18 de agosto de 2016

Esta é a nossa história e o caminho dele...


Já não é a primeira vez que tenho a ideia de escrever sobre este assunto em particular... mas talvez porque sentia que não era minha história para contar, fui sempre deixando de lado. Até que li o fantástico post da Há Pêssegos na Lua, que me deu o empurrão necessário.

O meu irmão tem dislexia. 

Acho que nos dias de hoje toda a gente sabe ou pelo menos tem uma ideia do que é a dislexia, por isso não vos vou maçar com definições, contudo, quando o meu irmão foi para a primeira classe não havia tanta informação, isto é, há quase 20 anos atrás...

Por isso, obviamente que o puto teve problemas quando foi para aprender a ler. Ele sabia as letras, sabia os números todos mas ler, está quieto. Tendo em conta que a professora dele era uma recém-licenciada seria de esperar que estivesse mais susceptível a estes casos. Não, meus caros... porque as crianças conseguem ser cruéis mas os adultos são bem piores. Não contente com o facto de obviamente o meu irmão ter dificuldade em ler pois em todo o resto, ou se lhe lesse as perguntas, ele sabia tudo e mais alguma coisa. Ela fazia questão de, na aula, em frente aos coleguinhas dele, de dizer que só não sabia ler quem é burro, entre outras coisas deploráveis que não se devia dizer a um adulto, quanto mais a uma criança de 6 anos. 
Lá passou o primeiro ano pois a professora dizia que ele devia ter um atraso qualquer e acho que o passou por pena, em vez de saber ao certo o porquê de o miúdo não conseguir ler ou escrever, mas sabia as respostas se ela lhe perguntasse. Durante este tempo, o puto vai cada vez mais tornando-se introvertido e taciturno, totalmente o contrário da sua personalidade.

No segundo ano, já era esperado que ele conseguisse ler e escrever. Magicamente um verão ele ia aparecer na aula de sua excelência, a saber tudo aquilo que ela não conseguiu ensinar... Chegar da escola e fazer os malditos trabalhos-de-casa, tornou-se numa odisseia, em que envolvia a nossa frustração, o meu irmão a chorar, stress, exaustão de ambos os lados e os TPC terminados por volta sempre da meia-noite. Obviamente, as coisas chegaram a um ponto em que os miúdos já faziam pouco do meu irmão, o tratamento da professora além de se manter ficou pior. 
Foi num acumular de coisas que os meus pais decidiram levar o meu irmão a um psicólogo pois os níveis de stress estavam nos píncaros e o miúdo estava a entrar em estado depressivo...

Foi então diagnosticado como disléxico profundo. Isto trocado por miúdos, só para terem uma ideia, a especialista avisou os meus pais que não sabia se ia conseguir colocar o meu irmão a ler e a escrever. Tenho, também, que salientar que as primeiras sessões da especialista, tiveram que ser a trabalhar a auto-confiança do meu irmão, estava mesmo em estado depressivo, achava-se burro e um inútil, quando, na verdade, tem inteligência acima da média.

Chega o fim do segundo ano e a especialista aconselha os meus pais a chumbarem o puto, devido a enumeras coisas, era a coisa mais acertada a fazer. Os nossos pais falam agora que se soubessem tinham logo levado à especialista na primeira classe e o tinham chumbado logo na altura... mas não sabíamos, não havia tanta informação como há agora e nós sabendo a inteligência do meu irmão, bem que coçávamos a cabeça não percebendo ao certo o porquê de ele não conseguir ler e escrever.
Sempre com sessões intensivas e o nosso apoio, aliados uma nova professora (que ensinava há mais de 20 anos), novos colegas, um novo começo... o puto começa a ler e a escrever! 
As notas reflectem aquilo que ele sabe, aquilo que ele estuda, os testes são adaptados para ele, a professora exalta-o em frente à turma quando ele é um dos melhores a matemática! A confiança aumenta, aos poucos volta a ser a criança extrovertida e tagarela que era antes.

Até à altura do secundário, foi sempre uma batalha, conseguir que as pessoas e certos professores percebessem que dislexia não era sinónimo de atraso. Depois houve uma explosão de notícias sobre o assunto, mais estudos divulgados e as pessoas passaram a estar informadas... Mesmo assim, o mal já estava feito, não é?

Houve pessoas que chegaram a dizer ao meu irmão que ele nunca iria conseguir chegar à universidade, que se dedicasse a um curso técnico ou que fosse para as obras pois a inteligência dele não dava para mais... Mas sabem a melhor? O puto foi para a Universidade, sim. Entrou com todo o mérito dele, está a acabar Informática e a fazer, orgulhosamente, o manguito a todas as pessoas que disseram que ele não seria capaz! 

35 comentários:

PEQUENOS DELITOS RENOVADOS disse...

História tocante! Fantástica! Que adorei ler!
A superação do ser humano é um fato notório. O amor, o carinho, a dedicação o empenho do profissional da educação.... tudo isso exerce papel preponderante ante o problema.
Os disléxicos não são doentes (ou qualquer outro adjetivo negativo que se lhe queiram dar!).... eles são portadores de outra forma de inteligência.
Que Deus proteja teu irmão e todos os professores que passaram pela vida dele, a pavimentar uma história de sucesso e superação.
Delícia te ler menina!!!!

A Lisboeta disse...

Sem dúvida que o teu irmão é um caso inspirador... :) e também faz-me ver que há pessoas que simplesmente não deviam estar no ensino, como é o caso dessa professora do primeiro ano. Parece que não têm noção das marcas que isso deixa na vida de uma pessoa...

Também já dei explicações a um aluno com dislexia e sim, o ritmo era de facto diferente, tinha que repetir muitas vezes as coisas, mas... no fim quando vi resultados, quando vi a negativa a passar para a positiva... nem tenho palavras para descrever a sensação :)

Miúda disse...

É assim mesmo... Muitas vezes em vez de ajuda, só há quem saiba meter mais para baixo... Mas ainda bem que tudo se resolveu a tempo e que ele agora é quem é por seu mérito :) Força e beijinhos :)

Saltos Altos Vermelhos disse...

Ainda bem que leio isto ♥ a minha pequenina vai agora para a primeira classe e não sei como será mas tenho a certeza que eu estarei lá para ela ♥ sempre!

lápis roído disse...

Yeah! :D Isto é a prova provada que a sociedade tem de ser mais perspicaz na detecção de um problema e que tem de saber dar-lhe resposta. Espero que o caminho glorioso do teu irmão possa prosseguir.
Quanto à primeira professora dele, anda para aí tanta bala perdida que podia encontrar um destino...

Observador disse...

Ser-me-á permitido chamar a atenção para a existência de quatro problemas: a dislexia, a disgrafia, a disortografia e a discalculia.
Sugiro o acompanhemento deste link que tem 17 páginas mas vale a pena ler:
http://www.ciec-uminho.org/documentos/ebooks/2307/pdfs/8%20Inf%C3%A2ncia%20e%20Inclus%C3%A3o/Dislexia.pdf

Acho piada a quem diagnostica o que quer que seja com base em coisa nenhuma.

Beijinho

Su disse...

Olá, C.,
Que história :S é impressionante o que, sem querer, essa professora ia tramar. Tanto professores como certos pais não têm noção como magoam as crianças com o que para eles não passa de umas palavras. Mas enfim, muita força para o teu irmão. É uma história de sucesso :D que continue forte e a mostrar o que vale! Assim é que é ;D

beijinhos

Avelã disse...

O período antes da ida ao psicólogo deve ter sido muito complicado para todos... Mesmo não tendo a informação de hoje em dia o comportamento da professora foi simplesmente horrível, de uma insensibilidade surpreendente! Ainda bem que tudo acabou por se resolver da melhor maneira.
Quanto ao preconceito face à dislexia e associação da mesma a falta de inteligência, acho que os 'grandes nomes' de cientistas disléxicos têm ajudado - numa época em que se pensa que cientistas como Pierre Curie, Faraday, Maxwell, Tesla e da Vinci (bem, acho que é redutor chamar cientista ao da Vinci, mas pronto :P) eram disléxicos as pessoas perdem a coragem de dizer que quem é disléxico é burro. E ainda bem! :)

Cynthia disse...

Acho que todos agradecemos teres partilhado a vossa história e acredito que tenhas um orgulho do tamanho do mundo no teu irmão. Acho deplorável que as pessoas tenham atitudes dessas e, infelizmente, ainda hoje, com muita informação relativa a um sem-número de assuntos, continuam a ser ignorantes e a desprezar o que não entendem ou não querem entender. Foi uma chapada sem mão a todos os que o rebaixaram. Tudo de bom para ele!

A Polegarzinha disse...

:)

A ignorância pode ser um grande monstro quanto ao assunto.

TheNotSoGirlyGirl disse...

Nice! A dislexia pode ser uma pedra no sapato, mas não impede nada! Muitos para ao teu irmão, tenho a certeza que estas muito orgulhosa dele :)

R: nao sei se alguma vez me irei converter aos e-readers porque gosto imenso da sensação de ter um livro nas mãos! E normalmente so leio nas férias...
Sim, já li o novo Harry Potter - comprei no dia do lançamento! Gostei, mas não é exactamente a mesma coisa que ler algo que dosse mesmo escrito pela jk Rowling.

Beijinho♥
the-not-so-girlygirl.blogspot.pt

Eu Sendo Assim disse...

Que bom que com outros profissionais vocês conseguiram superar tudo aquilo que os atormentava.

canaleusendoassim.blogspot.com

melissa moreira disse...

Uau! Seu irmão me inspira, tudo que ele passou foi difícil! Ele é um vencedor!
Jardim de Palavras

Tio Heartless disse...

E de minha parte, eu apoio o valente manguito do teu irmão. O/

Tio Heartless disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sweetie disse...

Uma história que toca sem dúvida!Bom post, beijinhos!

https://missweetie.blogspot.pt/2016/08/maquilhagem-nao-derretida-no-verao.html

Melanie Moreira disse...

História linda e emocionante! Às vezes precisamos de ter coragem para tornar este tipo de histórias públicas! Eu comecei agora as "Quintas Pessoais" e servem mesmo para isso, para partilhar histórias minhas e para quem quiser partilhar também nos comentários!
Beijinhos
http://that-g-i-r-l.blogspot.pt/

Janny disse...

o meu afilhado (11 anos) foi este ano diagnosticado com Dislexia e Défice de Atenção... é bom saber destes finais felizes como o do teu irmão!

Edna Silva disse...

Muitos parabéns! A minha mãe é professora de educação especial e eu desde sempre que tenho contacto com casos de dislexia. Não é nenhum problema nem nenhum bicho de sete cabeças, é algo normal e bastante mais comum do que nós pensamos. A minha mãe acha que também eu tenho uma ligeira dislexia, tal como ela tem, porém, a professora na minha escola dizia que não.

Beijinhos Edna,
xx, Edna
Mercury Rose

Cidchen disse...

Imagino o orgulho que nutres pelo teu irmão. E bem, bem sentido. :)
Para todas esss pessoas que disseram que ele não seria capaz, é uma chapada de luva branca. Ahahah

A Polegarzinha disse...

Hey, tenho instagram sim! @joanatcat :)

Ana Filipa disse...

Será muito mau voltar a dizer que me identifico?
Já vou cuscar a tag *-*, Obrigada! E MUITO OBRIGADA por teres partilhado a história do teu irmão :)

Noelle Simpson disse...

adorei a história e adorei sem sombra de dúvida esse final, não há nada melhor do que esfregar o nosso sucesso na cara das pessoas que sempre nos deitaram abaixo e duvidaram de nós!
esta história, mesmo tendo alguns anos, só prova que o nosso sistema de ensino valoriza as crianças "normais" e coloca de parte aquelas que tem uma pequena diferença, onde, por vezes, se esconde algo brilhante.
beijinhos, Noelle :) http://supergirlinconverse.blogspot.pt/

Sissi Ino disse...

Sinto este testemunho na primeira pessoa, não só porque sei bem o que os teus pais passaram, mas também porque o senti na pele. Ter um filho com dislexia é desgastante, para nós e para eles e não penses que agora os professores estão melhor informados. Acho que se o estão, não se interessam e os poucos que se interessam embarram numa coisa chamada sistema de ensino que trata as crianças como se tivessem que aprender da mesma maneira e onde não à espaço para se ser diferente. Em relação ao meu filho o grosso do trabalho foi e continua a ser realizado em casa, com ajuda de profissionais excelentes que tivemos a sorte de encontrar. Tivemos sorte e dinheiro para pagar, porque se não era mais um "burro" a juntar à enorme lista de crianças inteligentes e especiais, mas cujos os pais não podem ou não conseguem ajudar e que são pura e simplesmente marginalizadas. Por isso, querida C. hoje como há 20 anos, é preciso serem as famílias a lutar e as crianças, sim porque eles quando entendem o que se passa com eles, e eles não são burros e entendem, lutam e tornam-se tão bons e melhores do que os outros. Por isso, orgulho nos nossos meninos, mo meu no teu e em tantos outros que por esse mundo fora são tratados como uns "anormais", quando a anormalidade vem de quem os rotula. Desculpa a extensão do texto, mas tinha de partilhar...tenho um filme sobre este tema lá no meu blog, se não viste, vê... é fantástico...

http://reflexoesrapidas.blogspot.pt/2015/12/com-estrelas-na-terra.html

Muitos beijinhos e obrigado por partilhares!

Marta Moura disse...

:D

Inês Direito disse...

Um verdadeiro exemplo de persistência e da importância do apoio da família! O teu irmão é um lutador! Muitos parabéns!

beijinhos
https://direitoporlinhastortas-id.blogspot.pt/

*Nightwish* disse...

"As crianças conseguem ser cruéis mas os adultos são bem piores."
Não tenho lembrança de, à excepção da minha professora da primária, alguma vez ter um docente que realmente se preocupava com os seus alunos. E nem essa percebeu que eu era dislexica, achava que era apenas distraída, apesar de inteligente, e ia desculpando a distracção (e a preguiça) por causa disso.
Descobri que era dislexica no secundário. Não é nada de extraordinário, e como adquiri o gosto pela leitura relativamente cedo, acho que isso ajudou. Fazer matemática A no secundário deu-me a calma que precisava para conseguir escrever os número sem os confundir todos.
Mas na universidade um senhor doutor professor gozou com a minha cara quando lhe expliquei o meu "problema". (Não é problema nenhum, a estupidez é que é problema mesmo).
Felizmente, o teu irmão teve uns bons pais que o apoiaram, tentaram perceber o que poderia estar errado (a professora, claro) e não o fizeram ficar ainda mais depressivo e convicto que era um burro sem remédio. (Eu cá tinha terapia de choque).
E para finalizar, só tenho a dizer o seguinte: manguitos ftw!
****

Lia disse...

O meu irmão mais velho também andou num psicologo por causa dos mesmos motivos que o teu irmão (ha pessoas que nao deviam lidar com criancas, muito menos serem professoras primarias). Mas a dislexia dele era um grau baixissimo. Permitia-lhe ler e escrever, apenas com a troca (na escrita) de algumas letras.

pequenasvontades disse...

Eu, também detentora de dislexia porém de grau baixo, entendo tanto.
O meu pior medo é ler em público, porque ainda hoje me troco toda.
É sim, há vinte anos a dislexia era um bicho que pouco conheciam e muitos foram os casos de alunos apelidados de burros que apenas precisavam de ajuda,
Parabéns ao teu irmão!

Pensamentos Com Asas disse...

Uma história tocante que mexe com agente!

Kelly Anne disse...

Eu sou psicóloga escolar e conheço historias muito muito identicas! Obrigada por partilhares a história querida, as pessoas têm de entender que ninguém é "burro" ou incapaz de aprender. NUNCA. há sempre coisas a fazer e nunca mas nunca desistir de perceber qual o problema e a solução para o mesmo!

Beijinho, Kelly
Blogue Scream of Beauty
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Cátia disse...

Sem dúvida um caso de sucesso. O teu irmão é um bom exemplo de que com o acompanhamento certo, tudo se consegue.
O meu irmão tem um défice de concentração que sempre o acompanhou mas nunca foi muito bem acompanhado. Chegou a tomar medicação mas como ele próprio arranjou maneiras de se concentrar deixou de a tomar. Chegámos à conclusão que ele não é de estudar, nunca foi. Há pessoas que são assim. Mas vai entrar no último ano do curso de Serviço de Mesa e Bar que ele tanto adora onde consegue conciliar o estudo com a prática que é onde ele é bom.

Cátia ∫ Meraki

Andreia Morais disse...

A falta de informação é uma arma perigosa. E essa "professora" nem devia estar a exercer!

r: Muito obrigada :)

Anjo De Cor disse...

O preconceito em relação ao diferente é lixado.
O diferente não quer dizer que seja mau, mas na maioria das vezes por ignorância é mal tolerado.
Estou certa que o teu irmão será um excelente profissional um dia quando acabar o seu curso. ;)

Mary Brown disse...

Sei o que é dislexia e,na altura que dei explicações, dei a uma miúda disléxica. Isso foi há uns 30 anos.Tinha até um livro próprio, não me recordo já do nome, para ensinar pessoas com problemas destes. Pena que uma professora não tenha sido alertada e ensinada a ajudar miúdos com este problema. Beijinhos