ela não me dera hipótese de recompor, voltei a corar...
Falámos de tudo um pouco enquanto comíamos os gelados, da minha família de como era ter uma dentista em casa e um contabilista.
- Então é por isso que tiras tão boas notas a matemática!
Depois a conversa mudou para o lado dela, perguntei-lhe o que a mãe fazia e se era tão chata como a minha! Parecendo uma pergunta como as outras, ela fica cabisbaixa e começa a rodar a taça do gelado.
- Disse alguma coisa de errado?
- Não...não... Isto é... Hugo nós nunca fomos grandes confidentes mas revelaste-te um grande amigo e um verdadeiro ouvinte... Eu vou-te contar uma coisa que eu não conto a toda a gente, a nossa turma não sabe...
- Se não me quiseres contar estás à vontade...
- Não... És um verdadeiro amigo e eu não quero ter segredos para contigo e também está na hora de eu superar isto...
Engulo em seco outra vez... Estava mesmo a ver o que ela ia dizer, que a mãe estava doente ou algo assim, e que tem que tratar dela...
- A minha mãe morreu quando eu vim para aqui para o sétimo ano.
Acho que deixei descair o queixo. A menina alegre, com um sorriso que irradiava luz escondia um segredo que ninguém imaginara que existisse...
- Não sei o que dizer...
- Então não digas nada... Hugo, eu nunca contei isto a ninguém, pelo menos da nossa turma, não quero que sintam pena de mim, que olhem para mim de maneira diferente, percebes? Só há dois anos é que disse para mim própria: Tens que te recompor e voltarás a rir, outra vez! Eu tinha que me fazer de forte com o meu pai...
- Eu percebo, não precisas de dizer mais nada.
E ficámos assim, a olhar um para o outro calados, levantámo-nos calados e sentámo-nos nas pedras trabalhadas em direcção ao pôr-do-sol, calados. Sentámo-nos um ao lado do outro a olhar para o horizonte mas o horizonte não era tão lindo quanto ela, ela olhava nostálgica e melancólica para a paisagem e eu...olhava nostálgico e melancólico para ela, ela tinha desabafado comigo o grande segredo dela, éramos melhores amigos.
Sem dar por isso o Sol começa a pôr-se e o cor de laranja tomou conta de nós, tudo parou no Jardim para ver o espectáculo que todos os dias àquela hora se repetia mas ninguém se fartava de o ver, sentia-me livre... Sentia que podia voar por aquelas planícies e dizer que a amo.
- Obrigada por me ouvires. – disse ela enrolando o seu braço no meu pescoço e abraçando-me com força
Senti o calor outra vez, o perfume outra vez... Abri os olhos e aí reparo que ela estava vestida com um top branco, sem costas, e de jeans escuros, reparei que tinha a minha mão nas costas dela. Senti tocar os meus dedos na pele morena e macia, a passar pelos cabelos lisos.
- Não tens nada que agradecer. – digo por fim
- Sabes, - disse ela separando-se e olhando para mim séria – és diferente dos outros rapazes...
Ri-me.
- De que te ris?
- O Pedro diz a mesma coisa... Mas porque dizes isso?
- Não és como os outros, os outros teriam tentado alguma coisa, teriam tentado algo mais, mas tu não, és um verdadeiro amigo, daqueles que não se encontra facilmente.
- Eu nunca me aproveitaria de ti...
Ela sorriu e beijo-me com força na testa.
- Já é tarde, tenho que ir para casa ou o meu pai começa a telefonar para todos os hospitais. – disse, rindo-se
Sorri para ela. Nesse preciso momento me apercebi que ela merecia muito mais do que eu...
Levei-a a casa, de boa disposição rimo-nos por tudo e por nada, parecíamos dois maluquinhos, a passear na rua e a rirmo-nos das piadas um do outro. Chegámos por fim à porta verde escura, com a fechadura de bronze onde lá cabia a mais pequena das chaves.
- Até amanhã. – dissemos em coro
Vi-a entrar pela porta e a despedir-se com um aceno. Agora seria tudo diferente, agora éramos amigos.
No dia seguinte voltámos para a escola, o Pedro parecia uma alcoviteira querendo saber tudo mas tinha que lhe contar aos poucos porque agora...
- Olá rapazes!
- Olá! – disse Pedro surpreso
- Hugo conta aquela piada que contaste ontem! Queria contar ao meu pai mas já não me lembrava do princípio. – disse fazendo uma careta
Contei a anedota e ficámos ali os três a contar piadas que quem passasse dizia que não tinha graça nenhuma... Desde aí ela vinha sempre para ao pé de nós nos intervalos e quando as aulas eram por turnos, quando o Pedro ficava no segundo turno e nós no primeiro sentávamos um ao lado do outro, a rirmo-nos do que a professora dizia e da forma de como dizia, isto é, tinha sotaque alentejano.
O ano inteiro juntos ora a conversar ora calados, sabíamos perfeitamente quando um estava triste, chegávamos até a terminar as frases um do outro!
- Até parecem almas gémeas... – dizia Pedro em tom irónico
- Não vais fazer de menina, pois não?
- Fazer de menina, eu?! Porque dizes isso?
- Estás ciumento, é?
- Estás com umas piadas... – dizia ele rindo-se
Chegámos a ser chamados: os três mosqueteiros! Ríamo-nos sempre que diziam tal coisa.
Foi muito divertido este ano lectivo mas chegara ao fim, e apesar de estudar com afinco havia notas a melhorar...
- Hugo já sabes o que vais fazer? – perguntava-me ela vendo as notas
- Sim: Ciências e Inglês.
- Ah!
- O que foi?
- Também tenho que fazer a Ciências mas a outra vou fazer a Matemática. – rindo-se – Achas que me podias ajudar com a Matemática? E depois eu compensava-te ajudando em Inglês...
- Uma boa troca...
- E depois estudávamos os dois a Ciências...
- Se quiseres...
- Olha, o Pedro não vai fazer melhorias?
Ri-me, Pedro ia passar um mês inteiro em França, ficou delirante quando a tia o convidou para ir um mês e ainda a ajudar na fábrica!
- Olha ele vem aí, pergunta-lhe... – digo rindo-me
Ela desconfiada pergunta ao Pedro.
- Pedro, porque é que não vais fazer melhorias?
- Ah! Chocolate, minha amiga, chocolate! Este ano vou mais cedo para França e vou ficar lá um mês! E ainda vou ajudar a minha tia na fábrica!
- Só podia ser... Então vê lá se trazes chocolates para dividir!
- Vou pensar no vosso caso... – disse fazendo ar de pensativo – Vim-me despedir de vocês, o meu voo é amanhã.
- Boa viagem, Pedro. – disse ela dando-lhe dois grandes beijos na face
- Boa viagem, amigo. – disse dando um abraço
- Não fiques ciumento... – disse em surdina no meu ouvido
Vimo-lo a afastar-se a ir em direcção ao carro da mãe, mais feliz não podia ficar.
- Queres começar a estudar? – disse ela com ar de determinação
- Pode ser, começamos por onde?
- Pode ser Matemática? É o primeiro...
- Está bem, se quiseres podemos ir para minha casa estudar, depois se ainda continuares com dúvidas perguntas ao meu pai.
- Hum... Dois explicadores, melhor não podia ser! – disse rindo-se, semicerrando os olhos, mesmo assim mostravam o seu esplendor – Agora se não te importares íamos a minha casa primeiro buscar os livros...
- Está bem!
Fomos então para casa dela, imaginando pelo caminho o Pedro numa fábrica de chocolate, ríamo-nos que nem perdidos...
- Anda! - dizia ela segurando na porta verde escura
- Tens a certeza? – pergunto em tom sério
- Se não tivesse não te convidava... – disse com um sorriso
Então entrei e olhei para a casa mais organizada que já tinha visto...
- Está muito bem arrumada não é?
- É! – digo com ar espantado
- O meu pai é muito perfeccionista.
Tinha um pequeno hall à entrada, com umas caixas de música de madeira escura, pequenas mas muito bem feitas e com fotografias, dela e com a mãe. Ela era muito parecida com a mãe, os mesmos olhos, o mesmo tom de pele, só o cabelo era diferente, o da mãe era encaracolado e o dela era liso.
- A única coisa que herdei do meu pai foi o cabelo. – disse rindo-se, apercebendo-se que eu estava a olhar para a fotografia
- Era muito bonita a tua mãe.
- Pois era... Mas anda lá, vou-te mostrar a casa...
Passamos então pelo pequeno hall onde nas suas paredes estavam penduradas máscaras de pau-preto.
- O meu pai esteve em Moçambique. – dizia ela apontando para um grande mapa feito de pele, que indicava um dos continentes: África
Entrámos então numa sala, cheia de cultura africana, tinha manuscritos emoldurados, estátuas de girafas da altura dela, era muito acolhedora, com cores quentes... Então daí fomos para o quarto dela, era totalmente diferente do resto da casa.
- A minha mãe diz que em pequena gostava muito das camas assim...
Ela tinha uma cama em dossel com cortinas cor-de-rosa e uma colcha da mesma cor, que se percebia que tinham sido feitas à mão. Tinha um armário embutido na parede, uma secretária de madeira preta e uma estante cheia de livros.
- Eu já sabia que eras doida por leitura... Mas isto é um exagero – digo rindo-me, olhando para a estante que ocupava uma parede inteira!
Ela ria-se, enquanto que procurava os livros no meio daquele mundo da literatura. Até que os meus olhos se pousaram numa caixa de música de madeira clara, completamente diferente da madeira utilizada na casa toda. Inclino-me e reparo no pormenor do tampo da caixa, feito à mão, uma árvore gigantesca ocupava o tampo da caixa de música.
- Estas caixas ainda se fazem?
- Não... – respondeu ela sentando-se na cama – Senta-te aqui.
Sentei-me ao lado dela, a olhar para a caixa de música e para os seus olhos a brilhar de uma maneira que eu nunca vi.
- Esta caixa de música foi da minha mãe, e ela ofereceu-ma antes de morrer... A minha mãe viajava muito e foi por isso que ela conheceu o meu pai, por ter ido para Moçambique visitar uma terra de colonos, mas esta caixa veio da Rússia, onde existe uma vasta produção delas, mas esta a minha mãe viu-a fazer. Diz que foi um artesão de lá que estava muito doente e ela curou, que lhe mostrou o segredo das caixas de música. Mas é claro, o homem já estava velho e acabou por morrer...
- Então e o segredo?
- A minha mãe contou-mo. Não reparaste nas caixas do hall?
- Sim, são pequenas mas muito bonitas.
- Fui eu que as fiz... Quando a minha mãe morreu fiz uma porção delas...
Calámo-nos, ficámos em pleno silêncio...
Até que ela levanta a cabeça e olha para mim deixando cair uma pequena lágrima na sua face morena e... Ela inclina-se para a frente fechando os olhos verdes e tocando com os seus lábios nos meus. Beijámo-nos, deitados na cama... Desajeitado não sabia o que fazer, só sabia que a tinha nos meus braços, a beijar-me, a enrolar a sua língua na minha, a passar a sua mão no meu cabelo, eu apenas tinha as minhas mãos na sua cinta, nos jeans escuros que ela tanto gostava...
- Isto é errado! – disse ela bruscamente – Desculpa, Hugo... Desculpa...
E começa a chorar... Colocando as mãos morenas na cara e começa a chorar... Então eu pego numa das suas mãos, tiro-a da sua face e ela pára de chorar. Limpo com o meu polegar as suas lágrimas, olho seriamente para ela...
- Não tens que pedir desculpa. – digo passando a mão numa madeixa do seu cabelo
- Tenho sim! – dizia ela soluçando – Eu não te quero perder...
- E não me perdes... Podemos continuar a ser amigos e apagar este momento...
Eu nem acreditava do que eu estava a dizer, aquilo ficaria marcado para sempre na minha memória mas se não fingisse que tinha apagado este maravilhoso momento da minha memória, ela podia deixar de ser minha amiga, e isso é a minha única consolação...
- Farias isso? Por mim?
E muito mais...
- Sim...
Nesse momento nasce um sorriso naquela face onde as lágrimas reinavam, era quase como um arco-íris... Ela abraça-me com muita força e ficámos assim um tempo, calados a sentir o calor um do outro.
Dirigimo-nos para minha casa a falar de trivialidades, tinha que parecer que aquele momento nunca tinha acontecido, pelo menos para ela.
Subimos as minhas escadas e entrámos, dirigimo-nos para a sala de jantar e abancamos aí montando a tenda de livros. Expliquei o melhor que podia, pelo menos naquela situação...
Passou-se o exame de Matemática, ao qual ela tirou dezassete, passou-se o exame de Inglês, ao qual eu tirei dezoito.
- Estou mesmo contente e orgulhosa de ti! – dizia ela vendo a minha nota do exame
- Tu também te portaste muito bem! – digo apontando a nota dela de Matemática
Ela vê e abraça-me, nunca conseguia fartar dos abraços dela, eram calorosos e também porque agora seriam muito mais especiais. Depois do acontecimento, evitávamos de nos tocar, e esta era a primeira vez desde o acontecimento que nos abraçávamos.
Depois destes dois exames, agora era o de Ciências, estudámos todos os dias e com muito afinco mas com brincadeiras pelo meio, nunca parávamos de rir, mas também passávamos muito tempo calados, quase que a transmitir por telepatia tudo aquilo que estávamos a pensar...
Finalmente era o dia de ver a nota do exame, estávamos os dois nervosos, eu com as mãos suadas, ela a roer as unhas. Finalmente, devagarinho chegámos ao placar das notas e procurámos os nossos nomes.
- Então? – disse ela tapando os olhos com as mãos – Quanto é que eu tirei?
- Oh meu Deus! – digo para a assustar
- O que foi?! – Responde ela afastando as mãos a olhar para a minha cara
- Tiraste... Dezanove!
Ela gritou de alegria, saltou, agarrou-se a mim de felicidade.
- E tu? – perguntando ela, parando o festim e olhando seriamente para mim
- Dezassete!
E recomeça o festim, levando-nos para o café do Jardim para festejar, tinha sido um tempo duro de estudo mas conseguimos tirar o maior proveito, apesar das brincadeiras pelo meio. Comemos o gelado com gosto, era quase que como comemorar a liberdade... Férias!
Mas dum momento para o outro, ela cala-se, eu respeitava sempre o silêncio dela mas desta vez ela queria dizer alguma coisa.
- O que tens?
- Tenho que te contar uma coisa... Soube disto anteontem de manhã...
- O que é? – disse preocupado
Silêncio... Neste momento a única coisa que queria era o silêncio dela! Não aguentava este suspense, o que se passaria de mal?
Dirigimo-nos então para o local onde ela me abraçou pela primeira vez, vendo o pôr-do-sol... Ela senta-se, olha para mim com aqueles olhos verdes, brilhantes e sinceros... Eles mostravam tristeza...
- Eu vou mudar-me para o Algarve.
O quê? Para a outra ponta do país? O meu coração parou...
- Eu queria contar-te mais cedo, mas não sabia como fazê-lo... Hugo... Vou ao fim da tarde...
- Embora? – digo eu completando
Não era possível... Se me pedissem para descrever o que sentia neste momento eu não teria palavras, era como se uma parte de mim partisse...para sempre...
- Sim... Eu sei que não tenho o direito de te pedir isto mas... Vens despedir-te de mim?
- Claro que sim... Tu sabes que sim...
Ficámos em silêncio outra vez, levei-a a casa, em silêncio, cheguei a casa, em silêncio... Apático sentei-me na cama e coloco as mãos nas minhas faces... Só me apetece chorar, chorar pelo que vou perder, chorar por aquilo que nunca mais vou ter ao meu lado... Apenas chorar... Mas nem uma gota saía dos meus olhos...
Fiquei assim, perdendo o sentido do tempo, até que vi o meu despertador: 18:30, apontava ele... Daqui a minutos estaria ela na central de camionagem, mas não ia ficar ali assim por mais apático que estivesse, por mais deprimido, por mais raiva que tivesse com a vida eu, Hugo Vilela ia fazer um último esforço de estar com ela... Despedir-me dela, isto é, deixá-la ir... Corri para a central de camionagem, ela iria sozinha porque o pai já tinha ido de manhã para tratar da casa, mais um esforço...
Encontrei-a sozinha a olhar para todos os lados como se estivesse à procura de alguém, eu podia sentir-me privilegiado por ser a pessoa que ela anda à procura mas não...
- Hugo... – disse acenando – Já estava a pensar que não vinhas...
- Eu disse que vinha...
- Eu sei... – respondeu agarrando nas minhas mãos – Hugo, basta dizeres uma palavra para eu ficar, eu posso pedir para ficar... Hugo, basta dizeres!
Senti esperança outra vez... Mas tinha que a deixar ir...
- Não tenho nada que dizer...
- Hugo! – disse desesperada – Basta dizeres uma palavra...
- Já disse, não tenho nada que dizer... Tu tens que ir... – disse apontando para o camionista que já começava a avisar que estava na hora de partida.
Então ela dá um passo em frente, agarrando a minha cara com as suas mãos macias e angelicais.
- Estarás sempre no meu coração, Hugo... – disse, ao meu ouvido, dando-me um beijo na testa, demorado...
- Boa viagem e escreve-me por favor...
- É o que eu farei...
Então vejo-a a afastar-se triste e sozinha, na imensidão de pessoas a despedirem-se, mesmo no meio daquela multidão eu senti-me só e desamparado. E então o autocarro começa a andar, vejo-a na janela, a olhar para mim...
- Amo-te, Carina. – digo deixando cair uma lágrima na minha face."



Ok, eu orgulho-me mesmo muito desta obra, para falar verdade é mesmo a melhor delas todas em termos de escrita.
Sim, eu sei, a história é triste mas a vida real também. Pelo menos não morre ninguém... Ah! Espera, morre a tia da Carina.
Devo ter escrito este romance no meu 11º ano, que foi quando deixei de escrever por falta de inspiração e/ou de temas. E agora que me chatearam tanto para continuar este romance que vos vou fazer a vontade, ando agora é numa de pesquisar ideias (já tenho algumas).
Mas falta fazer a derradeira pergunta: querem que morra quem?
Fica ao vosso critério...


Um beijinho especial a todos que me apoiam e incentivam a escrever. Um obrigada pela vossa paciência (sim, eu sei que os meus romances são, literalmente, uma seca...) e pelo vosso carinho nos vossos comentários. Muito obrigada!



Quarta-feira, Abril 18, 2007

Esperança


"Era de manhã, estava deitada naquela cama desconfortável e não me lembrava de nada. Estava rodeada de máquinas e de uma, que em particular, fazia um “bip” estridente.
Uma senhora, muito bonita, com cabelo loiro a cair-lhe pelas costas, pele branca como a neve e olhos azuis como água cristalina, encontrava-se ao lado da minha cama, que observa atentamente o saco do soro.
- Já se sente melhor? – Perguntou a voz doce.
- Não sei... Onde estou?
- Está no hospital. A sua família disse que caiu nas escadas e depois ficou inconsciente. Não se preocupe, descanse...
Não sei quanto tempo estive a olhar para o tecto amarelado, com buraquinhos que pareciam a Ursa Maior, para o quarto estreito mas perfeito para uma cama de doente e algumas máquinas. Até que a minha família chegou e viu que já me encontrava acordada e lúcida.
- Dulce estás melhor?
- Não me lembro de nada... A enfermeira disse que tinha caído nas escadas lá de casa...
- Sim... Escorregaste nas escadas molhadas e bateste com a cabeça no chão.
- Isso explica as dores de cabeça e as ligaduras.
- Mas tu não te lembras de nada?
- Não, de nada, mesmo...
- Desculpe... – disse a voz doce da enfermeira – tem que sair para a menina Dulce descansar. Ainda está muito debilitada.
- Nós voltamos. – e dizendo isto a minha mãe dá-me um grande beijo na bochecha, sendo este o único sítio que não tinha ligaduras.
Passei novamente, aquilo que me pareceu, bastante tempo a olhar para o tecto e a olhar para o movimento imparável do hospital.
Mais tarde chega uma senhora bastante gorda que me trouxe o jantar, um frango raquítico com umas batatas ensopadas, em óleo. Não me dava grande vontade de comer mas fiz um esforço porque não queria passar muito tempo naquele hospital de cheiro duvidoso.
À hora de deitar, a enfermeira loira foi ao meu quarto para perguntar se estava melhor e para me dar um comprimido para dormir. Na verdade não precisava de comprimidos nenhuns para adormecer porque estava bastante cansada, e o que não me faltava era sono.
A minha primeira noite no hospital até foi bastante pacífica, se calhar por causa do comprimido para dormir mas o que custava mais a passar eram os dias, sem fazer nada e sem me poder mexer, ficava deitada na cama desconfortável os dias e as noites.
As minhas visitas eram poucas, apesar do meu tédio, não queria muitas. A minha família vinha visitar-me ao fim da tarde e a enfermeira vinha de três em três em horas perguntar se me doía muito a cabeça.
Tive que ser remetida a uma cirurgia. Foi a minha primeira cirurgia e nem estava em pânico! Logo eu que tenho pavor a cirurgias, acho que parecia um vegetal, não pensava, não agia...
Num daqueles dias em branco vi passar uma maca ensanguentada e por cima dos lençóis podia observar um bisturi. Nesse momento acordei para a realidade... No meio daquele espectáculo ensanguentado a seguir vieram os seguranças, do hospital, que transportavam um cadáver dentro dum saco azul claro mas para um cadáver adulto era um saco relativamente pequeno. Queria perguntar à enfermeira o que se tinha passado mas ninguém falava, ninguém queria mencionar nada, e até a enfermeira loira deixou de vir ao meu quarto. Nessa noite veio uma enfermeira alta e esguia com cabelo oleoso, com pés de galinha, perguntar-me, com uma voz afónica, se estava bem.
- Desculpe, – digo, antes que ela virasse rumo ao emaranhado de doentes nos outros quartos – o que se passou de tarde? O que levava aquele saco azul?
- Oh, menina! Uma criança morreu... Parece que uma enfermeira estagiária deixou um bisturi no quarto da criança e a mesma pôs-se a brincar com ele até que se cortou...até que... – e nisto desatou a chorar e desatou a correr deixando o pranto desaparecer à medida que ela ia-se afastando.
A pediatria era a pouca distância do meu quarto. Quando me senti com forças para andar fui ver a pediatria.
Mal entrei pelas portas automáticas, entrei numa harmonia mórbida. Desenhos de personagens sorridentes estavam colocados nas paredes amarelas, umas a correr, umas a desenhar... Até que senti uma mão vigorosa no meu ombro...
- Olhe que não pode estar aqui.
Ao virar-me pude observar a pessoa mais maravilhosa e o ser mais perfeito. Era um médico, provavelmente um pediatra, com um nariz de palhaço colocado no bolso da bata. Era alto, entroncado, de olhos negros e de cabelos pretos, desalinhados... A sua mão transmitia calor e os seus olhos bondade. Naquele momento a minha vida preencheu-se e voltei a despertar para ela.
Ele também ficou a observar-me mas só podia estar a observar o meu degradante estado.
- Veio visitar alguém? – perguntou na sua voz sensual.
- N-não – gaguejei – Vim ver a pediatria.
- Ainda bem... – Agarrou no meu braço como verdadeiro cavalheiro, ou se calhar com medo que caísse, e encaminhou-me para uma sala com várias crianças a pintar, a jogar e outras a ver TV.
- Meninos! Eu não vos disse que salvaria a dama... – sussurrando-me ao ouvido – Qual é o seu nome?
- Dulce – no mesmo tom de voz.
- A dama Dulce? – As crianças começaram aos gritos e aos pulos, como se duma vitória se tratasse, o médico sentou-me numa cadeira e começa a falar e a gesticular o meu salvamento dum suposto dragão de três cabeças. Era bastante engraçado e tinha um jeito para crianças que só visto. Demonstrava o tamanho do dragão fazendo uma corcunda, rugia como tal e muitas das vezes perguntava-me se era verdade ou não o que estava a dizer, eu para não estragar aquele espectáculo de donzelas salvas por cavaleiros acenava com a cabeça e ria-me para aquele rosto brilhante. Até que uma enfermeira teve que chamar as crianças para ir jantar e ouviu-se um “Ohhh!” colectivo.
Deixou todas as crianças saírem e nisso sentou-se a meu lado numa cadeira para crianças e, como é de esperar, ficou muito mais baixo.
- Tem muito jeito.
- Obrigada! – mostrando-me um sorriso, inclinando a cabeça exageradamente – tem que ser, estas crianças merecem o melhor.
- É pediatra?
- Hei-de ser... Sou estagiário, só trato de papelada. Por isso é que tenho tempo para estes “salvamentos”. Por acaso salvou-me de boa, porque nenhuma enfermeira estava disponível.
- Então como se chama o meu cavaleiro? – disse em tom de brincadeira.
- Jaime – respondeu, levantando-se, fazendo uma vénia e pegando na minha mão, beijando-a.
Levou-me ao meu quarto e despediu-se com outro beijo na mão, o que me levou a uma gargalhada.
Fiquei a pensar sobre esse médico muito tempo, muito mais tempo que passei a admirar os buracos do tecto. Ficava a pensar no seu cabelo preto desalinhado mas brilhante, nos seus olhos negros de bondade, na sua voz sensual e nas suas mãos que transmitiam um calor pouco normal.
Desde aquele dia fui todos os dias, depois do almoço, àquela sala cheia de brinquedos, desenhos e sonhos. Eu sabia que era um pretexto para ver, o encantador, Jaime e conversar com ele, pelo menos aquele tempo em que as crianças iam jantar e ficávamos a arrumar os brinquedos e os desenhos. Mas hoje estou particularmente, triste porque fui submetida a mais uma cirurgia e agora não consigo pensar, quanto mais andar e fazer de conta que sou uma donzela em perigo, mas o mais triste...é eu não poder ver o Jaime.
Naqueles bocados de conversa pude saber que é da minha idade, sempre quis ser pediatra mas nem sempre teve notas para tal. Acabou por frequentar, dois anos, uma academia de teatro. E tudo pelas crianças! Ele é um querido...
- Boa tarde! – disse uma voz sensual, muito familiar, que sibilava nos meus ouvidos como notas musicais.
- Olá! – respondo com o meu melhor sorriso – Que fazes aqui?
- Pediram-me que viesse resgatar uma donzela dum dragão muito, muito furioso.
- Pois... – tinha esperança que ele dissesse que veio para ver-me... – Hoje não pode ser, fui submetida a uma cirurgia e mal consigo andar. Desculpa Jaime.
- Não peças Dulce! Então hoje o cavaleiro pousa a sua espada e fica com a sua donzela.
Não queria que aquela tarde acabasse, sentia-me, finalmente, feliz e completa. Sentia que me tinha apaixonado, eu sentia-o no meu coração! Só queria beijar aqueles lábios suaves e doces que tinham beijado a minha mão direita.
- Tenho que ir...
- Oh! Está bem. Olha, acho que não posso ir amanhã, a enfermeira disse que tinha de descansar. Não disse nada de verdadeiro, queria ver a reacção dele, por muito que me custasse.
- Então eu venho visitar-te, a não ser que não queiras, é claro!
- Podes vir, adorava! – E nisto dá-me um beijo na testa, o que resultou num suspiro e num arrepio, pela minha parte.
- Então está prometido!
Passei toda a noite e toda a manhã, do dia seguinte, à espera que ele chegasse para voltar, simplesmente, a vê-lo.
Nunca me tinha apaixonado assim... Tive muitos namorados mas todos eles ao fim de pouco tempo aborreciam-me, não é que não gostasse deles, mas nenhum me moveu o coração para o paraíso como o Jaime fez e faz!
Ao fim de muito tempo à espera, ele chega ao meu quarto, sem a bata de médico apenas com uma camisa aos quadrados azuis largos, uns jeans escuros e umas sapatilhas brancas. E com uma rosa vermelha, ainda com uma gota de orvalho na pétala superior, e com um cartão de melhoras, que tinha em letras garrafais: “Espero que melhores depressa!”, na frente do cartão.
- Olá Dulce!
- Já começava a achar que ias faltar à tua promessa.
- Achas mesmo que sim? Era incapaz de ficar um dia sem te ver! – Nunca pensei que ele fosse dizer tais palavras, fiquei corada dos pés á cabeça! – Toma... – estendendo-me a rosa vermelha e o cartão – desculpa ser só uma...
- È linda! Obrigada Jaime, mas não precisavas... – pousando a rosa e o cartão na mesa, desajeitada e velha, que se encontrava ao lado da minha cama.
- E como estás?
- Estou melhor. E as crianças?
- Estão à espera da sua donzela – disse, puxando a cadeira verde, que se encontrava contra a parede amarela, sentando-se nela – Por acaso têm perguntado muito por ti.
- Eu também tenho pensado muito neles. Pedi à minha irmã que trouxesse caixas de chocolates.
- Vão ficar radiantes! – Disse, com os olhos brilhantes.
- Eu imaginei isso. – Completando com um sorriso.
- Dulce... Eu queria pedir-te uma coisa... Não é pedir, é mais perguntar... Mas eu entendo perfeitamente se rejeitares...
- Como podes disser isso se ainda não me perguntaste? Força Jaime! – Não sei se estas palavras o incentivaram, para ele fazer a pergunta. Ele respirou fundo e abriu a boca mas gaguejava tanto que não percebi o que estava a dizer.
- Jaime, desculpa mas eu não percebi a pergunta... Tem calma...
- Dulce queres namorar comigo?
Era a minha vez de gaguejar e sorrir. Talvez pelo meu sorriso ele tenha percebido a resposta e beijou-me.
- Desde que te vi pela primeira vez, não deixei de pensar em ti, parece que te conheço desde sempre!
- Eu também. Senti logo que eras especial.
Nunca fui tão feliz a beijar o homem que adorava. Ele a tocar no meu cabelo encaracolado, descendo para o meu pescoço, a beijar-me... Juntava os seus lábios contra os meus num carinho, tipicamente dele, e numa sensualidade que só ele me fazia sentir.
- Adoro-te! – Disse
- Adoro-te? – Perguntou com tristeza
- Er... Sim, o que tem?
- Pensei que me amavas...
- Talvez...eu sinto que és a pessoa, com que eu quero ficar para toda a minha vida. Mas se tu não sentires o mesmo eu queria que ao menos ficássemos amigos. Perdíamos um namorado mas continuávamos amigos. Não queria estragar essa palavra tão bonita que agora está a ser abusada, não achas? Dá um tempo...
- Tens razão... Temos muito tempo... – respondeu sorrindo.
Não pensei em mais nada, a não ser no Jaime. Nas vezes em que ele me dizia: “Minha doce, Dulce...”.
Não consegui dormir porque tinha umas dores, terríveis, nas costas, tão terríveis que tive de chamar a enfermeira. Carreguei no botão laranja que estava por cima da minha cama e a enfermeira chegou rapidamente.
- Diga, menina. – Disse a voz doce. Era a enfermeira loira, mas as palavras dela, agora, saíam como veneno, tinha um tom cínico.
- Não consigo dormir por causa das dores de costas.
- Vou chamar o médico – disse, rispidamente, como se cuspisse a compaixão.
Passado um bocado, que para mim me pareceu uma eternidade, chegou o médico e entrou pela porta sorrindo.
- Então menina Dulce, não consegue dormir porquê? – Era um médico baixo, com umas mãos vigorosas e cheias de rugas do trabalho. Tinha os olhos pequeninos e tinha também uma barba, rija, castanha clara, como o seu cabelo. Apesar desta descrição, era um médico muito bondoso e paciente.
- Pois não, dói-me as costas.
- Deve ser alguma mazela da sua queda, que está a dar de si agora. Não deve ser nada de grave. Levante-se, por favor. – Ajudou-me a levantar e com as suas mãos vigorosas, deu volta, ás minhas costas, à procura da tal mazela da queda. Apesar das palavras de consolo, de dizer constantemente que não era nada de grave, eu estava inquieta.
- Acho que reparei nisto antes nas radiografias – disse mexendo nas minhas costelas o que me fez soltar um grito de dor – mas não liguei nenhuma pois pensei que fosse voltar ao sítio com um pouco de descanso, normalmente volta. Daqui a pouco vai ser levada para tirar radiografias e depois vai ser operada.
Fiquei branca, de medo. Eu sabia que era operação arriscada, não precisava que nenhum médico me dissesse. Depois de ter ido tirar várias radiografias, deitei-me na minha cama, estreita e desconfortável, e comecei a chorar. Mas quando comecei a acalmar, olhei para a rosa e para o cartão que o Jaime me tinha oferecido. Tinha-me esquecido completamente de ler o cartão.
Abri-o com cuidado, como se fosse partir, e com os olhos cheios de lágrimas, li um poema que estava escrito, numa letra tipicamente de médico mas legível, que dizia:
“No matter what you do
No matter what you say
I will always love you
Like the very first day!”
Era a coisa mais linda que me tinham oferecido desde sempre.
- Dulce! – Disse uma voz ofegante.
- Jaime! – Respondi pousando o cartão e limpando as minhas lágrimas. Estava vestido, como se se tivesse vestido à pressa, fato de treino e sapatilhas. Estava a tremer mas apesar disso, quando chegou beijou-me, abraçou-me, sempre tremendo de frio.
- Minha doce, Dulce, porque estás a chorar?
- Vou ser operada, Jaime. Mas... O que é que estás aqui a fazer? Tens turno esta noite?
- Não, o doutor Ferreira é um grande amigo e pedi-lhe que quando houvesse algo de errado, me chamasse.
Parei de soluçar e acariciei a sua pele morena mas gélida. Como podia um rapaz gostar assim tanto de mim, como ele gosta? Eu não lhe tinha feito nada de extraordinário, apenas...apenas gostava dele.
- És doido.
- Sim... Por ti! Tens que descansar, Dulce.
- Não consigo. Tenho medo.
- Consegues sim! Eu fico aqui contigo.
Entretanto, o Jaime, deita-se a meu lado, na cama estreita e desconfortável, abraçou-me com os seus braços fortes, tentando não cair e não me perturbar. Acariciou a minha cara até eu adormecer no sossego dos seus braços e na calma da sua respiração.
De repente, sinto que me colocam numa maca ainda mais desconfortável e vejo uma enfermeira com o rosto desfocado a tirar uma seringa do meu braço, era a anestesia e já começava a sentir as pálpebras pesadas e a mente em branco.
A última coisa que me lembro de ver e ouvir era uma cara desfocada mas com um cabelo negro muito nítido, a dizer:”Eu vou estar contigo!”
Perdi a noção do tempo, depois da operação. Não sei quando acordei, não sei quanto tempo estive a dormir. Não conseguia distinguir as caras que me rodeavam e, ainda, tinha os olhos pesados, semicerrados.
Quando comecei a ter uma visão mais nítida, foi quando senti uma mão na meu braço, a acariciar-me. Era Jaime que tinha adormecido mas ainda a dormir acariciava-me.
Estava adormecido, no meu colo, com o seu cabelo desalinhado ainda mais desalinhado. Tentei sentar-me sem o acordar e comecei a acariciar aquele cabelo negro e aquela pele tão morena, tinha dois sinais pequeninos na bochecha direita e um na testa. Ao acariciá-lo apercebi-me que gostava muito dele e ele de mim, sabia duma certa forma que era para sempre.
Acabei, por ficar vidrada a olhar para aquele corpo sentado na cadeira verde, com a cabeça pousada nas minhas pernas e com a mão a acariciar o meu braço, até que chega a enfermeira, de cabelos loiros e olhos azuis, e começa aos gritos a dizer que o Jaime não podia estar ali, estes gritos, é claro, que acordaram o Jaime de sobressalto.
- Que estás a dizer, Cátia?
- Não podes estar aqui!
- Posso sim! E não és tu que me vais tirar daqui!
- Jaime, se não poderes estar aqui eu fico sozinha, não há problema... – digo antes que viessem os seguranças do hospital e o levassem.
- Não, Dulce. Eu posso ficar aqui. A Cátia é que fez confusão, não foi?
- Não, não fiz! Pensei que ainda... – e nisto engoliu em seco e com os olhos pasmados e cheios de lágrimas, retira-se do quarto. Como é óbvio, fiquei muito surpresa com aquele espectáculo, perguntei de imediato ao Jaime:
- O que se passou?
- A Cátia e eu namorámos. Mas isso já foi à 3 meses, pensei que ela já me tivesse esquecido. – Não sei se eram dos ciúmes ou de outra coisa qualquer mas fiquei bastante inquieta.
- Isso explica muita coisa.
Nos dias a seguir, ela não vinha para o meu quarto e se chamava uma enfermeira, a enfermeira, que vinha, era a de cabelo oleoso e com pés de galinha.
Passou-se uma semana e já estava muito melhor. Tive alta e nesse dia o Jaime levou-me a casa dele. Era um apartamento pequeno mas muito acolhedor, tinha uma sala com um sofá de cabedal preto, uma televisão e umas fotografias de família, colocadas em cima da lareira. O chão era flutuante e de madeira clara, as paredes eram brancas mas duma tinta suave e ainda com cheiro fresco. Ligada à sala estava a sala de jantar, com uma mesa de mogno escuro, que fazia contraste com o chão claro, que em cima tinha um gato preto, de porcelana, em cima do napron branco. Já só de observar a sala quase que podia jurar que tinha um toque feminino.
- Está muito arrumada, nem parece uma casa dum homem solteiro. – Disse em tom cómico.
- Lá isso é verdade, a minha mãe vem às vezes arrumá-la.
- Eu já imaginava. – Disse-lhe piscando-lhe o olho.
Passámos ao hall, onde no mesmo tinha um quadro, onde estava pintada uma janela, não era uma janela qualquer, tinha algo de...familiar. Fiquei ali especada, a admirar a janela de madeira branca mas que por fora tinha ferro verde e em baixo da mesma tinha um canteiro com vários malmequeres e com uma única margarida, a sobressair do branco. Tinha a certeza que aquela janela me era muito mas muito familiar. Aqueles ornamentos do ferro verde que no cimo da janela formava uma flor perfeita, aquela madeira branca e aquele canteiro...
- O que foi? Gostas do quadro? – Perguntou Jaime a ver que tinha ficado a observar o quadro.
- Sim, é muito bonito. Mas tem uma coisa...
- O quê?
- É-me familiar...
- Como assim? – Jaime ficou inquieto
- Acho que já vi essa janela em algum lugar.
- Não é possível, Dulce. Essa janela é duma grande amiga minha que morava na mesma aldeia que eu. Brincávamos juntos, chegámos a dar o primeiro beijo juntos. Pedi a um vizinho meu, lá na aldeia, que era pintor que pintasse a janela dela para eu a nunca esquecer.
- Então é uma janela especial. – Disse-lhe sorrindo, mas não deixava de ser uma janela familiar.
Seguimos para a cozinha, essa divisão era completamente branca. A mesa, os armários, o frigorífico, os azulejos, eram todos brancos, as únicas coisas que diferiam era o fogão e um quadro, gigante que quase ocupava a parede, duma couve. A cozinha tinha aspecto de ser pouco utilizada porque estava imaculada e cheirava a lavanda.
Passámos ao quarto dele, ai pude admirar uma cama de casal e um armário de mogno escuro, tal como a mesa da sala de jantar, mas...a cama era de casal...
- Eu fui comprar uma cama de casal no caso de quereres ficar. – Fiquei surpreendida com a proposta. Apesar de ainda a nossa relação estar em ramos verdes, eu decidi aceitar.
Nesse dia ficámos em casa, a conversar, a rir e a sussurrar os nossos sentimentos e no fim, estava cansada e ele decidiu deitar-me na cama grande de mogno escuro.
Ainda não estava segura de dormir com ele, apesar de gostar muito dele e acho que ele apercebeu-se disso porque nessa noite ele foi dormir no sofá, isto porque eu quando acordei não o vi a meu lado e fui vasculhar a casa à sua procura, encontrando-o no sofá com um saco cama azul escuro colocado por cima. Estive ali com a cabeça dele, colocada no meu colo com muito carinho e cuidado para não o acordar, a passar-lhe a mão pela testa e, inutilmente, pentear o seu cabelo, desalinhado, com as mãos.
Quando acordou, fomos tomar o pequeno-almoço a uma pastelaria, que tinha na entrada um placar de louça que dizia: “Pão quente e bolos fresquinhos”, com uma letra primária. Tomámos um café quente e um bolo, delicioso, que tinha creme melado por dentro e que se derretia suavemente na boca, deixando um sabor único a confeitaria.
Esse dia passou rápido, fomos passear no parque, cheio de crianças alegres a saltar para a areia seguidas das mães galinhas a gritar para não se sujarem, cheio de árvores majestosas que ofereciam às pessoas que se sentavam nos bancos de madeira, uma fresca sombra. De seguida, fomos ver o mar e ver o sol banhar-se naquela água gélida. Havia cores quentes no ar e uma leve brisa marítima que nos acariciava. Sentia-me, completamente, feliz...
Quando já não suportávamos o frio do mar, regressámos a casa para um duche rápido e dormir.
Tinha estado o caminho todo, de regresso a casa, a pensar se devia dormir com o Jaime mas não cheguei a nenhuma conclusão.
Depois de tomarmos um banho quente, sentámo-nos no sofá a rir e a ver filmes. Até que começámo-nos a beijar intensamente, ele a acariciar-me, cada vez mais, o meu corpo. Pegou em mim, levantando-me e ainda com o mesmo fugaz tirámos as roupas um ao outro e caímos emaranhados, um no outro, na cama grande.
Fizemos amor, mais apaixonados que nunca! O Jaime acariciava-me a cintura à medida que ficávamos ainda mais unidos.
Dormimos o sono dos justos, agarrados...a respirar o odor do amor e a sentir, juntos, a frescura dos lençóis brancos.
Foi a melhor noite da minha vida.
No dia seguinte sentia-me como se tivesse renascido, como se a vida tivesse outro sentido, como se eu pudesse morrer ali e agora, porque morria feliz, mas como dizia a minha avó: “Tem cuidado com aquilo que desejas.”
Fomos ao hospital porque eu me senti muito mal, quase que não conseguia respirar. O Jaime não se separou de mim nem um minuto e estava sempre a perguntar como estava e se precisava de alguma coisa.
Mas no entretanto de ser chamada para a consulta recordo-me vagamente da janela...
- Jaime! – Grito num sobressalto.
- O que foi Dulce? Estás pior? Que precisas?
- Eu estou bem... Mas já me lembro de onde conheço a janela...
- De onde? – Perguntou surpreendido.
- Da casa da minha avó na aldeia... É por isso que sentimos que nos conhecemos desde sempre!
- Foi contigo que dei o meu primeiro beijo, foi por ti que esperei verões inteiros...
- Oh, Jaime! – Digo, abraçando-o com força... Era ele o rapaz de calções azuis e camisa branca de cheiro a lavanda, que corria comigo todos os verões no largo do rio e naquela terra que cheirava constantemente a húmido.
Mas nesse momento, tenho uma tontura muito grande e caio no chão de azulejos amarelos e sujos do hospital.



Sempre a amei, desde o primeiro momento em que a vi no hospital, sem saber que a amava desde pequeno.
Sinto muito a sua falta. Sinto muita falta do seu calor, das suas carícias, dos seus olhos verdes e do seu cabelo ruivo. Foi por aquelas sardas de menina que me apaixonei e é por elas que suspiro, ainda, hoje.
Desde aquele dia em que ela caiu no chão, imundo, do hospital que tive um medo muito, maior, de a perder. Sentia que a podia perder a qualquer momento, mas não foi assim...
Esteve em coma... onze meses, para ser preciso. Os médicos dizem que foi uma imprecisão da cirurgia feita quando ela tinha caído das escadas. E no meio desses 10 meses, houve apenas uma única alegria, a minha filha Beatriz.
Depois de 2 meses, em coma, os médicos descobriram que ela estava grávida.
Sabiam que era uma gravidez possível mas que era um parto difícil, poderia perder a Dulce para sempre, mas ela ainda conseguiu aguentar-se mais algum tempo, para estar com a filha, embora em coma.
A Beatriz é linda, tem os olhos, o calor e, o mais importante, o sorriso da mãe.
Agradeço muitas vezes a Deus, em segredo, por me ter presenteado com a Beatriz."





Esta história tão amorosa aconteceu realmente... Uma mulher nos Estados Unidos em coma levou a sua gravidez ao fim porém morreu no parto. Mas a criança ainda hoje vive!
Lá pelo meio deste romance estão um pouco das minhas indecisões pessoais (com bastante eufemismo em cima) mas quem é que não pensou exageradamente num assunto?
Embora...há uma coisa. Vocês podem pensar: Mas que amor relâmpago!
Nunca vos aconteceu conhecerem uma pessoa e acharem que a conhecem desde pequenos? Sentirem que se conhecem desde sempre?